Daniela Ribeiro é uma bruxa discreta. Depois de quase dez anos dedicados a repensar o consumo de moda através do primeiro guarda-roupa compartilhado do Brasil (Roupateca), Daniela entendeu que era hora de ouvir a vida a partir de novas histórias. De lá pra cá, passou a receber as pessoas em seu sofá para praticar o que entende como "astrologia da escuta", uma leitura de mapa astral que considera cada pessoa em composição com a experiência do coletivo.
Daniela Ribeiro é nossa convidada da edição #15 do Diálogos do Vestir.
DANI, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR??
A minha relação com o vestir sempre foi muito associada ao conforto. Dentro desse universo do conforto, que eu acho uma definição muito subjetiva, fui entendendo que o que é importante para mim tem a ver com tecido, caimento, muito mais do que uma informação de moda. Tendo a gostar de coisas básicas, mas que sejam muito confortáveis, que se coordenam entre si (só uso roupa branca). Então o conforto passa por esse lugar visual, de tentar passar através da linguagem da roupa, uma imagem com menos informação. Não no sentido de passar batido, mas de serem roupas mais simples.
CONTA UM POUCO SOBRE SUA TRAJETÓRIA ATÉ AQUI! COMO VOCÊ ACHA QUE O TRABALHO QUE DESENVOLVEU COMO CONSULTORA DE ESTILO E MAIS TARDE NA ROUPATECA, SE CONECTA COM A SUA PRÁTICA DA ASTROLOGIA?
Eu acho que tem uma radical conexão com essa história de escutar as pessoas.
Pra mim essa conexão tem duas vias: uma delas é que depois da maternidade eu me aproximei muito das questões do feminino e o fio condutor desde o ínicio, por todos os lugares que eu já passei, tem a ver com gostar de ouvir gente. Gostar de saber as histórias das pessoas, de entender como essas ferramentas, já foi a consultoria de estilo, já foi o guarda-roupa compartilhado, hoje é a astrologia, mas muito desse lugar de escutar e elaborar com o outro esse lugar de dentro.
VOCÊ DESCREVE O SEU TRABALHO COMO “ASTROLOGIA DA ESCUTA”. DE ONDE VEM ESSA EXPRESSÃO E O QUE SIGNIFICA PARA VOCÊ?
A astrologia moderna, que é onde estão inseridos todos esses contextos de linguagem, textos, redes sociais, que a gente acessa mais comumente, fica muito orientada numa dinâmica de interpretação que considera planetas pessoais, portanto o eu, o ego como centro de definição e interpretação na astrologia.
Só que astrologia é mais que isso, existem outras camadas e tem uma via específica de estudo, que é o estudo aliançado com a psicologia, que considera três planetas: netuno, urano e plutão e sua relação expressiva com o campo do inconsciente. Então é justamente uma leitura que tem muito mais a intenção de descentralizar o humano e colocar ele num estado de abertura, composição e expansão para algo que é o coletivo.
VOCÊ CRIOU O PRIMEIRO GUARDA-ROUPA COMPARTILHADO DO BRASIL, UMA CASA QUE VIROU PONTO DE ENCONTRO PARA MULHERES COMPARTILHAREM MUITO MAIS DO QUE ROUPAS. HOJE EM DIA, RECEBE UM PÚBLICO EM GRANDE PARTE FEMININO NO SOFÁ DA BRUXA, CERTO? COMO VOCÊ PERCEBE A RELAÇÃO ENTRE ESSA TEIA DE MULHERES E A FORÇA FEMININA COLETIVA QUE SEGUE TE ACOMPANHANDO?
Eu acho que a Roupateca era uma ferramenta que oferecia a capacidade das mulheres experimentarem através do vestir, uma sensação de libertação de certos padrões muito limitantes que direcionam comportamentos de consumo. Tinha ali uma licença poética no lugar de experimentação.
Na astrologia, sinto que é um pouco diferente porque o mergulho interno é ainda mais profundo. Mas de alguma maneira, segue buscando fortalecer esse lugar da autonomia, especialmente com as mulheres. Então esse processo do autoconhecimento está profundamente conectado com o desejo feminino - ou com a urgência - de se sentir mais inteira.
QUANDO VOCÊ FUNDOU A ROUPATECA, FEZ UM CONVITE A PENSARMOS EM FORMAS MAIS CONSCIENTES DE CONSUMIR MODA, VALORIZANDO OS PROCESSOS E PESSOAS QUE FAZEM PARTE DESSA CADEIA. VOCÊ ACHA QUE MUDAMOS A FORMA COMO CONSUMIMOS NOS ÚLTIMOS ANOS? O QUE É MODA CONSCIENTE PARA VOCÊ HOJE EM DIA?
Percebo uma mudança na forma de consumir porque o mercado passou a se conectar a outras pautas no pós pandemia. Acho que a bandeira do consumo consciente voltou a ser um nicho, que é o que na prática sempre foi. A realidade da indústria é outra. Penso que as próximas gerações deverão voltar com essa urgência. A moda consciente pra mim hoje é cada indivíduo entender que precisa de menos, mas essa elaboração tem muitas camadas e é quase utópica para muitas realidades por diferentes motivos.
O SEU TRABALHO COM A ASTROLOGIA PARTE DE UMA LEITURA E REFLEXÃO DE PLANETAS, PESSOAS E ELEMENTOS DA NATUREZA. COMO VOCÊ ESCUTA ESSA CONEXÃO ENTRE O QUE É VIVO E PULSA POR AÍ?
Eu venho aprendendo a escutar a vida. Parte disso tem a ver com a descentralização do humano. É utópico pensarmos que somos o centro de algo, ou que existe o centro. quanto mais escuto, mais entendo a integração.
SEMPRE FALAMOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DE PRESENTES-FUTUROS POSSÍVEIS, QUAIS SONHOS VOCÊ TEM ALIMENTADO PARA SEGUIR CONSTRUINDO?
Em algum momento nós nos desconectamos do sagrado. Meu sonho e meu trabalho tem caminhado juntos. Sem nenhuma arrogância ou prepotência tenho sonhado e trabalhado em rede para que mais pessoas possam escutar a vida. Ela fala o tempo todo.
Daniela Ribeiro veste Macacão nó Aurora, Blusa moletom e calça Raíra.
FICHA TÉCNICA
Fotos: Camilla Loreta
Diálogos do Vestir #15 - Daniela Ribeiro
Daniela Ribeiro é uma bruxa discreta. Depois de quase dez anos dedicados a repensar o consumo de moda através do primeiro guarda-roupa compartilhado do Brasil (Roupateca), Daniela entendeu que era hora de ouvir a vida a partir de novas histórias. De lá pra cá, passou a receber as pessoas em seu sofá para praticar o que entende como "astrologia da escuta", uma leitura de mapa astral que considera cada pessoa em composição com a experiência do coletivo.
Daniela Ribeiro é nossa convidada da edição #15 do Diálogos do Vestir.
DANI, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR??
A minha relação com o vestir sempre foi muito associada ao conforto. Dentro desse universo do conforto, que eu acho uma definição muito subjetiva, fui entendendo que o que é importante para mim tem a ver com tecido, caimento, muito mais do que uma informação de moda. Tendo a gostar de coisas básicas, mas que sejam muito confortáveis, que se coordenam entre si (só uso roupa branca). Então o conforto passa por esse lugar visual, de tentar passar através da linguagem da roupa, uma imagem com menos informação. Não no sentido de passar batido, mas de serem roupas mais simples.
CONTA UM POUCO SOBRE SUA TRAJETÓRIA ATÉ AQUI! COMO VOCÊ ACHA QUE O TRABALHO QUE DESENVOLVEU COMO CONSULTORA DE ESTILO E MAIS TARDE NA ROUPATECA, SE CONECTA COM A SUA PRÁTICA DA ASTROLOGIA?
Eu acho que tem uma radical conexão com essa história de escutar as pessoas.
Pra mim essa conexão tem duas vias: uma delas é que depois da maternidade eu me aproximei muito das questões do feminino e o fio condutor desde o ínicio, por todos os lugares que eu já passei, tem a ver com gostar de ouvir gente. Gostar de saber as histórias das pessoas, de entender como essas ferramentas, já foi a consultoria de estilo, já foi o guarda-roupa compartilhado, hoje é a astrologia, mas muito desse lugar de escutar e elaborar com o outro esse lugar de dentro.
VOCÊ DESCREVE O SEU TRABALHO COMO “ASTROLOGIA DA ESCUTA”. DE ONDE VEM ESSA EXPRESSÃO E O QUE SIGNIFICA PARA VOCÊ?
A astrologia moderna, que é onde estão inseridos todos esses contextos de linguagem, textos, redes sociais, que a gente acessa mais comumente, fica muito orientada numa dinâmica de interpretação que considera planetas pessoais, portanto o eu, o ego como centro de definição e interpretação na astrologia.
Só que astrologia é mais que isso, existem outras camadas e tem uma via específica de estudo, que é o estudo aliançado com a psicologia, que considera três planetas: netuno, urano e plutão e sua relação expressiva com o campo do inconsciente. Então é justamente uma leitura que tem muito mais a intenção de descentralizar o humano e colocar ele num estado de abertura, composição e expansão para algo que é o coletivo.
VOCÊ CRIOU O PRIMEIRO GUARDA-ROUPA COMPARTILHADO DO BRASIL, UMA CASA QUE VIROU PONTO DE ENCONTRO PARA MULHERES COMPARTILHAREM MUITO MAIS DO QUE ROUPAS. HOJE EM DIA, RECEBE UM PÚBLICO EM GRANDE PARTE FEMININO NO SOFÁ DA BRUXA, CERTO? COMO VOCÊ PERCEBE A RELAÇÃO ENTRE ESSA TEIA DE MULHERES E A FORÇA FEMININA COLETIVA QUE SEGUE TE ACOMPANHANDO?
Eu acho que a Roupateca era uma ferramenta que oferecia a capacidade das mulheres experimentarem através do vestir, uma sensação de libertação de certos padrões muito limitantes que direcionam comportamentos de consumo. Tinha ali uma licença poética no lugar de experimentação.
Na astrologia, sinto que é um pouco diferente porque o mergulho interno é ainda mais profundo. Mas de alguma maneira, segue buscando fortalecer esse lugar da autonomia, especialmente com as mulheres. Então esse processo do autoconhecimento está profundamente conectado com o desejo feminino - ou com a urgência - de se sentir mais inteira.
QUANDO VOCÊ FUNDOU A ROUPATECA, FEZ UM CONVITE A PENSARMOS EM FORMAS MAIS CONSCIENTES DE CONSUMIR MODA, VALORIZANDO OS PROCESSOS E PESSOAS QUE FAZEM PARTE DESSA CADEIA. VOCÊ ACHA QUE MUDAMOS A FORMA COMO CONSUMIMOS NOS ÚLTIMOS ANOS? O QUE É MODA CONSCIENTE PARA VOCÊ HOJE EM DIA?
Percebo uma mudança na forma de consumir porque o mercado passou a se conectar a outras pautas no pós pandemia. Acho que a bandeira do consumo consciente voltou a ser um nicho, que é o que na prática sempre foi. A realidade da indústria é outra. Penso que as próximas gerações deverão voltar com essa urgência. A moda consciente pra mim hoje é cada indivíduo entender que precisa de menos, mas essa elaboração tem muitas camadas e é quase utópica para muitas realidades por diferentes motivos.
O SEU TRABALHO COM A ASTROLOGIA PARTE DE UMA LEITURA E REFLEXÃO DE PLANETAS, PESSOAS E ELEMENTOS DA NATUREZA. COMO VOCÊ ESCUTA ESSA CONEXÃO ENTRE O QUE É VIVO E PULSA POR AÍ?
Eu venho aprendendo a escutar a vida. Parte disso tem a ver com a descentralização do humano. É utópico pensarmos que somos o centro de algo, ou que existe o centro. quanto mais escuto, mais entendo a integração.
SEMPRE FALAMOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DE PRESENTES-FUTUROS POSSÍVEIS, QUAIS SONHOS VOCÊ TEM ALIMENTADO PARA SEGUIR CONSTRUINDO?
Em algum momento nós nos desconectamos do sagrado. Meu sonho e meu trabalho tem caminhado juntos. Sem nenhuma arrogância ou prepotência tenho sonhado e trabalhado em rede para que mais pessoas possam escutar a vida. Ela fala o tempo todo.
Daniela Ribeiro veste Macacão nó Aurora, Blusa moletom e calça Raíra.
FICHA TÉCNICA
Fotos: Camilla Loreta