Aline Bispo (São Paulo, SP, 1989) é multiartista visual, ilustradora e curadora do Acervo Ibirapitanga. É também colunista do Nós, mulheres da periferia. Em suas produções, investiga temáticas que cruzam a miscigenação brasileira, gênero, sincretismos religiosos e étnicos.
A convite do MASP, a artista se juntou à Flavia Aranha para produzir três looks que compõem a exposição “Arte na Moda”, que foi inaugurada em março de 2024. Uma jornada de transformação das pinturas de Aline em roupa, com o uso dos pigmentos naturais presentes nas peças da marca.
Aline Bispo é nossa convidada da edição #14 do Diálogos do Vestir.

VOCÊ JÁ FEZ COLLABS COM MARCAS DE MODA, PARTICIPOU NA SPFW COM SUA ESTAMPARIA E EM SUAS OBRAS AS VESTIMENTAS TRAZEM CÓDIGOS DE VIVÊNCIAS, RELIGIOSIDADE. COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Eu cresci vendo minha mãe costurando enquanto eu usava os retalhos para fazer roupas para minhas bonecas, eu amava folhear as revistas de moda, especialmente as antigas que além de editorial também tinham outras informações de lifestyle, arquitetura e decoração. Então acho que minha relação com o vestir vem primariamente dessa construção de memórias, de roupas feitas por minha mãe, dela tirando medidas minhas e do meu pai, fazendo camisas, saias, macacões. Posteriormente quando eu já era um pouco mais velha a relação com a moda sempre esteve presente a partir da minha necessidade de transmitir uma identidade, de levar o que estava em meu interior para o exterior, então os processos criativos, a música, e sentimentos sempre estavam presentes de algum modo nas roupas.
CONTA DA SUA TRAJETÓRIA COMO ARTISTA, O CAMINHO TRAÇADO ATÉ CHEGAR AO PRESENTE.
Eu sempre desenhei, desde a infância, e sempre busquei estímulos para exercer a minha criatividade de alguma forma. Fui estudar design de interiores, depois comunicação visual, design se tornou uma grande paixão e que eu levo para a vida, tanto que gosto muito de ler livros técnicos, apenas para aprender ou pensar em temas. Paralelamente aos estudos de design eu pintava nas ruas, então o graffiti foi um processo inicial bem importante para que eu conhecesse outras pessoas criativas, pudesse observar pessoas que desenvolviam seus trabalhos artísticos e viviam disso, além da primeira experiência nas ruas deixando meu nome. Após os estudos de comunicação visual eu embarquei na ilustração digital, comecei a compartilhar mais da minha produção autoral nas redes sociais e a realizar os primeiros trabalhos com instituições, incluindo cursos, oficinas e também trabalhos junto à educativos de espaços expositivos. Foi então que decidi cursar artes visuais, porque eu queria abrir outros caminhos de pesquisa e expandir, indo além dos limites técnicos que eu visualizava para mim, sendo muito importante para mim cursar um curso tradicional, passando por pintura, escultura, fotografia, performance e gravura. Tudo isso foi fundamental para me auxiliar também nas expansões internas de autoconhecimento e das conexões de pesquisa ligadas à fé, às pluralidades brasileiras e ideias que me acompanhavam desde que eu fazia grafites pelas ruas.
Depois disso, quase no mesmo período de conclusão de curso, que Torto Arado foi lançado, sendo minha primeira capa de livro, fiz as primeiras estampas para tecido e iniciei alguns trabalhos ligados a veículos de comunicação, ações que me abriram portas para continuar estudando pintura, aumentar minha produção, participar de residências artísticas, fazer as primeiras pinturas de prédios por São Paulo e também passar a ter uma representação em galeria. Meios que cooperaram para que pesquisas como as que venho fazendo pelo país, desde 2022, visitando festividades religiosas e reunindo materiais que influenciam a minha mais recente exposição: "A linha dá o ponto, a linha dá o nó".

COMO COSTUMA SER O SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO?
Eu preciso ser muito disciplinada e organizada, dentro e fora do ateliê. Horários para comer, para entrar e para sair fazem parte da rotina, para que eu consiga produzir. Como além da produção artística como artista visual também desenvolvo ações com marcas, trabalhos que vão para o meio editorial, parcerias e curadoria, eu tenho a necessidade de estar sempre com tudo em ordem, para não me sobrecarregar e dar conta de tudo.
Fora isso, para me inspirar, leio, assisto e ouço coisas relacionadas ao que estiver pesquisando, vejo pessoas, me conecto com o tema que estiver buscando e de tempos em tempos me desconecto do que eu estiver pesquisando, para ter alguns respiros.
Gosto de pensar também que ao mesmo tempo que eu tenho uma linha definida de pesquisa, todas as coisas, ambientes e pessoas podem fazer parte das buscas e investigações, então também encaro como natural fazer links entre o que encontro no dia-a-dia e posso trazer para minha produção. A natureza, as cidades, as pessoas, tudo…
QUAIS SÃO AS SUAS REFERÊNCIAS NO QUE DIZ RESPEITO À PENSAR E PRODUZIR ARTE?
Eu sempre falo sobre como alguns pilares são fixos para mim, artistas como Rosana Paulino, Sidney Amaral e Dalton Paula são minhas maiores referências, principalmente porque abriram e continuam abrindo caminhos para produções similares à minha.

COMO FOI ESSE ENCONTRO COM A FLAVIA ARANHA? CONTA UM POUCO SOBRE COMO FOI O PROCESSO PARA A EXPOSIÇÃO “ARTE NA MODA” PARA O MASP.
O encontro com a Flavia foi muito especial, como tudo começou dentro de um recorte pandêmico ficamos muito tempo dialogando, trocando sobre nossas expectativas, intenções e sobre pontos em comum do nosso trabalho. Quando iniciei as pinturas foi maravilhoso, o contato com os processos de tingimento, a relação com a materialidade, a compreensão do uso das tintas nos tecidos, a diferença de pintar em uma tela, tudo isso fez parte do resultado que alcançamos. Para mim era uma experiência de alquimia, desde escolher os tons e fazer testes, até realizar as pinturas. Em alguns momentos eu e Flavia não nos víamos, mas sempre estávamos em diálogo sobre o que estava acontecendo e sobre como as coisas estavam ficando.
Então toda a troca foi muito orgânica e muito linda, há muito sentimento envolvido e muitos desejos em comum sobre o que pensamos e desejamos para os futuros possíveis.
NO SEU TRABALHO, VOCÊ UTILIZA TINTA À ÓLEO, ACRÍLICA, GUACHE, GRAFITE ENTRE OUTROS SUPORTES E MATERIAIS. COMO FOI EXPERIENCIAR OS PIGMENTOS NATURAIS E VIVOS UTILIZADOS PELA FLAVIA ARANHA?
Inicialmente foi desafiador. Mesmo após conhecer um pouco mais do período de preparo dos pigmentos, realizar testes e chegar aos tons desejados havia o desafio do tecido, da absorção de tinta e do tempo de secagem, mas tudo isso me ensinou muito e foi uma experiência maravilhosa.

COMO OS ELEMENTOS DA NATUREZA SÃO IMPORTANTES PARA O SEU TRABALHO E SE MATERIALIZARAM NAS PEÇAS EXPOSTAS NO MASP?
Os elementos da natureza estão sempre presentes em minha criação porque pesquiso muito sobre a formação social e étnica brasileira, a partir de uma cosmovisão de uma pessoa de Axé, de terreiro… então a maneira que eu observo a vida e tudo o que faço passa por uma ótica que entende toda a vida como parte de uma mesma natureza.
Uso muitos elementos botânicos, ervas de cura e proteção, também plantas que constroem as memórias do país e levar esses elementos para as peças expostas no MASP também teve uma intenção de correlacionar esse lugar comum brasileiro. Um lugar de muitos sentimentos juntos, cura, autocura, proteção, força, fertilidade e afetos.
NAS PEÇAS DA EXPOSIÇÃO, FORAM UTILIZADOS OS VERMELHOS VEGETAIS BRASILEIROS: PAU BRASIL, CRAJIRU E URUCUM. QUAL A IMPORTÂNCIA E A RELAÇÃO DA COR NO SEU FAZER ARTÍSTICO?
A cor é algo fundamental para mim, em alguns projetos artísticos penso primeiro nas cores e depois de fato desenho. Acho que a cor é um elemento que tem um poder de transmitir muitas sensações e sentimentos. Nossa escolha, muito pautada nos vermelhos, teve uma intenção de trazer essa conexão junto ao poder que emana da própria terra, antes de iniciar os primeiros desenhos já tínhamos a certeza dessa intencionalidade através da cor.

“CIO DA TERRA 1, 2 E 3” FORAM OS NOMES DADOS PARA AS VESTIMENTAS DA EXPOSIÇÃO. COMO SURGIU ESSE NOME E O QUE ELE REPRESENTA PARA VOCÊ?
O nome surgiu no final da criação da coleção, em um diálogo entre mim e Flavia. Falamos sobre nosso olhar para o futuro, sobre o respeito à terra, sobre os poderes que a terra pode nos oferecer à partir da sua capacidade enquanto planeta, mas também enquanto elemento, o chão em que pisamos, de se reinventar.
E então lembramos da música Cio da terra e como sua letra nos conta sobre essa reinvenção da terra e essa relação com a terra e compreensão do seu tempo de se reinventar, se autocurar e fazer brotar tudo o que é necessário.
VIVEMOS UM MOMENTO EM QUE AS PAUTAS E OS AGENTES ATIVOS QUE TRAZEM AS QUESTÕES AFRO DIASPÓRICAS ESTÃO EM MERECIDO DESTAQUE. VOCÊ ACHA QUE O MERCADO DA MODA (OU DA ARTE) SE TRANSFORMOU E TEM SIDO MAIS SENSÍVEL E RESPONSÁVEL SOBRE AS QUESTÕES DE RAÇA, GÊNERO, INCLUSÃO?
Acho que uma parte do mercado tem sido consciente para as diversas inclusões, porém, visualizo essa consciência e proposta de diversidade muito mais presente em marcas menores e menos vezes em grandes redes.

PENSANDO SOBRE A CONSTRUÇÃO DE FUTUROS POSSÍVEIS. QUAL O SEU DESEJO PARA O AMANHÃ?
Acho que meu desejo para o amanhã é o de que nós enquanto seres humanos consigamos ampliar nossa forma de ver a vida terrestre e nos entender como parte desse planeta, bem como pensar no nosso corpo como uma das extensões de tudo o que existe no universo. Acredito que essa visão de irmandade para com os demais elementos naturais do planeta nos ajuda também nas autocuras necessárias para vivermos melhor coletivamente.

Aline Bispo usa peças da coleção de inverno METAMÓRFICA.
Conheça a coleção completa.
FICHA TÉCNICA
Fotos Camilla Loreta
Diálogos do Vestir #14 - Aline Bispo
Aline Bispo (São Paulo, SP, 1989) é multiartista visual, ilustradora e curadora do Acervo Ibirapitanga. É também colunista do Nós, mulheres da periferia. Em suas produções, investiga temáticas que cruzam a miscigenação brasileira, gênero, sincretismos religiosos e étnicos.
A convite do MASP, a artista se juntou à Flavia Aranha para produzir três looks que compõem a exposição “Arte na Moda”, que foi inaugurada em março de 2024. Uma jornada de transformação das pinturas de Aline em roupa, com o uso dos pigmentos naturais presentes nas peças da marca.
Aline Bispo é nossa convidada da edição #14 do Diálogos do Vestir.
VOCÊ JÁ FEZ COLLABS COM MARCAS DE MODA, PARTICIPOU NA SPFW COM SUA ESTAMPARIA E EM SUAS OBRAS AS VESTIMENTAS TRAZEM CÓDIGOS DE VIVÊNCIAS, RELIGIOSIDADE. COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Eu cresci vendo minha mãe costurando enquanto eu usava os retalhos para fazer roupas para minhas bonecas, eu amava folhear as revistas de moda, especialmente as antigas que além de editorial também tinham outras informações de lifestyle, arquitetura e decoração. Então acho que minha relação com o vestir vem primariamente dessa construção de memórias, de roupas feitas por minha mãe, dela tirando medidas minhas e do meu pai, fazendo camisas, saias, macacões. Posteriormente quando eu já era um pouco mais velha a relação com a moda sempre esteve presente a partir da minha necessidade de transmitir uma identidade, de levar o que estava em meu interior para o exterior, então os processos criativos, a música, e sentimentos sempre estavam presentes de algum modo nas roupas.
CONTA DA SUA TRAJETÓRIA COMO ARTISTA, O CAMINHO TRAÇADO ATÉ CHEGAR AO PRESENTE.
Eu sempre desenhei, desde a infância, e sempre busquei estímulos para exercer a minha criatividade de alguma forma. Fui estudar design de interiores, depois comunicação visual, design se tornou uma grande paixão e que eu levo para a vida, tanto que gosto muito de ler livros técnicos, apenas para aprender ou pensar em temas. Paralelamente aos estudos de design eu pintava nas ruas, então o graffiti foi um processo inicial bem importante para que eu conhecesse outras pessoas criativas, pudesse observar pessoas que desenvolviam seus trabalhos artísticos e viviam disso, além da primeira experiência nas ruas deixando meu nome. Após os estudos de comunicação visual eu embarquei na ilustração digital, comecei a compartilhar mais da minha produção autoral nas redes sociais e a realizar os primeiros trabalhos com instituições, incluindo cursos, oficinas e também trabalhos junto à educativos de espaços expositivos. Foi então que decidi cursar artes visuais, porque eu queria abrir outros caminhos de pesquisa e expandir, indo além dos limites técnicos que eu visualizava para mim, sendo muito importante para mim cursar um curso tradicional, passando por pintura, escultura, fotografia, performance e gravura. Tudo isso foi fundamental para me auxiliar também nas expansões internas de autoconhecimento e das conexões de pesquisa ligadas à fé, às pluralidades brasileiras e ideias que me acompanhavam desde que eu fazia grafites pelas ruas.
Depois disso, quase no mesmo período de conclusão de curso, que Torto Arado foi lançado, sendo minha primeira capa de livro, fiz as primeiras estampas para tecido e iniciei alguns trabalhos ligados a veículos de comunicação, ações que me abriram portas para continuar estudando pintura, aumentar minha produção, participar de residências artísticas, fazer as primeiras pinturas de prédios por São Paulo e também passar a ter uma representação em galeria. Meios que cooperaram para que pesquisas como as que venho fazendo pelo país, desde 2022, visitando festividades religiosas e reunindo materiais que influenciam a minha mais recente exposição: "A linha dá o ponto, a linha dá o nó".
COMO COSTUMA SER O SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO?
Eu preciso ser muito disciplinada e organizada, dentro e fora do ateliê. Horários para comer, para entrar e para sair fazem parte da rotina, para que eu consiga produzir. Como além da produção artística como artista visual também desenvolvo ações com marcas, trabalhos que vão para o meio editorial, parcerias e curadoria, eu tenho a necessidade de estar sempre com tudo em ordem, para não me sobrecarregar e dar conta de tudo.
Fora isso, para me inspirar, leio, assisto e ouço coisas relacionadas ao que estiver pesquisando, vejo pessoas, me conecto com o tema que estiver buscando e de tempos em tempos me desconecto do que eu estiver pesquisando, para ter alguns respiros.
Gosto de pensar também que ao mesmo tempo que eu tenho uma linha definida de pesquisa, todas as coisas, ambientes e pessoas podem fazer parte das buscas e investigações, então também encaro como natural fazer links entre o que encontro no dia-a-dia e posso trazer para minha produção. A natureza, as cidades, as pessoas, tudo…
QUAIS SÃO AS SUAS REFERÊNCIAS NO QUE DIZ RESPEITO À PENSAR E PRODUZIR ARTE?
Eu sempre falo sobre como alguns pilares são fixos para mim, artistas como Rosana Paulino, Sidney Amaral e Dalton Paula são minhas maiores referências, principalmente porque abriram e continuam abrindo caminhos para produções similares à minha.
COMO FOI ESSE ENCONTRO COM A FLAVIA ARANHA? CONTA UM POUCO SOBRE COMO FOI O PROCESSO PARA A EXPOSIÇÃO “ARTE NA MODA” PARA O MASP.
O encontro com a Flavia foi muito especial, como tudo começou dentro de um recorte pandêmico ficamos muito tempo dialogando, trocando sobre nossas expectativas, intenções e sobre pontos em comum do nosso trabalho. Quando iniciei as pinturas foi maravilhoso, o contato com os processos de tingimento, a relação com a materialidade, a compreensão do uso das tintas nos tecidos, a diferença de pintar em uma tela, tudo isso fez parte do resultado que alcançamos. Para mim era uma experiência de alquimia, desde escolher os tons e fazer testes, até realizar as pinturas. Em alguns momentos eu e Flavia não nos víamos, mas sempre estávamos em diálogo sobre o que estava acontecendo e sobre como as coisas estavam ficando.
Então toda a troca foi muito orgânica e muito linda, há muito sentimento envolvido e muitos desejos em comum sobre o que pensamos e desejamos para os futuros possíveis.
NO SEU TRABALHO, VOCÊ UTILIZA TINTA À ÓLEO, ACRÍLICA, GUACHE, GRAFITE ENTRE OUTROS SUPORTES E MATERIAIS. COMO FOI EXPERIENCIAR OS PIGMENTOS NATURAIS E VIVOS UTILIZADOS PELA FLAVIA ARANHA?
Inicialmente foi desafiador. Mesmo após conhecer um pouco mais do período de preparo dos pigmentos, realizar testes e chegar aos tons desejados havia o desafio do tecido, da absorção de tinta e do tempo de secagem, mas tudo isso me ensinou muito e foi uma experiência maravilhosa.
COMO OS ELEMENTOS DA NATUREZA SÃO IMPORTANTES PARA O SEU TRABALHO E SE MATERIALIZARAM NAS PEÇAS EXPOSTAS NO MASP?
Os elementos da natureza estão sempre presentes em minha criação porque pesquiso muito sobre a formação social e étnica brasileira, a partir de uma cosmovisão de uma pessoa de Axé, de terreiro… então a maneira que eu observo a vida e tudo o que faço passa por uma ótica que entende toda a vida como parte de uma mesma natureza.
Uso muitos elementos botânicos, ervas de cura e proteção, também plantas que constroem as memórias do país e levar esses elementos para as peças expostas no MASP também teve uma intenção de correlacionar esse lugar comum brasileiro. Um lugar de muitos sentimentos juntos, cura, autocura, proteção, força, fertilidade e afetos.
NAS PEÇAS DA EXPOSIÇÃO, FORAM UTILIZADOS OS VERMELHOS VEGETAIS BRASILEIROS: PAU BRASIL, CRAJIRU E URUCUM. QUAL A IMPORTÂNCIA E A RELAÇÃO DA COR NO SEU FAZER ARTÍSTICO?
A cor é algo fundamental para mim, em alguns projetos artísticos penso primeiro nas cores e depois de fato desenho. Acho que a cor é um elemento que tem um poder de transmitir muitas sensações e sentimentos. Nossa escolha, muito pautada nos vermelhos, teve uma intenção de trazer essa conexão junto ao poder que emana da própria terra, antes de iniciar os primeiros desenhos já tínhamos a certeza dessa intencionalidade através da cor.
“CIO DA TERRA 1, 2 E 3” FORAM OS NOMES DADOS PARA AS VESTIMENTAS DA EXPOSIÇÃO. COMO SURGIU ESSE NOME E O QUE ELE REPRESENTA PARA VOCÊ?
O nome surgiu no final da criação da coleção, em um diálogo entre mim e Flavia. Falamos sobre nosso olhar para o futuro, sobre o respeito à terra, sobre os poderes que a terra pode nos oferecer à partir da sua capacidade enquanto planeta, mas também enquanto elemento, o chão em que pisamos, de se reinventar.
E então lembramos da música Cio da terra e como sua letra nos conta sobre essa reinvenção da terra e essa relação com a terra e compreensão do seu tempo de se reinventar, se autocurar e fazer brotar tudo o que é necessário.
VIVEMOS UM MOMENTO EM QUE AS PAUTAS E OS AGENTES ATIVOS QUE TRAZEM AS QUESTÕES AFRO DIASPÓRICAS ESTÃO EM MERECIDO DESTAQUE. VOCÊ ACHA QUE O MERCADO DA MODA (OU DA ARTE) SE TRANSFORMOU E TEM SIDO MAIS SENSÍVEL E RESPONSÁVEL SOBRE AS QUESTÕES DE RAÇA, GÊNERO, INCLUSÃO?
Acho que uma parte do mercado tem sido consciente para as diversas inclusões, porém, visualizo essa consciência e proposta de diversidade muito mais presente em marcas menores e menos vezes em grandes redes.
PENSANDO SOBRE A CONSTRUÇÃO DE FUTUROS POSSÍVEIS. QUAL O SEU DESEJO PARA O AMANHÃ?
Acho que meu desejo para o amanhã é o de que nós enquanto seres humanos consigamos ampliar nossa forma de ver a vida terrestre e nos entender como parte desse planeta, bem como pensar no nosso corpo como uma das extensões de tudo o que existe no universo. Acredito que essa visão de irmandade para com os demais elementos naturais do planeta nos ajuda também nas autocuras necessárias para vivermos melhor coletivamente.
Aline Bispo usa peças da coleção de inverno METAMÓRFICA.
Conheça a coleção completa.
FICHA TÉCNICA
Fotos Camilla Loreta