DIÁLOGOS DO VESTIR #19 - Bel Coelho

DIÁLOGOS DO VESTIR #19 - Bel Coelho

Bel Coelho nasceu em São Paulo e, com 26 anos de experiência como chef e ativista, tem se dedicado à defesa de uma alimentação saudável, sem venenos, acessível a todos e com foco em ingredientes nativos, que têm o poder de regenerar o meio ambiente e preservar as múltiplas culturas alimentares do Brasil.

Mãe de dois filhos e responsável pela cozinha do Cuia Restaurante e Clandestina Restaurante, Bel viaja pelo Brasil conhecendo produtores e comunidades tradicionais.

Para falar sobre sua relação com o vestir e sua trajetória com a gastronomia, Bel Coelho é a #19 convidada do Diálogos do Vestir.



BEL, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?

A minha relação com vestir é quase uma contradição. Eu gosto de me sentir elegante, me sentir bonita e até de me arrumar, mas eu quero me sentir confortável na roupa que eu estou vestindo e também entender um pouco sobre a cadeia produtiva daquela roupa, quem que ela impacta, qual é o impacto ambiental também. Então, é uma relação de me desafiar a tentar consumir cada vez menos, o que também é um pouco contraditório em relação ao movimento da moda, muitas vezes. Mas é isso. No dia a dia, eu acho que eu busco conforto e elegância e sustentabilidade.

PENSANDO NA SUA TRAJETÓRIA, DESDE QUE ESCOLHEU A GASTRONOMIA COMO PROFISSÃO ATÉ HOJE, COMO VOCÊ ENXERGA A EVOLUÇÃO DA SUA RELAÇÃO COM A COMIDA E OS INGREDIENTES? O QUE MUDOU EM SEU PROCESSO E ABORDAGEM E O QUE PERMANECE COMO UM PRINCÍPIO FUNDAMENTAL AO LONGO DOS ANOS?

Acho que a minha relação com a cadeia do alimento ficou muito mais consciente e responsável com os produtores, com a origem e a maneira como é produzida. Então, a relação com o produtor ficou muito mais estreita e, consequentemente, uma relação também com o próprio alimento, com o próprio produto, o que muda a forma da gente criar pratos. Ter essa relação com a cadeia produtiva toda desde o início pode inspirar muito a criar novos pratos.

A COMIDA SEMPRE FOI PARTE FUNDAMENTAL DA CULTURA, PARA ALÉM DA NUTRIÇÃO. EM PARALELO, PASSAMOS POR UM CENÁRIO DE INSEGURANÇA ALIMENTAR NOS ÚLTIMOS ANOS E ATÉ RETORNAMOS AO MAPA DA FOME POR UM PERÍODO. O QUE A COMIDA ENSINA SOBRE O MOMENTO QUE ESTAMOS VIVENDO? COMO PODEMOS PENSAR NA RELAÇÃO ENTRE COMIDA E IDENTIDADE COMO ALGO QUE VAI ALÉM DA SOBREVIVÊNCIA?

Eu costumo dizer que a gente só tem uma cultura alimentar realmente saudável quando não há insegurança alimentar. Óbvio que a cultura de subsistência pode criar receitas, pode fazer com que as pessoas explorem alimentos e ingredientes de onde elas sobrevivem, de forma que elas não fariam se não estivessem nessa situação. É sempre muito cruel a gente pensar em cultura alimentar quando há insegurança alimentar.

Mas a cultura alimentar é fundamental para a constituição da identidade de um povo. O Brasil é gigantesco, então a gente tem identidades muito diferentes em cada região, em cada bioma. E é isso que faz do nosso país muito rico nesse sentido, mas também muito castigado pela insegurança alimentar e fazendo com que existam também desertos alimentares, tanto nas periferias das grandes cidades, como também em regiões que foram esquecidas e que não existe assistência, que o Estado é muito ausente. Então, é um pouco cruel a gente falar de cultura alimentar quando não há o mínimo, mas isso não quer dizer que a gente não tenha uma cultura alimentar muito rica e muito interessante, muito diversa, mas obviamente que poderia ser mais, porque a gente ainda sofre desse mal por causa dessa instabilidade da presença do Estado.

Não é impossível sanar a insegurança alimentar, aliás é muito possível. Não é fácil, mas é possível. Mas é um minuto para a gente voltar para esse mapa, para o mapa da fome, como ficou demonstrado nos últimos anos. É um negócio que a gente precisa tomar muito cuidado como sociedade, exigir também que isso seja sempre uma prioridade. E aí, a partir disso que a gente passa a falar de cultura e também lutar por essa bandeira, porque também precisa de incentivo, a gente também precisa de ajuda do governo para justamente fomentar e valorizar a cultura alimentar.

Seja exportando, como faz, por exemplo, o Peru com a própria comida que eles têm, a Itália, o Japão, eles exportam a sua cultura. A gente não chegou nesse ponto justamente, inclusive, porque é muito grande, muito diverso e também porque a gente passa por questões como insegurança alimentar com tanta facilidade, a gente volta para esse mapa com tanta facilidade. Então, é um tema complexo e é uma linha tênue que a gente vive entre estar numa realidade um pouco mais saudável e totalmente desassistida.

O MENU BIOMAS DO CLANDESTINA É FRUTO DA SUA PESQUISA PELOS BIOMAS BRASILEIROS E REGISTRA UM POUCO DA DIVERSIDADE DOS ECOSSISTEMAS EM COR, TEXTURA E SABOR. QUE HISTÓRIA ESSES PRATOS TE CONTAM SOBRE OS MUITOS BRASIS QUE COABITAM NOSSO PAÍS?

Já faz mais de 10 anos que eu tenho essa pesquisa sobre os produtos nativos dos nossos biomas e é uma pesquisa que vai durar para sempre. Foi, em primeiro lugar, um privilégio e uma grande surpresa ver a diversidade, a biodiversidade que os nossos biomas guardam em relação a produtos comestíveis mesmo.

E a segunda surpresa foi saber que 95% dos brasileiros conhecem muito pouco sobre os produtos, sobre os ingredientes nativos que a gente tem nos nossos biomas. A gente também tem o nosso gosto colonizado, de alguma forma e a gente se alimenta muito pouco dessas frutas, dessas castanhas, peixes, todos os alimentos que nos são dados pela natureza que o Brasil abarca Isso é uma tristeza, por um lado, mas também uma esperança de que a gente pode, através do alimento, através da alimentação, ajudar na conservação da nossa biodiversidade

 

AQUI NO ATELIÊ COSTUMAMOS DIZER QUE A GENTE NÃO VAI ATRÁS DOS ELEMENTOS DA TERRA PARA TRADUZIR NOSSAS IDEIAS EM ROUPAS, A GENTE TEM IDEIAS A PARTIR DO QUE A TERRA NOS OFERECE. QUANDO VOCÊ FALA SOBRE CRIAR OS PRATOS DO SEU MENU A PARTIR DOS INGREDIENTES, DA CADEIA DE PRODUÇÃO, PENSAMOS NESSA RELAÇÃO DE COMPROMISSO E TROCA COM NOSSA BIODIVERSIDADE. COMO ESSA REALIDADE INFLUENCIA E INSPIRA SEU PROCESSO CRIATIVO NA COZINHA?

Ter esse contato com o produtor ou com a terra onde ele é produzido, me inspira muito a criar novas receitas. Seja por causa do ingrediente, seja porque nessa troca com o produtor, com a pessoa da terra, eles contam sobre receitas regionais, tradicionais ou receitas de família, daquela família de produtores, tudo isso é alimento para criar novas receitas.

VOCÊ MENCIONA QUE A COZINHA DO CLANDESTINA É CONSTRUÍDA A PARTIR DO COMPROMISSO COM PRODUTOS ORGÂNICOS E AGROECOLÓGICOS, ALÉM DE BUSCAR ALCANÇAR O LIXO ZERO. EM UM MOMENTO EM QUE O CONSUMO DE ULTRAPROCESSADOS CRESCE E AS LEIS SOBRE AGROTÓXICOS ESTÃO SENDO FLEXIBILIZADAS, COMO VOCÊ VÊ OS IMPACTOS DESSAS PRÁTICAS PARA UMA CULTURA ALIMENTAR MAIS JUSTA, TANTO PARA OS PRODUTORES QUANTO PARA OS CONSUMIDORES?

O Clandestina é um restaurante muito pequeno, ele tem um impacto pequeno também sobre as cadeias produtivas que a gente de alguma forma atinge no consumo de alimentos para os nossos clientes. Mas eu acredito que o trabalho pode ser em relação à divulgação dessas cadeias alimentares mais sustentáveis e também como exemplo de que pode funcionar, que a gastronomia pode ser uma aliada, uma ferramenta importante na conservação de biodiversidade e no fortalecimento desses pequenos produtores, que produzem de forma mais sustentável e muitas vezes com floresta em pé.

E mesmo pequeno, até os Cuias que são restaurantes não muito grandes, a gente de alguma forma, dá visibilidade para os produtores e toda a rede que faz parte dessa cadeia de produção. Por menor que seja, é muito maior do que uma casa, muito maior do que a minha casa.

Então, de alguma forma, acaba fortalecendo as pessoas envolvidas nessa rede. Eu gosto muito de trazer esses produtores e essas pessoas que são tão importantes, porque para mim é muito mais difícil produzir alimento do que comida, né? Do que um prato. Por causa dos tempos, das intempéries climáticas… Por isso eu valorizo demais essas pessoas, a resiliência e a força que essas pessoas têm. 

Então, quando a gente fala desses produtos, ou quando o produtor vem até o Clandestina e come o produto dele inserido num prato, ou vê um outro cliente comendo aquela fruta, aquele queijo, ver aquilo transformado é como se a rede se completasse. Porque o produtor acaba não vendo a pessoa comendo o alimento que ele produziu. Então, trazer essa visibilidade, trazer os produtores para cá, alguns vêm comer aqui e isso é muito legal. É um resgate de autoestima também, né? E mostrar que elas estão certas, que elas podem seguir, que está dando certo por mais duro e difícil que seja. 

BEL, SÃO 26 ANOS DE ATIVISMO POR UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E ACESSÍVEL. EM MEIO A AVANÇOS E RETROCESSOS, O QUE SEGUE ALIMENTANDO ESSES SONHOS?

Olha, eu acho que o que segue alimentando os meus sonhos é, em primeiro lugar, os meus filhos e o desejo de deixar um planeta um pouco melhor para eles. Eu sei que é bastante pretensioso da minha parte, eu, uma pessoa, né? Eu sei do tamanho da minha insignificância também, mas eu uso o meu poder de influência e de divulgação, por menor que ele seja, para fortalecer essas cadeias, esses sistemas alimentares que são mais sustentáveis e que trabalham de forma mais harmônica com a natureza.

Então eu acho que se eu puder deixar um legado, é esse legado de luta, de força, para pessoas que às vezes não encontram essa força, não sabem de onde tirar, ser de alguma forma inspiração. Talvez seja pretensão também da minha parte, mas eu acho que se cada um, do meu tamanho, menor que eu ou maior, com mais poder de influência, se de alguma forma se tocar por essas causas através do meu trabalho, eu já vou estar feliz.

Fotos do editorial: Camilla Loreta
Espaço: Clandestina Restaurante
Bel Coelho veste: Macacão Renata e Mule Bianca; Camisa Clarice Areia e Calça Augusta Areia, Macacão Caetana e Camisa Caetana

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