Flavia Aranha

Blog

Os índigos de Marina Stuginski

O tingimento natural com índigo é um dos mais artesanais do nosso ateliê. Seu processo exige que as peças sejam tingidas uma a uma, mergulhadas e permanecidas dentro da água azul. Uma de nossas parceiras da última coleção foi Marina Stuginski, que desenvolveu a estamparia artesanal usando goma de mandioca com tingimento natural de índigo, como já mostramos em vídeo aqui no blog. E a conexão de Marina com o índigo vai muito além da técnica, é algo afetivo e muito sensorial. Conversamos com ela para saber mais sobre sua relação com esta cor. Leia abaixo a entrevista completa! <3

O que te levou a se conectar com o índigo?

O jeans e sua cultura. 

Comecei a desenhar jeans em 2004 e bateu forte! Porque tem a ver com meu estilo de criar, de traços, de olhar. Gosto na simplicidade do jeans, também amo construir calça, é minha peça favorita. Nestes 13 anos eu desenhei muito jeans, para muitos gostos, várias marcas e diferentes públicos. E nisso de amar, você se envolve... Eu tenho uma tendência ao purismo, ainda mais quando a peça original ainda é tão fresca e tão bacana, e ser purista no jeans e não olhar para o Japão ainda não é um purista. Muitas coisas acontecem e um dia achei um boro da era Meji para vender. Não pude comprar mas aquilo se tornou minha peça desejo. Olhei por meses, diversos detalhes em fotos, achei aquilo a coisa mais maravilhosa de todos os tempos. E com o boro veio o índigo. E veio toda a arte têxtil que o japão vem por séculos desenvolvendo. Os sashikos, os katazomes, os shiboris, ikats, teares... O boro até parece um catálogo de amostras, tipo a vida, que vai sendo construída ao acaso das necessidades... E aí vieram tantas outras histórias, saberes, aprendizados, é amor e envolvimento. 

Em 2014 vieram várias mudanças, perdas e transformações e eu optei então ir por um caminho que era mais compatível com o que eu gostava e admirava, tanto na questão de design e estilo como o que queria como futuro. Nesta época eu já estava obcecada pelo índigo natural então foi a oportunidade de investir em um projeto meu. E também eu vinha de 8 anos em lavanderia industrial, ir para o tingimento natural foi uma evolução daquilo que eu já fazia, tanto amava mas de uma maneira mais consciente sobre os impactos que a tinturaria e lavanderia causam e não tão poluente. É também uma continuação mais sofisticada e artística do design de superfícies que já fazia na lavanderia de jeans. 

Quais as suas principais referências?

Minhas referências estão em constante movimento. Como disse antes, o boro é uma grande referência quando eu penso em índigo natural mas eu também adoro estórias, o que as pessoas me contam, suas histórias. Gosto muito de mitos, sempre leio porque faz minha imaginação voar e também questionar minhas necessidades, rever os significados e valores que dou. Mas sempre quando eu começo qualquer trabalho de desenho vou lá na bauhaus e nos movimentos artísticos do modernismo do século XX. Gosto de vários artistas brasileiros, da arquitetura, da pintura, do revestimento, da literatura... Adoro mobiliário, cadeiras, abajures, luminárias, lustres, tapeçaria e design de superfícies. 

A geometria também me encanta. Os padrões geométricos e mandalas dos turcos. Outra grande referência q me acompanha há anos é Kiefer. 

O que é mais especial no índigo para você?

Esta pergunta é tipo aquela clássica: "o que é mais especial na pessoa que você ama?" Aí você pensa por horas e diz "Ah, o sorriso" ou algo bem besta tipo; o azul. Mas é. Azul representa o infinito, o redondo, a água, Nut a Deusa, as Deusas, a mulher. E o índigo tem a analogia com a vida, e com o passar do tempo, tanto a tina, que jovem é brilhante e saturada e quando vai envelhecendo vai esmaecendo, desmaiando. Também o tecido, que vai desbotando com o tempo e com o uso, mas não perde sua referência original da cor. Fala de ciclos, da transitoriedade e impermanência da vida para diversas culturas. É lindo o índigo. 

Qual a sua relação com todo o processo?

Desde 2014 venho trabalhando com o índigo de maneira progressiva e intensa. Testo várias receitas e maneiras de redução, fui aprendendo com o tempo a tingir melhor, a não manchar o tecido com oxidação desigual, a entender o silêncio da tina, a leveza de por e tirar o tecido, sutilezas que só o tempo, a dedicação, vários erros e acertos, observações nos fazem entender. Não fiz curso de índigo, venho este tempo todo estudando por conta própria, de maneira independente, então foram e ainda são muitas tentativas. 

Sabemos que você está plantando índigo, você pode nos contar como está sendo a experiência?

Agora estou na fase de testes de fermentação, oxigenação e decantação, para fazer o índigo em pó. É necessário porque não estou no campo, meu estúdio é no coração de São Paulo. Hoje importo praticamente todo o índigo que uso. Mas desde quando comecei a trabalhar com índigo eu quis plantar e ter meu próprio corante, importar atende minhas necessidades imediatas, mas o objetivo é ser local, diminuir a pegada de carbono, empoderar o meu entorno. 

Quando colhidas, as folhas de anileira têm que entrar imediatamente na água para não perder sua potência tintória. Se secam, o azul oxida na folha (e ela fica azul acinzentada) e a tinta não fica de boa qualidade. Mesmo que existam outras maneiras para extrair o índigo, extrair em forma de pó é a mais viável para mim. Tenho poucos pés plantados no Paraná. A maior parte das fermentações que fiz, foi com anileira selvagem, que nasceu no mato sem ser semeada. Tem muito pasto, mas muito pasto com anileiras em Colorado. A gente detecta as áreas com anileira, pedimos licença ao proprietário e carpimos uns lotes pra ele, tudo na enxada, uma trabalheira. Esta alternativa está dando certo por enquanto e estamos estudando desdobramentos. Queremos ter uma área maior de cultivo, mas isso entra na logística de safras no campo e de prioridades. Precisa de muitas plantas para se fazer 1 kg de índigo, várias centenas delas! Quero deixar o processo de extração mais refinado para investir em cultivar uma área maior. Mesmo assim as selvagens inicialmente me servem muito bem. O maior desafio agora é extrair um pó de boa qualidade. A pasta já conseguimos um bom resultado. Mas está sendo bem divertido, família toda ajudando, irmão mandando vários materiais de leitura, outro irmão me ajudando diretamente com a plantação, cultivo e extração. Sobrinhos sempre em volta do azul. Estou feliz. 

Flavia Aranha