Flavia Aranha

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Mulheres que sopram a vida

Cresci em um ambiente de mulheres fortes. Filha da classe média e nascida no interior, observei atentamente mulheres carregando o mundo nas costas. Elas eram lindas, poderosas e por muito tempo achei que o mundo era comandado por mulheres mesmo. Cresci um pouco e entendi que aquele preço era alto, muito alto. Que os homens afinal mandavam em tudo, mas carregavam um peso bem menor ou, simplesmente, não carregavam. Mas eu aprendi a ser independente com elas. Minha gratidão eterna a essas lindas mulheres.

Já adulta, em São Paulo, passei a ter novas referências. Observei, calada, os abusos do mundo. Saí da bolha e desejei intensamente me conectar com outras mulheres, entender suas trajetórias, suas potências, suas feridas, suas curas e seus devaneios por meio do trabalho manual.

Ainda na faculdade, criei as “Sete mulheres que sopram a vida”. Fui para Itatiba encontrar um grupo de artesãs que bordavam arraiolo. Fizemos juntas as vestes dessas sete mulheres que criamos. E em cada ponto contamos suas histórias.

Durante alguns anos me ausentei dessa busca. Fui viver minha versão masculina. Fiquei distante de mim. E foi em uma viagem à India que decidi voltar. Até hoje lembro daquela imagem. Em uma fábrica, muitas mulheres trabalhavam ali. Uma em especial me chamou a atenção. Estava vestida em um sari colorido, sentada no chão bordando um vestido. Sentada no chão. Ela morava ali ao lado da fábrica. Sua casa não tinha paredes. As divisórias eram de pano, o chão de terra batida. Haviam outras mulheres morando ali e trabalhando naquele lugar. Olhei atentamente aquela imagem.

Reconectei-me com o feminino. Decidi trabalhar com mulheres. Decidi procurar por mulheres que tivessem histórias para contar. Que soubessem fazer coisas com suas mãos. Desde então, tenho vivido e aprendido com muitas mulheres.

Com a Eva aprendi que o mundo pode mesmo ser cruel com as mulheres. Principalmente com as mulheres pobres. Aldenisea me ensinou como se prega o viés mais perfeito e também como devemos lutar para encontrar nosso lugar no mundo. Inquieta, ela foi para todos os cantos buscar seu lugar no mundo. Sozinha. Firme. Ângela, doce, costurou quase todas as nossas primeiras coleções. Avesso e direito são a mesma coisa pra ela. Seu coração é enorme, cabe muita gente ali. Coube-me também. Que sorte a minha.

Dona Ana e a roca. Foi a primeira vez que eu vi com os meus próprios olhos alguém fiar em uma roca. Aquela experiência me parecia muito poderosa. Transformar algodão em fio, com a sensibilidade dos dedos em sincronia com o pé. Mágica, talento, tradição. Intrigava-me o fato daquele ofício tão poderoso estar associado ao papel doméstico da mulher que era prover a casa. Até pouco tempo, os trabalhos manuais de maneira geral representavam a opressão da sociedade patriarcal: o homem sai para trabalhar, a mulher cuida de casa e provém a família por meio do artesanato.

Observando o processo de fiação artesanal entendi que o trabalho manual era uma revolução calada. Para muitas mulheres, o fazer com as mãos pode representar as palavras que não puderam ser ditas, os sonhos que não puderam ser realizados, as feridas que não puderam ser curadas. Também representam o poder. Porque lhes dá autonomia. A partir de um certo momento, as mulheres puderam usar o trabalho manual para romper. Puderam sair de casa. Puderam ficar por lá – se assim quisessem. Mas em algum momento, puderam usar da pequena arma que tinham para escolher suas trajetórias. Pequenas escolhas. Singelas. Mas muito poderosas. Suas mão podem lhes sustentar, emancipar, libertar.

Voltei de Pirenópolis e lancei minha primeira coleção em um pequeno ateliê na Rua Aspicuelta, fundos. Aquele tecido de algodão colhido, descaroçado, fiado,  urdido e tecido à mão foi o começo de tudo. Ali estavam meus valores, meus sonhos e também minhas conquistas.

Aos poucos as clientes passaram a conhecer essa história. Compraram essas roupas. E mais mulheres entraram para o projeto.

Logo no início: Lisa, Marilia, Gabriela, Nathalia, Ana Paula, Terezinha, Victoria, Neia, Cremilda, Cris.

 A Cris me acolheu. Foi meu braço direito e esquerdo nos primeiros e fundamentais anos.

Vivi, nossa chefe de pilotagem. Atualmente é nossa funcionaria mais antiga. São dela os menores pontos . Vivi amadureceu junto comigo e com nossa roupa. Encontrou as melhores saídas para a o movimento bruto das máquinas industriais que furavam nossas peças aos primeiros sinais do nosso crescimento. Buscou soluções práticas para esse processo difícil que é crescer.

Ane, Tati, Karina, Neide, Helena, Cintia, Bárbara, Poli, Cris, Karen e Cida.

A força feminina prevalece na Aspicuelta, 224. Nossa potência faz do nosso projeto resistir e prosperar. Nossa roupa tem a história de todas nós e de todas as outras mulheres que tecem, bordam, tingem, costuram nossas roupas em outros lugares. São Paulo, Muzambinho, Urucuia, Vale da Seda, Pindorama, Dilermando Aguiar. João Pessoa, Jaguaribe, Porto Alegre.

Mayumi, Luciana, Francisca, Nelsa, Juliana, Glicinea. Revolucionárias, empreendedoras, essas mulheres estão mudando o mundo em seus pequenos grandes espaços. São minhas referências, meu norte.

Tati, Marina, Mara, Hisako, estão pintando o mundo com suas cores mágicas.

Lia, Marina, Fernanda, Mariana, Ana, Mari, Gabi, Agus , Baby, Laura, Celina, Cristal, Fernanda, Cristina e tantas outras incríveis mulheres estão dizendo para o mundo e para os jovens coisas fundamenteis: podemos refazer, podemos repensar o consumo, podemos escolher diferente. Quem faz sua roupa? Já ouviu falar em ecofeminismo? Você é linda assim, do jeito que quiser ser. Quer aprender a fazer você mesma?

Antes de terminar, não poderiam faltar nesse relato tantas outras incríveis mulheres: Laura, Ana, Vic, Nathalia, Marilia, Ellen, Carol, Talita, Fernanda, Rosângela, Malu, Gildene, Jussara, Graça, Davini, Nice, Karina, Ana, Barbara, Cecília, Camila, Baica, Lillian, todas as meninas do CAPS, Ive, Dudy, Jack, Alaide, Dionete, Monique, Celina, Sharen. Mila. Ivoneide, Diva, Marluce e todas as artesãs do Vale do Urucuia.

Todas elas, de longe e de perto, fizeram um pedacinho da nossa história e emprestaram talento, força e poder para nossas roupas.

<3

Flavia Aranha