Eloisa Artuso nasceu em São Bernardo do Campo (10/11/1982) e atualmente vive em São Paulo. Com 20 anos de experiência como pesquisadora, designer estratégica e líder de projetos, Eloisa trabalha com justiça socioambiental, na intersecção entre clima, gênero e moda.
Cofundadora do Instituto Febre, organização social voltada à pesquisa, estratégia e conteúdo multimídia, e o Fashion Revolution Brasil, maior movimento de ativismo de moda do mundo, Eloisa esteve a frente de relevantes projetos para o setor da moda no Brasil, como o Índice de Transparência da Moda Brasil.
Para falar sobre o vestir, justiça climática e o papel das mulheres em diferentes pontas da indústria, Eloisa é a #18 convidada do Diálogos do Vestir.

ELO, VOCÊ VEM DE UMA LONGA TRAJETÓRIA DE TRABALHOS QUE TRANSITAM NO UNIVERSO DA MODA. COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR HOJE EM DIA?
A minha relação com o vestir foi mudando ao longo dos anos, mas eu acho que uma coisa que ficou, e que na verdade veio da minha avó e da minha mãe, é a preocupação com a modelagem, com um bom acabamento, para que as peças sejam duráveis.
Eu acho que tenho uma relação muito próxima com o design porque é a minha formação e a maneira como eu lido com as coisas do mundo.
Então tem uma questão estética forte pra mim, mas sempre com um bom acabamento, sempre com uma boa modelagem, porque as peças duram, né? Eu acho que as peças podem ser eternas ou muito longevas. Seja uma peça de brechó, seja uma peça nova, seja uma peça que eu encontrei no guarda-roupa da minha mãe, ela vai durar. Um bom design dura, um bom acabamento, um bom tecido, uma boa modelagem, eles são feitos pra durar. Então eu trago um pouco dessa forma, como eu me relaciono com as roupas, com o vestir.
CONTA UM POUCO SOBRE SUA TRAJETÓRIA PENSANDO EM MODA, JUSTIÇA CLIMÁTICA E GÊNERO! DE ONDE VEIO O DESEJO / NECESSIDADE DE OLHAR SOB ESSAS PERSPECTIVAS?
Nas últimas décadas, a gente ouviu falar muito sobre a exploração do trabalho na cadeia da moda.
Só que quando a gente fala de trabalhadores, a gente acaba entrando num ponto cego e perde as questões que são específicas de gênero. As mulheres não ocupam os mesmos lugares que os homens, elas não estão nos mesmos espaços, elas não têm a mesma voz, elas sofrem opressões e abusos que são específicos de gênero. Mulheres enfrentam barreiras que são específicas de gênero.
Se a gente for falar da cadeia da moda, que majoritariamente é composta por uma mão de obra feminina, a gente vê que é preciso olhar com essa lente, a gente precisa olhar com a lente do gênero. E olhando com a lente do gênero, a gente precisa trazer uma lente interseccional, então a gente precisa entender quem são essas mulheres, qual a cor delas, qual o território que elas ocupam, que classe elas estão. E aí, quando a gente fala de justiça climática, a gente está justamente olhando para essa base da pirâmide.
As mulheres racializadas, as mulheres periféricas, as mulheres de baixa renda, elas compõem essa camada grande, essa base da pirâmide da moda. E com isso elas são as mais vulneráveis à crise climática, às mudanças climáticas. Então, falar de moda é falar de mulheres, falar de clima também é falar de mulheres, porque elas já estão mais suscetíveis, nós já estamos mais suscetíveis às urgências do clima, aos impactos do clima.
As mulheres estão mais suscetíveis à insegurança alimentar, que combinada a outros fatores, tornam as mulheres muito mais vulneráveis e com menos instrumentos e recursos para enfrentarem a crise climática. Então, falar de moda é falar de mulher, falar de justiça climática é colocar os direitos humanos no centro e principalmente com um olhar interseccional para entender quem são as pessoas mais impactadas pela emergência que a gente já está vendo acontecer.

COM O PASSAR DO TEMPO, A INDÚSTRIA DA MODA VEM SE APROPRIANDO DO DISCURSO DE EMPODERAMENTO, AO MESMO TEMPO EM QUE REFORÇA ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO, DESIGUALDADES DE CLASSE, DENTRE TANTAS OUTRAS FORMAS DE OPRESSÃO. COMO VOCÊ VÊ A RELAÇÃO ENTRE AS MULHERES QUE TRABALHAM NA INDÚSTRIA DA MODA, MUITAS VEZES EM CONDIÇÕES PRECÁRIAS, E AS MULHERES QUE CONSOMEM ESSAS ROUPAS, MUITAS VEZES INCONSCIENTES DOS IMPACTOS DESSA PRODUÇÃO? DE QUE FORMA PODEMOS REPENSAR ESSE CICLO, CRIANDO UM CENÁRIO ONDE A MODA SEJA REALMENTE UM INSTRUMENTO DE EMPODERAMENTO E JUSTIÇA, TANTO PARA QUEM A PRODUZ QUANTO PARA QUEM A CONSOME?
As consumidoras entram nessa equação a partir da responsabilidade individual pelo que se consome – trazendo aqui agência a elas, que podem fazer sua parte nesse ciclo de produção e consumo de forma ativa e consciente, e não passiva, como o sistema capitalista espera. Mas, ainda que esse papel exercido pelas consumidoras seja ativo, o consumo, como qualquer outro comportamento individual, pouco muda os cenários de injustiças e desigualdades estruturais, como vemos na indústria da moda. Esse consumo ativo, por mais que seja responsável não confere às pessoas uma cidadania ativa, não é a mesma coisa. Nós politizamos o consumo. Então, é como se comprando mais produtos pudéssemos, de alguma forma, combater crises ambientais ou as desigualdades sociais. A cultura do consumo e a mentalidade capitalista nos ensinaram a substituir atos de protesto por escolhas pessoais. Assim, continuaremos colocando na conta de cada indivíduo um problema sistêmico global que envolve repensar o capitalismo, criar uma nova agenda de políticas públicas que visem o setor e pressionar por boas práticas socioambientais e responsabilização das empresas por suas cadeias de valor. Então, se quisermos criar um cenário onde a moda traga empoderamento e justiça, precisamos, acima de tudo, confrontar a natureza e a finalidade dos negócios e confrontar o sistema em si.
ESTAMOS ACOMPANHANDO AS DISCUSSÕES QUE O INSTITUTO FEBRE TEM LEVANTADO SOBRE O ALGODÃO E PARA NÓS É MUITO CARO PENSAR EM AGROECOLOGIA. ALGUMAS DAS PEÇAS QUE TE CONVIDAMOS A VESTIR NESSE DIÁLOGOS, INCLUSIVE, SÃO FRUTO DO ALGODÃO AGROECOLÓGICO QUE PLANTAMOS COM A REDE BORBOREMA, NA PARAÍBA. PARA VOCÊ, COMO A PRÁTICA DE CULTIVO DO ALGODÃO AGROECOLÓGICO PODE SER VISTA COMO UM ATO DE RESISTÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO NO QUE DIZ RESPEITO À CONSTRUÇÃO DE UM FUTURO CLIMÁTICO MAIS JUSTO?
O problema central que permeia o espaço agrário brasileiro é, ainda hoje, a concentração fundiária, tendo em vista que a “Revolução Verde” e o ingresso de maior capital no espaço rural aprofundaram ainda mais as desigualdades e intensificaram os conflitos no campo, principalmente nas áreas de expansão da fronteira agrícola. Em nível nacional, a terra e os recursos naturais estão concentrados nas mãos de poucos: 1% dos maiores estabelecimentos rurais ocupam 47,3% enquanto os 50% menores ocupam apenas 2,1% da área fundiária. Mas para essa parcela significativa da população - que tem a terra como casa e depende dela para sobreviver, desenvolver seus meios de subsistência, cultura, conhecimento e tradições - terra, água e cultivos não são commodities.
Essa visão sobre as desigualdades sociais é fundamental, principalmente em meio à crise climática que estamos enfrentando. Nossos biomas vêm sendo fortemente devastados pela produção agropecuária: o desmatamento e as mudanças no uso da terra são os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Sendo assim, nós vemos a agroecologia como uma potência capaz trazer reais transformações, não só para a produção de moda, mas para as pessoas, para a terra e para o clima. A agroecologia, enquanto ciência, prática e movimento que busca a justiça socioambiental pode, por meio de tecnologias sociais, dos saberes tradicionais e do manejo da biodiversidade, produzir alimentos saudáveis, regenerar biomas, capturar carbono e se recuperar mais rápido de eventos climáticos extremos. Acreditamos nos sistemas agroecológicos como uma oportunidade de seguirmos um novo caminho, onde as empresas não saqueiem a natureza para obter lucro, onde os governos invistam em comunidades saudáveis e seguras e onde o crescimento possa ser horizontal e a riqueza distribuída.

NOS PROJETOS EM QUE VOCÊ TEM SE ENVOLVIDO, COMO O MOVIMENTO FASHION REVOLUTION E AGORA O INSTITUTO FEBRE, PERCEBEMOS ESSA CAPACIDADE DE SE CONECTAR COM AS REDES SOCIAIS E OUTRAS PLATAFORMAS, UTILIZANDO UMA LINGUAGEM ACESSÍVEL QUE DIALOGA COM UM PÚBLICO MAIS AMPLO. COMO VOCÊ VÊ A IMPORTÂNCIA DE TORNAR ESSE DISCURSO SOBRE MODA, SUSTENTABILIDADE E JUSTIÇA MAIS ACESSÍVEL? E QUAL O PAPEL DAS PLATAFORMAS DIGITAIS NESSE PROCESSO DE EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO, ESPECIALMENTE PARA QUEM AINDA ESTÁ COMEÇANDO A SE ENVOLVER COM ESSES TEMAS?
Todo mundo veste roupa, então todo mundo faz parte do sistema da moda, querendo ou não. Assim como todo mundo faz parte da nossa realidade “insustentável”, seja ocupando lugares de privilégio ou de exploração. Nesse sentido a linguagem acessível é necessária, porque ela ajuda a trazer mais pessoas para a conversa. Isso não significa parar na página 2, é urgente avançarmos nas pautas e aprofundarmos as discussões, porque os problemas não acabaram, pelo contrário, nós precisamos complexificar o paradoxo da sustentabilidade em uma indústria que continua a projetar crescimento infinito. Então na Febre, queremos passar da fase de abrir o diálogo e introduzir o tema, até porque nas redes sociais, pessoas novas chegam o tempo todo. Sentimos a necessidade de ir mais à fundo, nomeando as desigualdades e revelando as estruturas de poder que regem o setor, sem medo de cutucar algumas feridas. Assim como deixamos clara a nossa agenda da justiça climática e de gênero. Porque apesar da vida digital estar estabelecida, as redes sociais são um terreno ainda pouco (ou mal) explorado e que opera em sistema de “bolhas”. Nossa missão é furar a bolha da moda sustentável e criar um diálogo duradouro com outros atores que têm sinergia com as nossas pautas, como os do setor socioambiental, que podem nos ajudar a olhar e atuar melhor com essas questões.
VIMOS QUE VOCÊ É MÃE DE UMA BEBÊ, E SABEMOS QUE A MATERNIDADE TRAZ UMA NOVA PERSPECTIVA SOBRE O MUNDO E FUTURO. COMO A EXPERIÊNCIA DE SER MÃE TEM INFLUENCIADO SUA VISÃO SOBRE O ATIVISMO E O TRABALHO QUE VOCÊ DESENVOLVE, ESPECIALMENTE EM RELAÇÃO À CONSTRUÇÃO DE FUTUROS POSSÍVEIS COM A SUA FILHA E AS PRÓXIMAS GERAÇÕES?
Realmente eu me pego pensando: que legado eu quero deixar para a Flora? Quais lutas eu quero/devo lutar por mim e por ela? Desde a minha gravidez eu, que sempre fui uma pessoa com a cabeça no amanhã, sempre pensando o que poderia acontecer lá na frente, passei a viver – e apreciar – o agora. A Flora, mesmo antes de nascer, me trouxe essa capacidade de aterrissar no hoje, de viver um dia com começo, meio e fim. Isso me trouxe mais paciência, e no trabalho, essa paciência veio para me ajudar a entender que as coisas têm seu tempo para acontecer. Eu continuo com o mesmo senso de urgência para as transformações mais que necessárias, mas vejo, cada vez mais, que os encontros acontecem na hora certa. E eu tenho procurado estar atenta para esses encontros e para essas horas certas, hoje. É sobre apreciar o processo e não só o resultado final. Até porque o futuro realmente não existe, ele está sempre por vir, enquanto o hoje simplesmente é. Esse é o único espaço de tempo que ocupamos de verdade – o presente. O que o torna, ao mesmo tempo, constante e efêmero e isso muda a perspectiva de encarar o mundo. É reconfortante, porque é concreto, mas ao mesmo tempo é muito desafiador pensar que, a cada segundo, estamos criando esses futuros que desejamos e continuaremos tentando, para ela e as próximas gerações.

VAMOS FALAR SOBRE ESPERANÇA, ELO? SÃO MUITOS ANOS DEDICADOS A PENSAR EM TEMAS QUE AVANÇAM E RETROCEDEM COM UMA URGÊNCIA CADA VEZ MAIOR. ENTENDEMOS ESPERANÇA MAIS COMO AÇÃO DO QUE COMO ESPERA, MAS SABEMOS QUE NUM CENÁRIO TÃO ÁRIDO E DESIGUAL PODE SER DIFÍCIL ULTRAPASSAR UM DISCURSO DESCRENTE. O QUE TEM TE RESGATADO PARA A ESPERANÇA?
Para mim, esperança é um ato de coragem. Esperança traz resiliência e esperança pode ser resistência.
A esperança pode ser uma voz dizendo “não, eu não acredito nisso, eu não concordo com isso que está acontecendo hoje. Eu acredito num futuro melhor, eu acredito em alternativas, eu acredito em outras opções, em outras realidades melhores”. E nesse sentido, eu acho que esperança também pode ser uma mensagem de amor para o futuro, para as próximas gerações, como dizendo “eu acredito em você, nós acreditamos em vocês, nós acreditamos num futuro melhor”.
Eu também tenho esperança em projetos de base que acompanho, desde projetos de costura na periferia aqui de São Paulo, projeto de algodão agroecológico no semiárido nordestino, no meio da Catinga, e são projetos liderados por mulheres que estão mudando seus contextos, que estão mudando suas comunidades, que estão se fazendo enxergar diferente, que estão erguendo suas vozes e tentando trazer transformações de baixo para cima.

Fotos do editorial: Camilla Loreta
Eloisa Artuso veste: Camisa Mabel, Saia Suzana, Chemise Mabel, Vestido Suzana e Camisa Dora
Diálogos do Vestir #18 - Eloisa Artuso
Eloisa Artuso nasceu em São Bernardo do Campo (10/11/1982) e atualmente vive em São Paulo. Com 20 anos de experiência como pesquisadora, designer estratégica e líder de projetos, Eloisa trabalha com justiça socioambiental, na intersecção entre clima, gênero e moda.
Cofundadora do Instituto Febre, organização social voltada à pesquisa, estratégia e conteúdo multimídia, e o Fashion Revolution Brasil, maior movimento de ativismo de moda do mundo, Eloisa esteve a frente de relevantes projetos para o setor da moda no Brasil, como o Índice de Transparência da Moda Brasil.
Para falar sobre o vestir, justiça climática e o papel das mulheres em diferentes pontas da indústria, Eloisa é a #18 convidada do Diálogos do Vestir.
ELO, VOCÊ VEM DE UMA LONGA TRAJETÓRIA DE TRABALHOS QUE TRANSITAM NO UNIVERSO DA MODA. COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR HOJE EM DIA?
A minha relação com o vestir foi mudando ao longo dos anos, mas eu acho que uma coisa que ficou, e que na verdade veio da minha avó e da minha mãe, é a preocupação com a modelagem, com um bom acabamento, para que as peças sejam duráveis.
Eu acho que tenho uma relação muito próxima com o design porque é a minha formação e a maneira como eu lido com as coisas do mundo.
Então tem uma questão estética forte pra mim, mas sempre com um bom acabamento, sempre com uma boa modelagem, porque as peças duram, né? Eu acho que as peças podem ser eternas ou muito longevas. Seja uma peça de brechó, seja uma peça nova, seja uma peça que eu encontrei no guarda-roupa da minha mãe, ela vai durar. Um bom design dura, um bom acabamento, um bom tecido, uma boa modelagem, eles são feitos pra durar. Então eu trago um pouco dessa forma, como eu me relaciono com as roupas, com o vestir.
CONTA UM POUCO SOBRE SUA TRAJETÓRIA PENSANDO EM MODA, JUSTIÇA CLIMÁTICA E GÊNERO! DE ONDE VEIO O DESEJO / NECESSIDADE DE OLHAR SOB ESSAS PERSPECTIVAS?
Nas últimas décadas, a gente ouviu falar muito sobre a exploração do trabalho na cadeia da moda.
Só que quando a gente fala de trabalhadores, a gente acaba entrando num ponto cego e perde as questões que são específicas de gênero. As mulheres não ocupam os mesmos lugares que os homens, elas não estão nos mesmos espaços, elas não têm a mesma voz, elas sofrem opressões e abusos que são específicos de gênero. Mulheres enfrentam barreiras que são específicas de gênero.
Se a gente for falar da cadeia da moda, que majoritariamente é composta por uma mão de obra feminina, a gente vê que é preciso olhar com essa lente, a gente precisa olhar com a lente do gênero. E olhando com a lente do gênero, a gente precisa trazer uma lente interseccional, então a gente precisa entender quem são essas mulheres, qual a cor delas, qual o território que elas ocupam, que classe elas estão. E aí, quando a gente fala de justiça climática, a gente está justamente olhando para essa base da pirâmide.
As mulheres racializadas, as mulheres periféricas, as mulheres de baixa renda, elas compõem essa camada grande, essa base da pirâmide da moda. E com isso elas são as mais vulneráveis à crise climática, às mudanças climáticas. Então, falar de moda é falar de mulheres, falar de clima também é falar de mulheres, porque elas já estão mais suscetíveis, nós já estamos mais suscetíveis às urgências do clima, aos impactos do clima.
As mulheres estão mais suscetíveis à insegurança alimentar, que combinada a outros fatores, tornam as mulheres muito mais vulneráveis e com menos instrumentos e recursos para enfrentarem a crise climática. Então, falar de moda é falar de mulher, falar de justiça climática é colocar os direitos humanos no centro e principalmente com um olhar interseccional para entender quem são as pessoas mais impactadas pela emergência que a gente já está vendo acontecer.
COM O PASSAR DO TEMPO, A INDÚSTRIA DA MODA VEM SE APROPRIANDO DO DISCURSO DE EMPODERAMENTO, AO MESMO TEMPO EM QUE REFORÇA ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO, DESIGUALDADES DE CLASSE, DENTRE TANTAS OUTRAS FORMAS DE OPRESSÃO. COMO VOCÊ VÊ A RELAÇÃO ENTRE AS MULHERES QUE TRABALHAM NA INDÚSTRIA DA MODA, MUITAS VEZES EM CONDIÇÕES PRECÁRIAS, E AS MULHERES QUE CONSOMEM ESSAS ROUPAS, MUITAS VEZES INCONSCIENTES DOS IMPACTOS DESSA PRODUÇÃO? DE QUE FORMA PODEMOS REPENSAR ESSE CICLO, CRIANDO UM CENÁRIO ONDE A MODA SEJA REALMENTE UM INSTRUMENTO DE EMPODERAMENTO E JUSTIÇA, TANTO PARA QUEM A PRODUZ QUANTO PARA QUEM A CONSOME?
As consumidoras entram nessa equação a partir da responsabilidade individual pelo que se consome – trazendo aqui agência a elas, que podem fazer sua parte nesse ciclo de produção e consumo de forma ativa e consciente, e não passiva, como o sistema capitalista espera. Mas, ainda que esse papel exercido pelas consumidoras seja ativo, o consumo, como qualquer outro comportamento individual, pouco muda os cenários de injustiças e desigualdades estruturais, como vemos na indústria da moda. Esse consumo ativo, por mais que seja responsável não confere às pessoas uma cidadania ativa, não é a mesma coisa. Nós politizamos o consumo. Então, é como se comprando mais produtos pudéssemos, de alguma forma, combater crises ambientais ou as desigualdades sociais. A cultura do consumo e a mentalidade capitalista nos ensinaram a substituir atos de protesto por escolhas pessoais. Assim, continuaremos colocando na conta de cada indivíduo um problema sistêmico global que envolve repensar o capitalismo, criar uma nova agenda de políticas públicas que visem o setor e pressionar por boas práticas socioambientais e responsabilização das empresas por suas cadeias de valor. Então, se quisermos criar um cenário onde a moda traga empoderamento e justiça, precisamos, acima de tudo, confrontar a natureza e a finalidade dos negócios e confrontar o sistema em si.
ESTAMOS ACOMPANHANDO AS DISCUSSÕES QUE O INSTITUTO FEBRE TEM LEVANTADO SOBRE O ALGODÃO E PARA NÓS É MUITO CARO PENSAR EM AGROECOLOGIA. ALGUMAS DAS PEÇAS QUE TE CONVIDAMOS A VESTIR NESSE DIÁLOGOS, INCLUSIVE, SÃO FRUTO DO ALGODÃO AGROECOLÓGICO QUE PLANTAMOS COM A REDE BORBOREMA, NA PARAÍBA. PARA VOCÊ, COMO A PRÁTICA DE CULTIVO DO ALGODÃO AGROECOLÓGICO PODE SER VISTA COMO UM ATO DE RESISTÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO NO QUE DIZ RESPEITO À CONSTRUÇÃO DE UM FUTURO CLIMÁTICO MAIS JUSTO?
O problema central que permeia o espaço agrário brasileiro é, ainda hoje, a concentração fundiária, tendo em vista que a “Revolução Verde” e o ingresso de maior capital no espaço rural aprofundaram ainda mais as desigualdades e intensificaram os conflitos no campo, principalmente nas áreas de expansão da fronteira agrícola. Em nível nacional, a terra e os recursos naturais estão concentrados nas mãos de poucos: 1% dos maiores estabelecimentos rurais ocupam 47,3% enquanto os 50% menores ocupam apenas 2,1% da área fundiária. Mas para essa parcela significativa da população - que tem a terra como casa e depende dela para sobreviver, desenvolver seus meios de subsistência, cultura, conhecimento e tradições - terra, água e cultivos não são commodities.
Essa visão sobre as desigualdades sociais é fundamental, principalmente em meio à crise climática que estamos enfrentando. Nossos biomas vêm sendo fortemente devastados pela produção agropecuária: o desmatamento e as mudanças no uso da terra são os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Sendo assim, nós vemos a agroecologia como uma potência capaz trazer reais transformações, não só para a produção de moda, mas para as pessoas, para a terra e para o clima. A agroecologia, enquanto ciência, prática e movimento que busca a justiça socioambiental pode, por meio de tecnologias sociais, dos saberes tradicionais e do manejo da biodiversidade, produzir alimentos saudáveis, regenerar biomas, capturar carbono e se recuperar mais rápido de eventos climáticos extremos. Acreditamos nos sistemas agroecológicos como uma oportunidade de seguirmos um novo caminho, onde as empresas não saqueiem a natureza para obter lucro, onde os governos invistam em comunidades saudáveis e seguras e onde o crescimento possa ser horizontal e a riqueza distribuída.
NOS PROJETOS EM QUE VOCÊ TEM SE ENVOLVIDO, COMO O MOVIMENTO FASHION REVOLUTION E AGORA O INSTITUTO FEBRE, PERCEBEMOS ESSA CAPACIDADE DE SE CONECTAR COM AS REDES SOCIAIS E OUTRAS PLATAFORMAS, UTILIZANDO UMA LINGUAGEM ACESSÍVEL QUE DIALOGA COM UM PÚBLICO MAIS AMPLO. COMO VOCÊ VÊ A IMPORTÂNCIA DE TORNAR ESSE DISCURSO SOBRE MODA, SUSTENTABILIDADE E JUSTIÇA MAIS ACESSÍVEL? E QUAL O PAPEL DAS PLATAFORMAS DIGITAIS NESSE PROCESSO DE EDUCAÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO, ESPECIALMENTE PARA QUEM AINDA ESTÁ COMEÇANDO A SE ENVOLVER COM ESSES TEMAS?
Todo mundo veste roupa, então todo mundo faz parte do sistema da moda, querendo ou não. Assim como todo mundo faz parte da nossa realidade “insustentável”, seja ocupando lugares de privilégio ou de exploração. Nesse sentido a linguagem acessível é necessária, porque ela ajuda a trazer mais pessoas para a conversa. Isso não significa parar na página 2, é urgente avançarmos nas pautas e aprofundarmos as discussões, porque os problemas não acabaram, pelo contrário, nós precisamos complexificar o paradoxo da sustentabilidade em uma indústria que continua a projetar crescimento infinito. Então na Febre, queremos passar da fase de abrir o diálogo e introduzir o tema, até porque nas redes sociais, pessoas novas chegam o tempo todo. Sentimos a necessidade de ir mais à fundo, nomeando as desigualdades e revelando as estruturas de poder que regem o setor, sem medo de cutucar algumas feridas. Assim como deixamos clara a nossa agenda da justiça climática e de gênero. Porque apesar da vida digital estar estabelecida, as redes sociais são um terreno ainda pouco (ou mal) explorado e que opera em sistema de “bolhas”. Nossa missão é furar a bolha da moda sustentável e criar um diálogo duradouro com outros atores que têm sinergia com as nossas pautas, como os do setor socioambiental, que podem nos ajudar a olhar e atuar melhor com essas questões.
VIMOS QUE VOCÊ É MÃE DE UMA BEBÊ, E SABEMOS QUE A MATERNIDADE TRAZ UMA NOVA PERSPECTIVA SOBRE O MUNDO E FUTURO. COMO A EXPERIÊNCIA DE SER MÃE TEM INFLUENCIADO SUA VISÃO SOBRE O ATIVISMO E O TRABALHO QUE VOCÊ DESENVOLVE, ESPECIALMENTE EM RELAÇÃO À CONSTRUÇÃO DE FUTUROS POSSÍVEIS COM A SUA FILHA E AS PRÓXIMAS GERAÇÕES?
Realmente eu me pego pensando: que legado eu quero deixar para a Flora? Quais lutas eu quero/devo lutar por mim e por ela? Desde a minha gravidez eu, que sempre fui uma pessoa com a cabeça no amanhã, sempre pensando o que poderia acontecer lá na frente, passei a viver – e apreciar – o agora. A Flora, mesmo antes de nascer, me trouxe essa capacidade de aterrissar no hoje, de viver um dia com começo, meio e fim. Isso me trouxe mais paciência, e no trabalho, essa paciência veio para me ajudar a entender que as coisas têm seu tempo para acontecer. Eu continuo com o mesmo senso de urgência para as transformações mais que necessárias, mas vejo, cada vez mais, que os encontros acontecem na hora certa. E eu tenho procurado estar atenta para esses encontros e para essas horas certas, hoje. É sobre apreciar o processo e não só o resultado final. Até porque o futuro realmente não existe, ele está sempre por vir, enquanto o hoje simplesmente é. Esse é o único espaço de tempo que ocupamos de verdade – o presente. O que o torna, ao mesmo tempo, constante e efêmero e isso muda a perspectiva de encarar o mundo. É reconfortante, porque é concreto, mas ao mesmo tempo é muito desafiador pensar que, a cada segundo, estamos criando esses futuros que desejamos e continuaremos tentando, para ela e as próximas gerações.
VAMOS FALAR SOBRE ESPERANÇA, ELO? SÃO MUITOS ANOS DEDICADOS A PENSAR EM TEMAS QUE AVANÇAM E RETROCEDEM COM UMA URGÊNCIA CADA VEZ MAIOR. ENTENDEMOS ESPERANÇA MAIS COMO AÇÃO DO QUE COMO ESPERA, MAS SABEMOS QUE NUM CENÁRIO TÃO ÁRIDO E DESIGUAL PODE SER DIFÍCIL ULTRAPASSAR UM DISCURSO DESCRENTE. O QUE TEM TE RESGATADO PARA A ESPERANÇA?
Para mim, esperança é um ato de coragem. Esperança traz resiliência e esperança pode ser resistência.
A esperança pode ser uma voz dizendo “não, eu não acredito nisso, eu não concordo com isso que está acontecendo hoje. Eu acredito num futuro melhor, eu acredito em alternativas, eu acredito em outras opções, em outras realidades melhores”. E nesse sentido, eu acho que esperança também pode ser uma mensagem de amor para o futuro, para as próximas gerações, como dizendo “eu acredito em você, nós acreditamos em vocês, nós acreditamos num futuro melhor”.
Eu também tenho esperança em projetos de base que acompanho, desde projetos de costura na periferia aqui de São Paulo, projeto de algodão agroecológico no semiárido nordestino, no meio da Catinga, e são projetos liderados por mulheres que estão mudando seus contextos, que estão mudando suas comunidades, que estão se fazendo enxergar diferente, que estão erguendo suas vozes e tentando trazer transformações de baixo para cima.
Fotos do editorial: Camilla Loreta
Eloisa Artuso veste: Camisa Mabel, Saia Suzana, Chemise Mabel, Vestido Suzana e Camisa Dora