Daniela Laloum _ Diálogos do Vestir #33

Daniela Laloum _ Diálogos do Vestir #33

Daniela Laloum é a convidada da edição #33 do Diálogos do Vestir.

Daniela Laloum nasceu em São Paulo e é florista há mais de três décadas. Formada em Arquitetura pela Escola de Belas Artes de São Paulo, passou pela moda e pela televisão antes de encontrar nas flores a matéria para o seu trabalho. Trabalhou em uma floricultura em Londres, estudou artes florais em Paris e, de volta a São Paulo, fundou a Fulô, em 1994.

Desde então, construiu uma linguagem própria a partir das plantas, trabalhando com flores, galhos, sementes, frutas e outros elementos que encontra ao redor. Em vez de buscar formas rígidas ou perfeitamente acabadas, Daniela olha para a própria natureza como referência, suas proporções, ciclos, transformações e a maneira como diferentes matérias convivem.

Para esta edição do Diálogos do Vestir, encontramos Daniela na Fulô para conversar sobre criação, sua relação com o vestir e uma trajetória de mais de 30 anos trabalhando com flores. “É como se eu estivesse numa festa, nem sinto o tempo passar, eu gosto muito do que eu faço”.

[F - A] Dani, como é a sua relação com o vestir? O que guia suas escolhas quando você se veste?
DANIELA LALOUM: Ah, eu sou leonina, eu adoro me vestir. Eu me visto para mim mesma.

No dia a dia, eu sou uma pessoa prática. Eu gosto de me vestir prático para não me preocupar com isso. Como o meu trabalho e tudo mais, nunca estou muito arrumada. Mas aí eu chego em casa, a primeira coisa que eu faço, geralmente a gente tira a roupa e põe a roupa de casa, mas eu já estou o dia inteiro com uma roupa confortável. Então, quando eu chego em casa, eu me monto inteira para mim mesma. E eu acho que é um cuidado, né? A gente ter uma roupa de um tecido natural, tingimento natural… Isso sim é um luxo puro, né? É maravilhoso.

[F - A] Antes das flores, você se formou em Arquitetura e passou por universos como a moda e a televisão. Depois, trabalhou com flores em Londres e estudou artes florais em Paris. Como foi esse percurso até entender que as plantas seriam a matéria do seu trabalho?
DANIELA LALOUM: É quase como se elas tivessem caído na minha mão mesmo, no meu colo.

Eu tenho três filhos e eu vejo eles com essa idade do começo da vida, o que você vai fazer para o resto da sua vida como trabalho, né? É tão interessante porque pode ser tantas coisas. Tem pessoas que se encaixam de primeira, descobrem logo no começo o que querem fazer. Tem pessoas que têm mais dificuldade, que tentam uma coisa, não é bem isso, é quase lá e vai indo.

Para mim, tudo que eu fiz era como se fosse um caminho para chegar nas flores. Eu acredito que é uma manifestação artística, acho que sempre quis ser artista de alguma maneira. Eu tenho uma necessidade muito grande de criação, de fazer coisas para alimentar o meu temperamento, vamos dizer assim.

Para mim é muito importante criar. Então eu descobri que conseguia fazer isso através das flores. Foi uma maneira que eu encontrei de dar vazão à minha criatividade.

[F - A] Na Flavia Aranha, trabalhamos com matérias que já chegam carregando uma história (uma fibra, uma casca, uma planta), então existe sempre uma negociação entre aquilo que imaginamos e aquilo que a matéria permite. Imagino que trabalhar com flores também exija essa escuta. Como a natureza participa das decisões que você toma durante o processo de criação? Como ela te inspira?
DANIELA LALOUM: É uma conversa muito fácil, eu sou totalmente sem preconceito. Eu não sou contra usar nenhum outro material. A natureza em si é minha maior inspiração, então sempre quando eu tenho alguma dúvida de como está ficando o arranjo, eu penso na natureza.

A natureza não é perfeita, ela só acontece. Ela se manifesta. Ela não tem um padrão rígido, ela é solta, ela é forte... Então a natureza é sempre a minha maior inspiração e o meu processo é de não ter preconceito contra nenhuma forma, nenhum tamanho e nenhum material.

Eu gosto de incluir outras coisas no meio, às vezes a gente inclui não só flores, mas eu posso incluir coisas como canela, que eu adoro. Algumas sementes secas.

Podemos incluir fruta, legumes, às vezes até tecido.

O significado para onde as flores estão indo é muito importante também. Então se você vai fazer um casamento na praia, por exemplo, para mim não faz sentido trazer flores que não tenham lá. Você já está casando num lugar maravilhoso, a gente pode se apropriar das coisas que tem ao redor.

Geralmente quando uma pessoa vai casar num lugar onde a natureza é mais marcante, ela impera. A gente se abastece das coisas ao redor. Então eu vou só com a minha tesoura e eu faço como se fosse uma poda nos arredores, dentro do mato, vou pegando coisas. Cascas de árvore, tronco, as coisas que tem ao redor. E vamos fazendo a decoração assim.

O Brasil é um país que tem muita natureza, o clima é muito bom. É tão bom que a gente até esquece., a gente esquece da natureza. Eu morei um tempo fora e vi a diferença no hemisfério norte, que tem um clima mais difícil, um inverno mais rigoroso. As pessoas não se entrosam tanto, saem menos de casa. E o quanto é importante trazer a natureza pra dentro da casa. Então as pessoas têm esse costume de quando estão voltando pra casa comprarem um buquê de flor, todo mundo tem flor em casa.

Pra gente, já não. Porque a gente tem tanta abundância de natureza que a gente não dá tanta bola pra ela. Hoje em dia está um pouco complicado falar de clima, porque as coisas estão mudando. Mas no geral, a gente continua tendo esse exagero de natureza, que é bom, mas que as pessoas não cuidam tanto.

[F - A] Você trabalha com flores em uma cidade como São Paulo há mais de três décadas. Nesse período, a cidade mudou muito e também mudou nossa relação com natureza, consumo e espaço urbano. O que você percebe de transformação na maneira como as pessoas se relacionam com as flores?
DANIELA LALOUM: Eu acho que as pessoas estão percebendo a alegria, a delícia que é você ter um pouco de verde dentro de casa. As pessoas estão aos poucos se preocupando com isso. Então, eu vejo muita demanda de “ah, eu quero fazer uma varanda bonita na minha casa”, “eu quero fazer uma hortinha pra poder cozinhar”, “eu quero ter flores toda semana”... Então, isso é uma coisa que está crescendo.

A gente tem novas influências nas redes sociais, é como se cada um fosse ter o seu próprio jornal. As pessoas estão se manifestando e tá todo mundo vendo: “ah, é verdade, ela tem flor na casa dela, eu também quero, eu quero fazer isso”.

Eu lembro quando comecei a trabalhar nos anos 90, foi um momento que a decoração começou a ser uma coisa importante, virou um protagonismo. Um evento que você fazia com uma decoração bonita era um evento que saía na mídia, que as pessoas comentavam. Não tinha muitas pessoas trabalhando com isso, foi crescendo.

E é muito gostoso trabalhar com flor, porque é uma troca. Você fica quase que neutralizado, você se auto limpa o dia inteiro. Não só trabalhar com o que você gosta, que também é uma dádiva, mas trabalhar com planta é uma coisa que traz uma energia muito boa.

Não é que todo mundo deveria trabalhar com planta, mas eu recomendo as pessoas terem planta em casa, faz toda a diferença. Se você não tem espaço, sempre tem um canto ali que você pode pôr um vaso verde com umas plantas que criam raiz. Se você não tem espaço para ter uma varanda, você pode ter buquê e deixa até ele secar, até sair toda a água de dentro dele. É muito bonito a transformação, é muito bonito ver o caminho que essa flor faz, sabe? É uma beleza que não acaba.

A flor é linda quando está cheia de água, quando ela está viva, mas quando ela seca, ela também fica linda. E continua reverberando.

Registros: Camilla Loreta

Compre as peças escolhidas por Dani: Vestido Aparecida; Rasteira Impressão Botânica Catuaba, Macela, Clitória; Camisa Elina Modal Rosa; Calça Gaia Modal Rosa; Vestido Bela Modal Areia

>Confira as edições anteriores da série Diálogos do Vestir

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