Flavia Aranha

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Os bordados, histórias e memórias das Arteiras Maristas

Essa semana recebemos Lilian e Baíca, bordadeiras do coletivo Maristas em nosso ateliê. As duas desenvolveram e produziram bordados lindos da nossa nova coleção. A aproximação se deu por meio do instituto ECOTECE, dentro do projeto LAB +. A idéia do projeto é aproximar produtor e marca numa relação mais próxima e humana em que a troca é fundamental para o processo criativo. A quatro mãos foram criados os bordados de linha e madrepérola que aparecem nas peças de linho da nossa coleção Solar.

Foram vários encontros em nosso jardim. Tardes de pontos, pespontos, histórias, memórias. Abstrair uma figura, uma sensação. Encontrar o ritmo, a delicadeza, os espaços vazios, respiros. 

O contato com elas vai além do trabalho em si. Entender o papel do trabalho manual, sob uma perspectiva plural, e nesse caso, pelo bordado, é enriquecedor e inspirador. Perguntamos a elas como tudo começou e qual é a importância desse trabalho em suas trajetórias. Abaixo, compartilhamos com vocês o que é bordar, segundo as Arteiras Maristas:

Baíca:

Comecei a bordar na minha terra aos 8 anos de idade, fazia ponto cruz. Lá existia uma associação em que bordávamos camisetas para ir para a França, pois o marido de uma amiga levava para lá. Naquele tempo dava para ganhar um dinheiro bom, pois as técnicas não estavam tão espalhadas pelo mundo, então o trabalho era valorizado.

Depois de mais velha comecei a aprender os pontos cheios. Minha avó era costureira e minha mãe também, então quando não tinha roupa para costurar eu fazia bordado. Mas o bordado não era meu único trabalho, eu ia para a roça trabalhar, fazia de tudo um pouco.

Em 2006 vim para Sã Paulo para ficar com a minha filha. Tenho muita saudade de lá, se eu conseguisse voltaria todo o ano. Quando vim pra cá eu fazia bordado como forma de terapia e depois que entrei para o projeto das Arteiras que comecei a ter contato profissional, de parcerias, vendas em feiras e viver disso. Em 2012 a Lilian deu uma aula em um grupo de idosos e foi onde aprofundei o meu conhecimento em bordados.

Lilian:

Eu bordo desde criança, mas profissionalmente foi a partir de 2008, quando entrei no projeto de dar aula para alunos da terceira idade. Eu fui criada em uma família bastante humilde, mas meu pai era bastante enérgico. Era aquele tipo de pai que não deixava sair para a rua, não podia usar saia acima do joelho, senão você apanhava. Eu tinha o meu bastidor e minha mãe desenhava um monte de flores. Eu tinha a obrigação de bordar a tarde toda, das 14h às 16h30. Nessa época eu odiava. Peguei trauma de bordado e por isso passei anos sem bordar. Eu olhava para bordados e me dava um desespero. Em 2002 voltei com o ponto cruz. Em 2008 trouxe todas as técnicas de volta. Sou autodidata. Quando me interesso por alguma coisa eu pesquiso e vou atrás até aprender. 

Eu sempre tive vontade de formar um projeto com bordadeiras, de pegar mulheres em vulnerabilidade, mulheres que têm dificuldades em casa e que sofrem de violência. O bordado, apesar de não ser tão valorizado no nosso país, principalmente na cidade de São Paulo, onde tudo é máquina consegue mudar a vida das pessoas. Quando você está em uma roda de mulheres bordando elas contam as histórias. Cada ponto carrega uma história. O meu, por exemplo, remete à minha infância, quando eu era obrigada por existir essa tradição de que a menina devia aprender a ser do lar. O bordado carrega consigo a história e é isso que eu acho lindo. Enquanto as mulheres estão bordando, ficam registradas suas histórias, seus sonhos, seus desejos... Isso é muito rico.

A minha vontade com o grupo é justamente de dar essa consciência do que o bordado carrega consigo. Conseguir fazer com que as pessoas se conscientizem disso. Que o bordado não é somente um ornamento, ele tem uma história, tem sentimentos. Se você não tiver a concentração, se não gostar e não se deixar perder naquele monte de pontos, ele não sai legal, sai uma coisa mecânica. Quando você faz com carinho, está olhando para o que está fazendo, você acaba desenvolvendo uma sensação de autocrítica que também é importante.

Criei o projeto das Arteiras em 2012. Conheci a rede Marista de educação e descobri que eles tinham um projeto social muito interessante. Fui contratada por eles por uma assistente social, a Daniela, que foi a grande incentivadora do grupo, e a rede passou a bancar as oficinais para possibilitar que o grupo fosse criado. Já fomos em 12 mulheres, mas por conta do bordado não ser tão valorizado e a gente não conseguir parcerias, as mulheres foram saindo em busca de mercado. Acabou ficando só eu e a Baíca desde o começo deste ano. Ficamos pois não queríamos deixar o projeto morrer. A rede Marista têm 4 projetos sociais em São Paulo: são duas creches e dois centros para adolescentes, todos na periferia leste de SP. É um projeto bem importante pois é diferente dos demais do município, lá as crianças aprendem a ter autonomia. O nosso projeto se enquadra dentro da iniciativa de economia solidária deles. O objetivo é capacitar as mães e avós - responsáveis por essas crianças e adolescentes - que não podem trabalhar e não tem formação,  dando aulas de trabalhos manuais, para que a partir dali formem grupos que incentivam elas a gerar renda.

O Ecotece entrou em nossas vidas esse ano, em abril. Através delas que entramos em contato com a parte da moda mesmo. Sinto que é isso que falta nos projetos sociais, que lidam com grupos produtivos, é esse trabalho que consegue diferenciar, pois não temos acesso às grandes marcas ou aos estilistas. Normalmente os trabalhos que achamos não valorizam a mão de obra artesanal. Foi interessante por conta disso, pois pudemos uma enxergar de uma nova forma. Tínhamos uma visão padrão do que é o bordado, que apesar de ricos é aquela coisa tradicional, com flores, bichos... São os mesmos pontos porém de uma forma desconstruída. 

Com a Flavia começamos a trabalhar em agosto, nesta coleção, e é a primeira marca de moda que estamos trabalhando. Primeiro, fizemos alguns testes para ela conhecer o nosso trabalho e aí depois que ela gostou começamos a pilotar esses bordados com madrepérola. O que me chama muita atenção com relação a Flavia, é a empatia que existiu entre ela e a gente, é muita confiança. Pois pegar uma peça cara, com materiais como linho e seda e entregar na nossa mão para bordar, tem que existir muita segurança. Isso deixa a gente com a bola cheia! A equipe toda é muito doce. Além do dinheiro, que é muito importante, pois todo mundo precisa trabalhar, o que é muito recompensador é essa confiança. Para mim isso é transformador. 

 

Flavia Aranha