Adriana Ferreira Silva (49 anos) nasceu em São Paulo, onde vive atualmente. Com mais de 25 anos de carreira como jornalista, escritora e pesquisadora, Adri estuda relações de gênero na literatura e na cultura.
Colunista do Nexo Jornal, revista Quatro Cinco Um e Numéro Brasil, Adri é curadora na Galápagos Newsmaking e é referência no que diz respeito ao mercado da comunicação.
Na #20 edição do Diálogos do Vestir, nos encontramos com Adri na Livraria Sentimento do Mundo (Santa Cecília - SP) para falar sobre o vestir, o contar de histórias e a palavra.
ADRI, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Pra mim, vestir primeiro foi fantasia. Quando eu era criança, pegar as roupas da minha mãe e fazer brincadeiras com ela. Também fantasia no sentido de me vestir de Mulher Maravilha, por exemplo.
Depois eu entendi que a roupa podia ser uma identidade. E aí tudo mudou com relação ao que eu sentia ao me vestir. Quando eu falo em identidade, eu penso, por exemplo, na adolescência,eu me vestia pra fazer parte de uma turma e também para me diferenciar.Teve a época em que eu me vestia de gótica, da cabeça aos pés, depois eu era grunge e depois eu me identificava com a moda clubber, por exemplo. A relação se aprofundou muito quando eu passei a prestar atenção por exemplo, justamente nos estilistas brasileiros, então quando eu descobri Alexandre Herchcovitch, Flavia Aranha, Jum Nakao, todas essas pessoas me colocaram em outra relação com a roupa. Eu passei a desejar me vestir com as peças dessas pessoas que eu admirava tanto. Tem ainda um outro lado do vestir, que é o luxo. Quando eu falo em luxo, não estou falando de uma marca de bolsa ou de uma peça muito cara. Eu descobri que o luxo é o ‘savoir-faire’, é você desenhar, é você pintar, é você bordar, é você ter um ateliê de costura onde as peças passam por um tingimento especial, tem um cuidado especial. Hoje pra mim continua sendo uma questão de identidade, eu gosto de brincar com a maneira de me vestir, de ser diferentes versões da Adriana com as roupas. E eu tenho esse cuidado de escolher as peças de quem eu uso, eu gosto de falar sobre o slow fashion, uma roupa que tem por trás um pensamento sobre o algodão natural, uma mão de obra mais qualificada, pessoas bem pagas, uma roupa que por trás dela existe uma pesquisa.
ME CONTA UM POUCO DA SUA HISTÓRIA! ONDE VOCÊ NASCEU, VIVEU… SEU CAMINHO ATÉ CHEGAR AQUI.
Eu sou paulistana, nasci na periferia de São Paulo, na Zéli, Zona Leste. Vivi lá durante toda a minha infância e adolescência e acho que algumas das coisas que eu sempre gostei desde criança nortearam e acabaram traçando os rumos que eu seguiria posteriormente. Por que eu estou falando isso? Porque eu sempre gostei de música desde criança, eu era fã de boy bands como o Menudo, eu era fã de música brasileira, depois disso eu fui fã de rock e aí eu passei em todos os shows que eu podia, desde festivais para ver o Nirvana até assistir show dos Ramones, eu frequentava uma cena de rock independente aqui de São Paulo.
Também sempre gostei de ler, que é outra herança que eu trago do meu pai. Meu pai tinha uma biblioteca enorme de livros, apesar dele não ter estudado, ele sempre gostou muito de ler, assim como ele também sempre gostou muito de ouvir música e eu herdei dele não só a biblioteca como o gosto pelos livros. Tudo isso me levou a ser uma apaixonada por cultura, eu também sempre gostei de comunicação e acabei no jornalismo e no jornalismo cultural.
No jornalismo cultural eu tive a oportunidade de fazer um pouco de tudo isso que eu gosto. Eu fui jornalista de música durante muitos anos, depois eu migrei um pouco para a arte digital, acompanhei a nova geração de digital art aqui no Brasil. Também nesse cruzamento com a música, porque era uma época em que existia muito essa mistura de imagens e som nas festas com os VJs.
Depois acabei migrando para a literatura, que sempre foi uma coisa que eu amei. Como eu disse, eu sempre gostei de ler muito, mas eu não escrevia sobre literatura, quem me levou para a literatura foram as mulheres. Ao mesmo tempo em que eu passei a desenvolver uma pesquisa sobre feminismo interseccional - que é o que mais me interessa, pesquisas que eu desenvolvo de gênero, raça e classe -, eu passei a entrevistar muitas autoras, muitas feministas. Entrevistei desde Angela Davis, passando por Djamila Ribeiro, Anne Arnott, Patrícia Hill Collins, Rebecca Solnit, Chimamanda Ngozi Adichie.
Eu acho que, quando você me pergunta qual é a minha história, a minha história está super ligada ao meu trabalho. Eu sempre fiz o que eu gostei de fazer e acabou que as coisas que eu amo fazer na vida se transformaram também em uma maneira de eu me expressar no mundo.
SÃO MAIS DE 25 ANOS DE CARREIRA E VOCÊ PARTICIPOU DE MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA HISTÓRIA DO JORNALISMO E DA CULTURA. COMO VOCÊ VÊ A TRANSFORMAÇÃO NA FORMA DE CONTAR HISTÓRIAS, ESPECIALMENTE NO QUE DIZ RESPEITO À COBERTURA DE TEMAS SOCIAIS E POLÍTICOS? A PARTIR DISSO, COMO VOCÊ ENTENDE O PAPEL DA COMUNICAÇÃO HOJE, NUM CONTEXTO DE ACELERAÇÃO TECNOLÓGICA E, AO MESMO TEMPO, DE BUSCA POR UMA NARRATIVA MAIS AUTÊNTICA E ENGAJADA?
Eu sou da geração que viveu uma verdadeira revolução na forma de contar histórias e fazer jornalismo. Quando eu cheguei na redação do jornal, no ano 2000, ali na virada para o século XXI, a única rede social que a gente usava era o Orkut. A internet ainda não funcionava na rapidez e as plataformas não traziam pesquisas tão acuradas como trazem hoje.
Ainda recebíamos fax para divulgação, as fotos chegavam em papel. Em 10 anos, entre 2000 e 2010, a gente testemunhou uma revolução inimaginável, uma revolução que, em outros tempos, demoraria 100 anos para acontecer, que foi a chegada das redes sociais. Isso impactou muito na maneira da gente jornalista trabalhar.
Pensando em como a gente trabalha hoje e pensando no papel da comunicação, é muito mais desafiador, porque eu sou de um tempo em que ainda existia o furo. Não que não exista, mas hoje o furo tem que ser dado na internet, porque as informações chegam e passam com muita velocidade. O papel jornal, revista, ainda é muito importante, mas ganhou uma outra função. Tem que ser mais dedicado a análises profundas, porque se você for contar no papel aquilo que aconteceu no dia anterior, ninguém vai te ler, todo mundo já leu na internet. E também a gente tem que lidar com essa maluquice de que a cada minuto a notícia tem que ser atualizada, às vezes atualizada sem uma apuração mais profunda.
Então, a gente tem de um lado essa maravilha que é a revolução tecnológica, mas de outro a gente tem que lidar também com as notícias falsas que circulam como se fossem verdadeiras e uma descaracterização do papel do jornalista, qualquer um se sente hábil a produzir notícia, a espalhar notícia e ninguém sabe como essa notícia é feita.
A gente tem uma função hoje de manter o jornalismo relevante, se adaptar aos novos tempos, fazendo aquilo que eu sempre falo que é o jornalismo interseccional, considerando gênero, raça, classe, falando para pessoas de diferentes backgrounds, pessoas que vêm de periferias, você tem que ser relevante para todo mundo, tem que aprender a falar com todas essas pessoas. Numa narrativa que seja ética, que defenda valores, como os direitos das mulheres, numa narrativa que seja antirracista, que seja inclusiva em todos os sentidos e, ao mesmo tempo, combater a desinformação. Então, eu acho que a gente vive uma transformação que é muito desafiadora, mas eu acredito realmente que no meio disso tudo, a boa narrativa, a boa história, que considerem a sua relevância política, social, ainda tem muito espaço para acontecer. Muita história boa ainda tem que ser contada e o desafio de quem conta a história é justamente aliar tudo isso a seu favor, combatendo a desinformação que se espalha.
VOCÊ SE MOVIMENTA ENTRE VÁRIAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO — DO JORNALISMO À CURADORIA E À ESCRITA. QUAL É A POTÊNCIA DA PALAVRA, E COMO ELA SE TRANSFORMA QUANDO VOCÊ ASSUME DIFERENTES PAPÉIS? COMO VOCÊ ENCONTRA A SUA VOZ EM CADA UMA DESSAS INSTÂNCIAS?
Eu acho que ainda estou encontrando minha voz. Pensando na palavra e no uso que eu faço dela, tanto da palavra escrita quanto da palavra falada, eu sempre vou descobrindo coisas novas. Primeiro que eu adoro ler, quando eu leio, os meus livros são todos rabiscados porque eu gosto dessa capacidade que alguns autores têm de transformar palavras muito comuns do dia a dia em poesias brilhantes para compor textos. Eu tenho essa relação com a palavra, esse gostar, tanto na relação da leitura, quanto do texto.
Quando eu escrevo, tanto quando eu escrevo quanto eu edito, aliás, uma das partes que eu mais gosto, na escrita, é a edição. A edição que a gente faz depois que o texto está pronto para eliminar palavras e acrescentar outras.
O outro uso que eu faço da palavra é no falar, nas entrevistas, nas mediações. E aí já é um outro jeito de lidar com a palavra. A palavra que cabe no texto não cabe na mediação, não cabe numa entrevista. E mesmo os textos, a gente usa palavras diferentes. Quando eu escrevo um texto sobre moda, eu uso um tipo de palavra.
Quando eu escrevo um texto sobre literatura, eu uso um tipo de palavra. Quando eu vou fazer uma apresentação num evento de literatura, uma entrevista ao vivo com um escritor, ou fazer uma mediação com uma escritora, eu também busco palavras que combinem com o contexto onde vai acontecer esse evento, esse encontro, e que tenham a ver com o universo do escritor.
Para mim, a palavra está na base de tudo que eu faço, seja escrito, seja falado, seja nas entrevistas.
A LITERATURA, HISTORICAMENTE, TEM SIDO UM ESPAÇO DE PODER E EXCLUSÃO, ESPECIALMENTE PARA MULHERES NEGRAS E DE DIFERENTES CLASSES SOCIAIS. TANTO NO QUE DIZ RESPEITO À FORMA COMO SÃO REPRESENTADAS, QUANTO PARA MULHERES QUE DESEJAM ESCREVER. COMO VOCÊ VÊ A EVOLUÇÃO DESSAS DISPUTAS DE PODER, ESPECIALMENTE NO QUE DIZ RESPEITO À INTERSEÇÃO ENTRE GÊNERO, RAÇA E CLASSE?
Para te responder, eu vou usar uma frase que a escritora Bernardine Evaristo me disse. Bernardine Evaristo é uma autora britânica, foi a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize, que é o principal prêmio de literatura na Inglaterra, mas que contempla escritores e escritoras do mundo todo. Ela é autora de livros como “Garota, Mulher, Outras”, que é um clássico contemporâneo. Bernardine é dramaturga, escritora, poeta e professora. Ela é uma mulher negra descendente de africanos que nasceu na Inglaterra e me disse que o progresso nunca vem acompanhado de mais progresso.
Por que eu digo isso? Porque a gente vive um momento muito importante na literatura, que é um movimento de progresso, um movimento de mais mulheres negras publicando, de pessoas racializadas publicando. Então, a gente tem autores e autoras indígenas, muitas pessoas da comunidade LGBTQIAP+, contando as suas próprias histórias. Um movimento de mulheres trans, de homens trans publicando, muitos homens negros periféricos publicando livros, chamando a atenção.
O principal autor brasileiro hoje, que mais vende livros, é o Itamar Vieira Júnior, um homem negro baiano que conta histórias que têm a ver com o lugar de onde ele veio. A gente tem acesso a autoras africanas, autores e autoras da Ásia, mas ainda é pouco.
E esse movimento vem, obviamente, acompanhado de um movimento mercadológico. As editoras estão publicando essas pessoas porque essas pessoas vendem, essas pessoas fazem sucesso. A gente ainda precisa ocupar mais espaços, precisa que as editoras tenham pessoas negras editando. A gente precisa que as pessoas negras, as mulheres, as pessoas racializadas, as pessoas periféricas estejam ocupando cargos de liderança no mercado editorial, porque aquela história de uma puxa a outra, um puxa o outro, é muito verdadeira. Precisamos ter representantes de todas as classes sociais, de todos os segmentos da sociedade, ocupando cargos de liderança, ocupando cargos de poder, para que essas pessoas tragam e promovam a inclusão.
Então, eu vejo esse momento da literatura como um momento histórico, no sentido de que, finalmente, estamos lendo e conhecendo histórias escritas por pessoas que não tinham acesso a esse meio. Mas ainda há muitas outras pessoas que têm boas histórias para contar, que ainda não têm acesso, e a gente tem que lutar para que essas pessoas tenham acesso. Como disse a Bernardine Evaristo, o progresso nunca vem seguido de mais progresso. A gente tem que sempre estar atenta e forte para prosseguir promovendo mudanças.
DENTRO DA SUA RELAÇÃO TÃO PRÓXIMA COM A LITERATURA, O QUE TEM LIDO ULTIMAMENTE? QUAIS NOTÍCIAS SOBRE NOSSO PRESENTE ESSAS LEITURAS TE TRAZEM?
Para mim, a literatura hoje, além de um trabalho, é uma maneira de compreender o mundo em que eu vivo por meio de um recorte. Então, o meu recorte é ler mulheres, principalmente mulheres, de todos os países, autoras mainstream, autoras do circuito underground.
E aí expandindo um pouco para autores negros, racializados ou periféricos, quando eu falo de homens, por exemplo, da comunidade LGBTQIAP+.
E por que eu foco nesse tipo de leitura? Primeiro porque é um momento muito efervescente para esse recorte da literatura, um momento muito efervescente para as mulheres, para a literatura independente, para a literatura feita por pessoas trans, LGBTQIAP+, para as pessoas racializadas. Finalmente a gente pode encontrar no Brasil, textos de autoras e autores africanos ou de países asiáticos. A gente está saindo do cânone europeu. Temos essa abertura para o que é fora do cânone do homem branco, heterossexual, que sempre predominou na literatura.
Quanto mais eu leio mulheres, quanto mais eu faço essa leitura com esse recorte, mais eu compreendo quantas histórias ainda precisam ser contadas. Porque até então, as histórias que a gente sabe da nossa sociedade, em especial ocidental, foram contadas por pessoas brancas, em especial por homens brancos. Quando eu leio as mulheres, eu leio uma outra versão da história. Eu leio as histórias de pessoas que foram sempre marginalizadas e não que são a minoria, porque no Brasil, por exemplo, um país onde a maioria de pessoas são pretas, só agora a gente tem autores negros, como por exemplo Itamar Vieira Júnior, fazendo um grande sucesso.
Então quando eu leio Itamar Vieira Júnior, eu entendo uma perspectiva da sociedade brasileira, em especial das pessoas descendentes de escravizados, de uma certa região da Bahia, mas não só, que estão muito próximas, por exemplo, de onde eu vim, que é a periferia de São Paulo, mas que não tinham voz, não tinham espaço para as histórias serem contadas. Então é muito bonito você repensar o mundo e redescobrir coisas que você conhece pelo olhar de um escritor que vive numa realidade completamente diferente da sua, aparentemente, mas que tem tanto a dizer. É muito lindo descobrir o mundo pelo olhar da Eliana Alves Cruz. Eu adoro, por exemplo, saber o que acontece nas comunidades cariocas pelo olhar do Geovani Martins, ou descobrir o sertão baiano pelo olhar da Luciane Aparecida, ouvir e ler histórias sobre a perspectiva de uma mulher lésbica como a Natália Borges Polesso.
Acho que a gente vive esse momento muito especial da literatura em que a gente pode conhecer a nossa história como país, como sociedade, ocidental, oriental, a partir de outras perspectivas que não aquelas que predominaram até muito recentemente.
PENSANDO NA SUA EXPERIÊNCIA COM A PALAVRA E DAS FORMAS QUE A FALA PERMEIA SEU TRABALHO, HÁ ALGO QUE VOCÊ AINDA NÃO FALOU E SENTE QUE PRECISA SER DITO?
Como jornalista, a gente fala muito pela boca alheia. Então, como jornalista, o que eu faço hoje é tentar dar cada vez mais voz e espaço para pessoas que não tinham espaço. tento levar para o papel, ou para o palco, ou para as minhas aulas, pela bibliografia que eu leio.
Ainda falta muito a ser dito sobre as mulheres de toda a sociedade. Eu acho que a gente ainda tem que ouvir muito o que as mulheres indígenas têm a dizer, o que as pessoas indígenas em geral têm a dizer. A gente tem que ouvir muito o que as mulheres trans têm a dizer, o que os homens trans têm a dizer, o que a comunidade LGBTQIAP+, têm a dizer. A gente tem que ouvir muito o que as pessoas pretas têm a dizer, sejam elas homens, mulheres, porque foram pessoas que foram caladas durante muito tempo.
Quando você me pergunta o que eu gostaria de falar que ainda não foi dito, passa por dar voz, na verdade, a todas essas pessoas através do meu trabalho. Seja por meio das entrevistas, das mediações, aulas ou palestras. Eu acho que um pouco minha função como jornalista hoje é abrir espaço para que essas pessoas possam não só contar suas histórias, mas também espalhar, difundir.
Agradecimentos: Livraria Sentimento do Mundo
Registros: Camilla Loreta
Adri veste: Blusa Lilia Modal, Saia Lilia Modal, Blusa Ana Linho Bege, Bermuda Ana Linho Bege, Pulseira Orgânica Marchetaria Ikat, Pulseira Bromélia Marchetaria Cobochum, Alpagarta Algodão Orgânico Marrom, Vestido Lilia Modal Areia, Sandália Paloma
Diálogos do Vestir #20 - Adri Ferreira
Adriana Ferreira Silva (49 anos) nasceu em São Paulo, onde vive atualmente. Com mais de 25 anos de carreira como jornalista, escritora e pesquisadora, Adri estuda relações de gênero na literatura e na cultura.
Colunista do Nexo Jornal, revista Quatro Cinco Um e Numéro Brasil, Adri é curadora na Galápagos Newsmaking e é referência no que diz respeito ao mercado da comunicação.
Na #20 edição do Diálogos do Vestir, nos encontramos com Adri na Livraria Sentimento do Mundo (Santa Cecília - SP) para falar sobre o vestir, o contar de histórias e a palavra.
ADRI, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Pra mim, vestir primeiro foi fantasia. Quando eu era criança, pegar as roupas da minha mãe e fazer brincadeiras com ela. Também fantasia no sentido de me vestir de Mulher Maravilha, por exemplo.
Depois eu entendi que a roupa podia ser uma identidade. E aí tudo mudou com relação ao que eu sentia ao me vestir. Quando eu falo em identidade, eu penso, por exemplo, na adolescência,eu me vestia pra fazer parte de uma turma e também para me diferenciar.Teve a época em que eu me vestia de gótica, da cabeça aos pés, depois eu era grunge e depois eu me identificava com a moda clubber, por exemplo. A relação se aprofundou muito quando eu passei a prestar atenção por exemplo, justamente nos estilistas brasileiros, então quando eu descobri Alexandre Herchcovitch, Flavia Aranha, Jum Nakao, todas essas pessoas me colocaram em outra relação com a roupa. Eu passei a desejar me vestir com as peças dessas pessoas que eu admirava tanto. Tem ainda um outro lado do vestir, que é o luxo. Quando eu falo em luxo, não estou falando de uma marca de bolsa ou de uma peça muito cara. Eu descobri que o luxo é o ‘savoir-faire’, é você desenhar, é você pintar, é você bordar, é você ter um ateliê de costura onde as peças passam por um tingimento especial, tem um cuidado especial. Hoje pra mim continua sendo uma questão de identidade, eu gosto de brincar com a maneira de me vestir, de ser diferentes versões da Adriana com as roupas. E eu tenho esse cuidado de escolher as peças de quem eu uso, eu gosto de falar sobre o slow fashion, uma roupa que tem por trás um pensamento sobre o algodão natural, uma mão de obra mais qualificada, pessoas bem pagas, uma roupa que por trás dela existe uma pesquisa.
ME CONTA UM POUCO DA SUA HISTÓRIA! ONDE VOCÊ NASCEU, VIVEU… SEU CAMINHO ATÉ CHEGAR AQUI.
Eu sou paulistana, nasci na periferia de São Paulo, na Zéli, Zona Leste. Vivi lá durante toda a minha infância e adolescência e acho que algumas das coisas que eu sempre gostei desde criança nortearam e acabaram traçando os rumos que eu seguiria posteriormente. Por que eu estou falando isso? Porque eu sempre gostei de música desde criança, eu era fã de boy bands como o Menudo, eu era fã de música brasileira, depois disso eu fui fã de rock e aí eu passei em todos os shows que eu podia, desde festivais para ver o Nirvana até assistir show dos Ramones, eu frequentava uma cena de rock independente aqui de São Paulo.
Também sempre gostei de ler, que é outra herança que eu trago do meu pai. Meu pai tinha uma biblioteca enorme de livros, apesar dele não ter estudado, ele sempre gostou muito de ler, assim como ele também sempre gostou muito de ouvir música e eu herdei dele não só a biblioteca como o gosto pelos livros. Tudo isso me levou a ser uma apaixonada por cultura, eu também sempre gostei de comunicação e acabei no jornalismo e no jornalismo cultural.
No jornalismo cultural eu tive a oportunidade de fazer um pouco de tudo isso que eu gosto. Eu fui jornalista de música durante muitos anos, depois eu migrei um pouco para a arte digital, acompanhei a nova geração de digital art aqui no Brasil. Também nesse cruzamento com a música, porque era uma época em que existia muito essa mistura de imagens e som nas festas com os VJs.
Depois acabei migrando para a literatura, que sempre foi uma coisa que eu amei. Como eu disse, eu sempre gostei de ler muito, mas eu não escrevia sobre literatura, quem me levou para a literatura foram as mulheres. Ao mesmo tempo em que eu passei a desenvolver uma pesquisa sobre feminismo interseccional - que é o que mais me interessa, pesquisas que eu desenvolvo de gênero, raça e classe -, eu passei a entrevistar muitas autoras, muitas feministas. Entrevistei desde Angela Davis, passando por Djamila Ribeiro, Anne Arnott, Patrícia Hill Collins, Rebecca Solnit, Chimamanda Ngozi Adichie.
Eu acho que, quando você me pergunta qual é a minha história, a minha história está super ligada ao meu trabalho. Eu sempre fiz o que eu gostei de fazer e acabou que as coisas que eu amo fazer na vida se transformaram também em uma maneira de eu me expressar no mundo.
SÃO MAIS DE 25 ANOS DE CARREIRA E VOCÊ PARTICIPOU DE MOMENTOS SIGNIFICATIVOS NA HISTÓRIA DO JORNALISMO E DA CULTURA. COMO VOCÊ VÊ A TRANSFORMAÇÃO NA FORMA DE CONTAR HISTÓRIAS, ESPECIALMENTE NO QUE DIZ RESPEITO À COBERTURA DE TEMAS SOCIAIS E POLÍTICOS? A PARTIR DISSO, COMO VOCÊ ENTENDE O PAPEL DA COMUNICAÇÃO HOJE, NUM CONTEXTO DE ACELERAÇÃO TECNOLÓGICA E, AO MESMO TEMPO, DE BUSCA POR UMA NARRATIVA MAIS AUTÊNTICA E ENGAJADA?
Eu sou da geração que viveu uma verdadeira revolução na forma de contar histórias e fazer jornalismo. Quando eu cheguei na redação do jornal, no ano 2000, ali na virada para o século XXI, a única rede social que a gente usava era o Orkut. A internet ainda não funcionava na rapidez e as plataformas não traziam pesquisas tão acuradas como trazem hoje.
Ainda recebíamos fax para divulgação, as fotos chegavam em papel. Em 10 anos, entre 2000 e 2010, a gente testemunhou uma revolução inimaginável, uma revolução que, em outros tempos, demoraria 100 anos para acontecer, que foi a chegada das redes sociais. Isso impactou muito na maneira da gente jornalista trabalhar.
Pensando em como a gente trabalha hoje e pensando no papel da comunicação, é muito mais desafiador, porque eu sou de um tempo em que ainda existia o furo. Não que não exista, mas hoje o furo tem que ser dado na internet, porque as informações chegam e passam com muita velocidade. O papel jornal, revista, ainda é muito importante, mas ganhou uma outra função. Tem que ser mais dedicado a análises profundas, porque se você for contar no papel aquilo que aconteceu no dia anterior, ninguém vai te ler, todo mundo já leu na internet. E também a gente tem que lidar com essa maluquice de que a cada minuto a notícia tem que ser atualizada, às vezes atualizada sem uma apuração mais profunda.
Então, a gente tem de um lado essa maravilha que é a revolução tecnológica, mas de outro a gente tem que lidar também com as notícias falsas que circulam como se fossem verdadeiras e uma descaracterização do papel do jornalista, qualquer um se sente hábil a produzir notícia, a espalhar notícia e ninguém sabe como essa notícia é feita.
A gente tem uma função hoje de manter o jornalismo relevante, se adaptar aos novos tempos, fazendo aquilo que eu sempre falo que é o jornalismo interseccional, considerando gênero, raça, classe, falando para pessoas de diferentes backgrounds, pessoas que vêm de periferias, você tem que ser relevante para todo mundo, tem que aprender a falar com todas essas pessoas. Numa narrativa que seja ética, que defenda valores, como os direitos das mulheres, numa narrativa que seja antirracista, que seja inclusiva em todos os sentidos e, ao mesmo tempo, combater a desinformação. Então, eu acho que a gente vive uma transformação que é muito desafiadora, mas eu acredito realmente que no meio disso tudo, a boa narrativa, a boa história, que considerem a sua relevância política, social, ainda tem muito espaço para acontecer. Muita história boa ainda tem que ser contada e o desafio de quem conta a história é justamente aliar tudo isso a seu favor, combatendo a desinformação que se espalha.
VOCÊ SE MOVIMENTA ENTRE VÁRIAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO — DO JORNALISMO À CURADORIA E À ESCRITA. QUAL É A POTÊNCIA DA PALAVRA, E COMO ELA SE TRANSFORMA QUANDO VOCÊ ASSUME DIFERENTES PAPÉIS? COMO VOCÊ ENCONTRA A SUA VOZ EM CADA UMA DESSAS INSTÂNCIAS?
Eu acho que ainda estou encontrando minha voz. Pensando na palavra e no uso que eu faço dela, tanto da palavra escrita quanto da palavra falada, eu sempre vou descobrindo coisas novas. Primeiro que eu adoro ler, quando eu leio, os meus livros são todos rabiscados porque eu gosto dessa capacidade que alguns autores têm de transformar palavras muito comuns do dia a dia em poesias brilhantes para compor textos. Eu tenho essa relação com a palavra, esse gostar, tanto na relação da leitura, quanto do texto.
Quando eu escrevo, tanto quando eu escrevo quanto eu edito, aliás, uma das partes que eu mais gosto, na escrita, é a edição. A edição que a gente faz depois que o texto está pronto para eliminar palavras e acrescentar outras.
O outro uso que eu faço da palavra é no falar, nas entrevistas, nas mediações. E aí já é um outro jeito de lidar com a palavra. A palavra que cabe no texto não cabe na mediação, não cabe numa entrevista. E mesmo os textos, a gente usa palavras diferentes. Quando eu escrevo um texto sobre moda, eu uso um tipo de palavra.
Quando eu escrevo um texto sobre literatura, eu uso um tipo de palavra. Quando eu vou fazer uma apresentação num evento de literatura, uma entrevista ao vivo com um escritor, ou fazer uma mediação com uma escritora, eu também busco palavras que combinem com o contexto onde vai acontecer esse evento, esse encontro, e que tenham a ver com o universo do escritor.
Para mim, a palavra está na base de tudo que eu faço, seja escrito, seja falado, seja nas entrevistas.
A LITERATURA, HISTORICAMENTE, TEM SIDO UM ESPAÇO DE PODER E EXCLUSÃO, ESPECIALMENTE PARA MULHERES NEGRAS E DE DIFERENTES CLASSES SOCIAIS. TANTO NO QUE DIZ RESPEITO À FORMA COMO SÃO REPRESENTADAS, QUANTO PARA MULHERES QUE DESEJAM ESCREVER. COMO VOCÊ VÊ A EVOLUÇÃO DESSAS DISPUTAS DE PODER, ESPECIALMENTE NO QUE DIZ RESPEITO À INTERSEÇÃO ENTRE GÊNERO, RAÇA E CLASSE?
Para te responder, eu vou usar uma frase que a escritora Bernardine Evaristo me disse. Bernardine Evaristo é uma autora britânica, foi a primeira mulher negra a ganhar o Booker Prize, que é o principal prêmio de literatura na Inglaterra, mas que contempla escritores e escritoras do mundo todo. Ela é autora de livros como “Garota, Mulher, Outras”, que é um clássico contemporâneo. Bernardine é dramaturga, escritora, poeta e professora. Ela é uma mulher negra descendente de africanos que nasceu na Inglaterra e me disse que o progresso nunca vem acompanhado de mais progresso.
Por que eu digo isso? Porque a gente vive um momento muito importante na literatura, que é um movimento de progresso, um movimento de mais mulheres negras publicando, de pessoas racializadas publicando. Então, a gente tem autores e autoras indígenas, muitas pessoas da comunidade LGBTQIAP+, contando as suas próprias histórias. Um movimento de mulheres trans, de homens trans publicando, muitos homens negros periféricos publicando livros, chamando a atenção.
O principal autor brasileiro hoje, que mais vende livros, é o Itamar Vieira Júnior, um homem negro baiano que conta histórias que têm a ver com o lugar de onde ele veio. A gente tem acesso a autoras africanas, autores e autoras da Ásia, mas ainda é pouco.
E esse movimento vem, obviamente, acompanhado de um movimento mercadológico. As editoras estão publicando essas pessoas porque essas pessoas vendem, essas pessoas fazem sucesso. A gente ainda precisa ocupar mais espaços, precisa que as editoras tenham pessoas negras editando. A gente precisa que as pessoas negras, as mulheres, as pessoas racializadas, as pessoas periféricas estejam ocupando cargos de liderança no mercado editorial, porque aquela história de uma puxa a outra, um puxa o outro, é muito verdadeira. Precisamos ter representantes de todas as classes sociais, de todos os segmentos da sociedade, ocupando cargos de liderança, ocupando cargos de poder, para que essas pessoas tragam e promovam a inclusão.
Então, eu vejo esse momento da literatura como um momento histórico, no sentido de que, finalmente, estamos lendo e conhecendo histórias escritas por pessoas que não tinham acesso a esse meio. Mas ainda há muitas outras pessoas que têm boas histórias para contar, que ainda não têm acesso, e a gente tem que lutar para que essas pessoas tenham acesso. Como disse a Bernardine Evaristo, o progresso nunca vem seguido de mais progresso. A gente tem que sempre estar atenta e forte para prosseguir promovendo mudanças.
DENTRO DA SUA RELAÇÃO TÃO PRÓXIMA COM A LITERATURA, O QUE TEM LIDO ULTIMAMENTE? QUAIS NOTÍCIAS SOBRE NOSSO PRESENTE ESSAS LEITURAS TE TRAZEM?
Para mim, a literatura hoje, além de um trabalho, é uma maneira de compreender o mundo em que eu vivo por meio de um recorte. Então, o meu recorte é ler mulheres, principalmente mulheres, de todos os países, autoras mainstream, autoras do circuito underground.
E aí expandindo um pouco para autores negros, racializados ou periféricos, quando eu falo de homens, por exemplo, da comunidade LGBTQIAP+.
E por que eu foco nesse tipo de leitura? Primeiro porque é um momento muito efervescente para esse recorte da literatura, um momento muito efervescente para as mulheres, para a literatura independente, para a literatura feita por pessoas trans, LGBTQIAP+, para as pessoas racializadas. Finalmente a gente pode encontrar no Brasil, textos de autoras e autores africanos ou de países asiáticos. A gente está saindo do cânone europeu. Temos essa abertura para o que é fora do cânone do homem branco, heterossexual, que sempre predominou na literatura.
Quanto mais eu leio mulheres, quanto mais eu faço essa leitura com esse recorte, mais eu compreendo quantas histórias ainda precisam ser contadas. Porque até então, as histórias que a gente sabe da nossa sociedade, em especial ocidental, foram contadas por pessoas brancas, em especial por homens brancos. Quando eu leio as mulheres, eu leio uma outra versão da história. Eu leio as histórias de pessoas que foram sempre marginalizadas e não que são a minoria, porque no Brasil, por exemplo, um país onde a maioria de pessoas são pretas, só agora a gente tem autores negros, como por exemplo Itamar Vieira Júnior, fazendo um grande sucesso.
Então quando eu leio Itamar Vieira Júnior, eu entendo uma perspectiva da sociedade brasileira, em especial das pessoas descendentes de escravizados, de uma certa região da Bahia, mas não só, que estão muito próximas, por exemplo, de onde eu vim, que é a periferia de São Paulo, mas que não tinham voz, não tinham espaço para as histórias serem contadas. Então é muito bonito você repensar o mundo e redescobrir coisas que você conhece pelo olhar de um escritor que vive numa realidade completamente diferente da sua, aparentemente, mas que tem tanto a dizer. É muito lindo descobrir o mundo pelo olhar da Eliana Alves Cruz. Eu adoro, por exemplo, saber o que acontece nas comunidades cariocas pelo olhar do Geovani Martins, ou descobrir o sertão baiano pelo olhar da Luciane Aparecida, ouvir e ler histórias sobre a perspectiva de uma mulher lésbica como a Natália Borges Polesso.
Acho que a gente vive esse momento muito especial da literatura em que a gente pode conhecer a nossa história como país, como sociedade, ocidental, oriental, a partir de outras perspectivas que não aquelas que predominaram até muito recentemente.
PENSANDO NA SUA EXPERIÊNCIA COM A PALAVRA E DAS FORMAS QUE A FALA PERMEIA SEU TRABALHO, HÁ ALGO QUE VOCÊ AINDA NÃO FALOU E SENTE QUE PRECISA SER DITO?
Como jornalista, a gente fala muito pela boca alheia. Então, como jornalista, o que eu faço hoje é tentar dar cada vez mais voz e espaço para pessoas que não tinham espaço. tento levar para o papel, ou para o palco, ou para as minhas aulas, pela bibliografia que eu leio.
Ainda falta muito a ser dito sobre as mulheres de toda a sociedade. Eu acho que a gente ainda tem que ouvir muito o que as mulheres indígenas têm a dizer, o que as pessoas indígenas em geral têm a dizer. A gente tem que ouvir muito o que as mulheres trans têm a dizer, o que os homens trans têm a dizer, o que a comunidade LGBTQIAP+, têm a dizer. A gente tem que ouvir muito o que as pessoas pretas têm a dizer, sejam elas homens, mulheres, porque foram pessoas que foram caladas durante muito tempo.
Quando você me pergunta o que eu gostaria de falar que ainda não foi dito, passa por dar voz, na verdade, a todas essas pessoas através do meu trabalho. Seja por meio das entrevistas, das mediações, aulas ou palestras. Eu acho que um pouco minha função como jornalista hoje é abrir espaço para que essas pessoas possam não só contar suas histórias, mas também espalhar, difundir.
Agradecimentos: Livraria Sentimento do Mundo
Registros: Camilla Loreta
Adri veste: Blusa Lilia Modal, Saia Lilia Modal, Blusa Ana Linho Bege, Bermuda Ana Linho Bege, Pulseira Orgânica Marchetaria Ikat, Pulseira Bromélia Marchetaria Cobochum, Alpagarta Algodão Orgânico Marrom, Vestido Lilia Modal Areia, Sandália Paloma