Diálogos do Vestir #21 - Flavia Aranha

Diálogos do Vestir #21 - Flavia Aranha

Flavia Aranha (41 anos) é estilista, criadora da nossa marca homônima e mãe do José. Mora em Paraty, onde nos encontramos em sua nova casa para falar sobre o vestir, maternidade e todos os desafios, possibilidades e reencontros de uma empresa-teia que se constrói majoritariamente por mulheres. 

Flavia, qual a sua relação com o vestir? E como você vê essa relação entre as mulheres da sua família? Sua mãe, sua avó… Como isso chegou até você?

A minha relação com o vestir, obviamente, é muito profunda. Fazer roupa é o meu ofício, mas eu tenho uma relação afetiva com o têxtil desde muito cedo. Começando muito pelas toalhas de mesa que conectam esses encontros das mulheres da minha família. Eu lembro desde pequena de achar lindas as toalhas da minha avó, quando a gente ia para a fazenda, todo mundo ia almoçar e tinha essas toalhas bordadas. 

Minha avó é descendente de portugueses e ela tinha toalhas que ela ganhou, que eram da Ilha da Madeira, todas bordadas à mão. 

Depois, crescendo um pouco, tive a oportunidade de viajar pro Nordeste, sempre uma relação de admiração pelo artesanato, Então, eu lembro até hoje das toalhas de renda labirinto que minha mãe me deu agora, que durou a vida inteira. E sempre essas toalhas eram datas especiais, nos almoços de família, sempre ligadas a encontros e festas. Isso me marcou muito.

E acho que direcionou também meu interesse pelo artesanato, pelo trabalho com mulheres, com cooperativas. Porque eu sempre associava esse vínculo a essa coisa boa de estar junto. Especialmente à minha mãe, ela me inspirou demais. Minha mãe sempre usou linho e a gente usa muito linho, sempre usava roupas monocromáticas e neutras, ela era clássica. Eu achava minha mãe muito chique, lembro de criancinha querer usar as roupas dela. Acho que ela me inspirou bastante.

Quando chegou a minha vez de me colocar no mundo, eu entendi que precisava da roupa para me expressar. Para me proteger e me expressar. Então, acho que a roupa tem esse lugar de acolhimento, de proteção, mas também de identidade, pra gente se comunicar.

Desde muito cedo eu quis me vestir de uma forma confortável. Queria que meu corpo pudesse estar solto, respirando e acho que eu fui muito coerente ao longo da vida, com essa tentativa de me sentir livre dentro do meu corpo. Acho que quando eu era mais nova, eu usava muito a roupa para me diferenciar, estava na escola e queria ser a única a usar aquela roupa. Quando eu cheguei na faculdade de moda, todo mundo era diferente e aí, parece que eu quis ser a básica para também ser diferente. Fui testando minha identidade, experimentando. 

Quando eu comecei a trabalhar com a roupa e usar essa roupa, fui querendo ser cada vez mais neutra. Como se minha roupa, meu corpo, fosse uma tela em branco. Que eu estivesse pronta para ir trabalhar, testar uma planta, manchar, sujar.

E eu acho que a Flavia Aranha, o trabalho de impressão botânica, por exemplo, de algo que é mais orgânico, mais fluido mesmo, não tão definido, tem muito a ver com esse olhar, esse apreço ao processo. Acho que a gente está o tempo todo, na roupa, marcando o processo. O processo dessa planta, imprimir nesse tecido… O processo de uma fiandeira que está fazendo um fio com o seu próprio dedo, então, é um fio que vai ser hora fino, hora grosso e isso está marcado nessa roupa que é irregular. 

Acho que a partir do exercício da marca, eu comecei a ter esse interesse em algo que é neutro, mas que está comunicando a história inteira dessas pessoas, dessas mulheres, a comunhão de tanta gente.

Se for pensar, desde quem planta, desde o algodão… Passei a usar a roupa menos para me diferenciar e mais para contar histórias que se conectam com a forma como eu penso o mundo. 

E quando chegou o José?

Bom, maternidade, né? Quando o José nasceu, eu que já usava roupas muito confortáveis, fluidas, comecei a usar só roupas que têm botões.

Eu amamento ainda, então, roupas fáceis de tirar, que eu possa pôr e tirar muito rápido. Comecei inclusive a entender mais demandas da loja, das pessoas quererem usar mais  esse tipo de roupas.

E aí, acho que junto com a maternidade e por conta dela, essa decisão radical de vir morar no meio do mato depois de tantos anos em São Paulo, que tem a ver com essa possibilidade de ficar ainda mais confortável, ainda mais solta.

Eu talvez nem identifique muito o que é pijama, o que é a roupa da festa. Eu tenho essa roupa que posso ir a um casamento, mas também posso ficar aqui só tomando um chazinho, só ficando na rede. Daí daqui a pouco eu tiro e vou pro rio. Então, agora meu guarda-roupa tem a mesma roupa para todas as ocasiões, não consigo mais diferenciar. Estou numa fase desapegada do look icônico, acho que é uma roupa mais pra dentro, acho que a maternidade é isso, né? Um convite mais pra você mergulhar nas profundezas do seu interior, é um renascimento também. Acho que quando um filho nasce, a mulher, de alguma forma, renasce. Você precisa se re-entender e acho que minha roupa traduz esse meu momento pessoal, mais íntimo.

O mercado de trabalho ainda é extremamente incompreensível com mulheres mães. Queria que você falasse um pouco sobre maternidade e trabalho. Sendo empresária de uma marca que tem mão de obra feminina e materna tão presente, o quanto ser mãe também mudou sua forma de olhar para o negócio?

Eu acho mesmo que a Flavia Aranha é uma marca muito materna. Uma empresa que mais de 90% das pessoas são mulheres, muitas delas são mães, filhas, avós. Se a gente for expandir a rede, então, pensando na nossa teia toda, são muitas mulheres, muitas gerações conectadas. Fico pensando na importância dessa força, da maternidade para transformar as relações, transformar as empresas.

Acho que o capitalismo, diariamente, impõe desafios brutais ao tentarmos ser coerentes com os nossos valores, com os nossos ideais dentro desse sistema, sendo parte dele.

Depois que o José nasceu, comecei a olhar mais para o lugar da maternidade, da força e desafio dessas mulheres. Licença-maternidade, hoje, no Brasil, são 4 meses. Na Flavia Aranha, a gente dá 6, mais um mês de férias, 7. É muito pouco, né? É muito pouco, 7 meses entre você e o seu filho. Obviamente cada mãe deveria tem a liberdade de querer ou não. Não quero entrar na decisão individual, mas pensando numa perspectiva política, essa conta não fecha muito. Que sociedade estamos criando, que a gente vive em grandes cidades, grandes distâncias e sem estruturas para poder viver mais perto dos nossos filhos. Ainda mais nessa primeira infância, que é tão fundamental para criar um ser humano, um afeto pro mundo.

É algo que mexe bastante comigo. Como é que a gente concilia trabalho e maternidade dentro dessa sociedade, nesse Brasil e da nossa realidade?

Pensando num lugar da maternidade como entidade, como força, eu vejo que o resgate que tentamos fazer conectando ancestralidade e inovação, é muito materno.

Você gera uma vida, você cuida de uma vida. Alguém te gerou também. Esse conhecimento vai passando no DNA de cada corpo, que vai se transformando a partir das relações culturais que a gente vai vivendo, das conexões que a gente faz crescer.... Acho que isso é muito forte na nossa empresa também.

É a possibilidade de tomar um cafézinho com alguma artesã, com alguma oficineira, contando de um ponto que a mãe fazia, que aprendeu com a avó. São essas relações de afeto, mas também de um conhecimento muito poderoso que vão resistindo. Resistindo e se transformando porque cada nova geração traz novas referências, novas ideias, novos sentimentos e dando contorno a esses conhecimentos. Nova vida. Eu acho isso muito bonito no nosso trabalho, a possibilidade de materializar essas relações e o renascimento desses conhecimentos. 

Registros: Camilla Loreta

Flavia Aranha veste Kimono Agatha, Calça Bethânia, Chemise Beatriz Off White, Pashimina Impressão Botânica Crajiru, Camisa Elza, Saia Elza, Colar Marcia Sementes de Açaí, Pulseira Marcia Sementes de Açaí, Calça Rubia Bordô

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