
Daniela Arrais e Laura Della Negra são nossas convidadas da #22 edição da série Diálogos do Vestir.
Daniela Arrais é escritora e sócia fundadora da @contente.vc e Laura Della Negra é fisioterapeuta e criadora do perfil @assoalhopelvico. Juntas há quase dez anos, nos encontramos na casa em moram com o filho para falar sobre o afeto entre mulheres, dupla maternidade e tudo o que o amor tem revelado a elas sobre a coragem.
DANI, LAURA, COMO É A RELAÇÃO DE VOCÊS COM O VESTIR?
LAURA: Eu sou bem da estética, eu gosto do belo, então é uma coisa que me preocupa. Eu gosto de brincar, gosto de levar tempo e pensar em acessórios, tecidos…
DANIELA: Ela sempre tem um lookinho novo. É bom porque eu me beneficio, pego várias coisas do armário dela. Porque a minha relação, apesar de gostar muito do vestir, me sinto meio com o guarda-roupa da Turma da Mônica, sabe? Eu repito muito as mesmas coisas e sinto falta de brincar mais, de colocar mais intenção no vestir.
Porque, sem dúvida, a gente se apresenta ao mundo, de primeira, pela forma como a gente chega. E a roupa é super importante. Tenho vontade de estreitar essa relação e eu acho que ela (Laura) se veste melhor e está mais consciente. Bota mais energia nessa história.

COMO FOI O ENCONTRO DE VOCÊS — NÃO SÓ COMO CASAL, MAS COMO DUAS MULHERES QUE SE PERCEBERAM NO MUNDO UMA PELA OUTRA?
DANIELA: Eu acho que duas mulheres, quando se relacionam, já estão tendo muita coragem de se colocar no mundo.
Por mais que o mundo tenha avançado, por mais que as nossas existências estejam em mais lugares, ainda somos duas mulheres nos lugares.
Eu até vi um vídeo recentemente, falando que quando você entra num transporte, você larga a mão, porque você não sabe se aquelas pessoas ali vão te receber bem, se vão te receber com preconceito.
Então, eu acho que o nosso encontro vem de um lugar de amor muito grande e um lugar de bora lá, bora desbravar esse mato, bora entender o que é ser duas mulheres que se amam no mundo.
LAURA:E a gente já está há quase 10 anos juntas, né? A gente passou por muitas fases. Quando a gente se conheceu, que era só nós, depois da gestação e agora com o nosso filho. Se redescobrindo, reconectando e reencontrando.
DANIELA: São muitos reencontros dentro de um encontro de tanto tempo.
COMO É, PARA VOCÊS, VIVER E CONTAR UMA HISTÓRIA DE MATERNIDADE NO PLURAL, QUE DURANTE TANTO TEMPO, NÃO TEVE ESPAÇO PARA SER DITA?

Se hoje a gente consegue estar em qualquer lugar existindo como família é porque muita gente lutou por isso. Nossos direitos são muito recentes. Pensa só: em 2011, ganhamos direitos via união estável, alguns casais começaram a converter isso judicialmente em casamento. Em 2013, uma norma do Conselho Nacional de Justiça passou a obrigar todos os cartórios do país a celebrar casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. É tudo muito novo.
Então, eu gosto sempre de pensar em quem veio antes e me possibilitou passar por muito menos perrengue. Temos muitos ainda? Sem dúvida. Mas conseguimos existir, ser reconhecidas. Isso em algum lugar me emociona, além de me mobilizar pra luta também. Quero que, cada vez mais, famílias como a minha estejam em todo lugar. Nas fotos da Flavia Aranha, na novela "Vale tudo", no comercial da TV, nas escolas, nas pracinhas, em qualquer lugar.
DANI, A PALAVRA SEMPRE ATRAVESSOU SUA TRAJETÓRIA, COMO JORNALISTA, NA CRIAÇÃO DA CONTENTE E, MAIS RECENTEMENTE, COM SEU LIVRO. COMO VOCÊ PERCEBE A ESCRITA COMO FERRAMENTA DE CONEXÃO E CUIDADO ENTRE MULHERES?
DANIELA: A escrita é um lugar precioso pra gente, que vive equilibrando tantas tarefas ao mesmo tempo. A gente é muito boa em dar conta de tudo, mas, muitas vezes, se negligencia, se deixa pra depois. Defendo que a gente encontre um mínimo espaço que seja na rotina para a escrita porque isso nos faz olhar pra dentro, faz a gente ver nossa própria vida em perspectiva, faz a gente lidar com a ansiedade, faz a gente prestar atenção ao que está gritando dentro de nós. Cada vez mais eu vejo como esse convite para parar e escrever é urgente. E a gente ainda é boa de fazer isso em conjunto, né? Compartilhando o que escrevemos, dividindo dores e alegrias. Mulheres quando se juntam são ainda mais poderosas.

LAURA, O CORPO FEMININO NEM SEMPRE FOI LUGAR DE PERTENCIMENTO PARA NÓS MESMAS. MUITAS VEZES, FOMOS ENSINADAS A NOS CONHECERMOS A PARTIR DO OLHAR DO OUTRO. COMO TEM SIDO TORNAR ESSE CONHECIMENTO MAIS ACESSÍVEL ÀS MULHERES? O QUE APRENDEU AO OBSERVAR O CORPO EM MOVIMENTO, INCLUSIVE O SEU?
LAURA: Por muito tempo, o corpo feminino foi mais controlado do que habitado. Fomos ensinadas a nos reconhecer pelos olhos do outro: da medicina, da estética, da moral, e não pela nossa própria experiência.
Tornar esse conhecimento mais acessível é, para mim, um ato de devolução: devolver o corpo às mulheres. Observar o meu corpo em movimento, e o de tantas outras, me ensinou que o corpo fala, pede, lembra, sente. E, quando escutamos, nos apropriamos. É nesse espaço de escuta que nasce o pertencimento. Um corpo sentido é um corpo livre. E toda mulher merece isso.
O QUE A MATERNIDADE MUDOU NA RELAÇÃO DE VOCÊS COMO CASAL E DE CADA UMA CONSIGO MESMA? O QUE PERMANECEU IGUAL?

LAURA: A maternidade mudou bastante, né? Ter uma criança no meio é lindo demais, mas a gente já desconectou e reconectou muitas vezes. Eu acho que a gente tem muita vontade de estar junto, de ficar, de reconstruir. Então é uma delícia, mas um desafio.
DANIELA: É, porque eu acho que na nossa experiência, duas mulheres, mães, são duas mulheres cuidando muito.
Tem esse lugar que é maravilhoso, que não sobrecarrega nenhum das duas, mas tem o outro lado que a gente também precisa encontrar os nossos tempos para existir só a gente, juntas. Só nós duas. Tanto o tempo para existir cada uma individualmente, quanto o nosso tempo para existir juntas. Eu acho que a gente se torna mães melhores para ele quando a gente está abastecida da gente também. E aí vamos fazendo malabarismo com o tempo para conseguir fazer isso acontecer.
O QUE O AMOR ENSINOU A VOCÊS SOBRE A CORAGEM?
LAURA: Eu acho que a primeira é coragem de se mostrar no mundo, de sair do padrão esperado. De ainda ser a primeira amiga lésbica de um grupo de amigos que tem filho. De trabalhar onde eu trabalho e me assumir sem ter medo de perder espaço.
E estar nesse mundo e demonstrar afeto, né? O problema de não demonstrar afeto em público é que às vezes você se desacostuma a demonstrar em particular. O medo de fazer isso na frente de outras pessoas, às vezes faz com que a gente não faça quando a gente está em casa, a gente até esquece. Eu acho que tem que ter muita coragem mesmo.

DANIELA: Tem também uma coragem de continuar. Eu acho que o amor me ensina muito que nesse tempo que a gente vive, você tem um monte de aplicativos, parece que tem mil possibilidades. As amigas solteiras contam que nessa toada de rede social, parece que você tem sempre um cardápio à sua disposição, você pode ver muita coisa. Mas eu acho que a coragem é exatamente persistir. É você querer criar novas histórias dentro da história que você escolheu contar pra você.
Nosso encontro já vai fazer 10 anos, é muito tempo. São muitas temporadas da vida e precisa ter coragem de seguir apostando, de seguir dizendo sim, seguir dizendo que a gente quer estar junto porque isso é muito mais legal do que o mundo lá fora.
Registros: Camilla Loreta
Daniela Arrais veste: Blusa e Calça Gaia, Blusa Emma Bege Crajiru, Calça Rubia Impressão Botânica Arroz Negro e Vestido Ana Bordô Crajiru
Laura Della Negra veste: Blusa e Calça Gaia, Blusa Olívia Off White, Calça Olívia Off White, Camisa Emma Chumbo Romã, Regata Ana Chumbo Romã e Calça Rubia Chumbo Romã
DIÁLOGOS DO VESTIR #22 DANI ARRAIS E LAURA DELLA NEGRA
Daniela Arrais e Laura Della Negra são nossas convidadas da #22 edição da série Diálogos do Vestir.
Daniela Arrais é escritora e sócia fundadora da @contente.vc e Laura Della Negra é fisioterapeuta e criadora do perfil @assoalhopelvico. Juntas há quase dez anos, nos encontramos na casa em moram com o filho para falar sobre o afeto entre mulheres, dupla maternidade e tudo o que o amor tem revelado a elas sobre a coragem.
DANI, LAURA, COMO É A RELAÇÃO DE VOCÊS COM O VESTIR?
LAURA: Eu sou bem da estética, eu gosto do belo, então é uma coisa que me preocupa. Eu gosto de brincar, gosto de levar tempo e pensar em acessórios, tecidos…
DANIELA: Ela sempre tem um lookinho novo. É bom porque eu me beneficio, pego várias coisas do armário dela. Porque a minha relação, apesar de gostar muito do vestir, me sinto meio com o guarda-roupa da Turma da Mônica, sabe? Eu repito muito as mesmas coisas e sinto falta de brincar mais, de colocar mais intenção no vestir.
Porque, sem dúvida, a gente se apresenta ao mundo, de primeira, pela forma como a gente chega. E a roupa é super importante. Tenho vontade de estreitar essa relação e eu acho que ela (Laura) se veste melhor e está mais consciente. Bota mais energia nessa história.
COMO FOI O ENCONTRO DE VOCÊS — NÃO SÓ COMO CASAL, MAS COMO DUAS MULHERES QUE SE PERCEBERAM NO MUNDO UMA PELA OUTRA?
DANIELA: Eu acho que duas mulheres, quando se relacionam, já estão tendo muita coragem de se colocar no mundo.
Por mais que o mundo tenha avançado, por mais que as nossas existências estejam em mais lugares, ainda somos duas mulheres nos lugares.
Eu até vi um vídeo recentemente, falando que quando você entra num transporte, você larga a mão, porque você não sabe se aquelas pessoas ali vão te receber bem, se vão te receber com preconceito.
Então, eu acho que o nosso encontro vem de um lugar de amor muito grande e um lugar de bora lá, bora desbravar esse mato, bora entender o que é ser duas mulheres que se amam no mundo.
LAURA:E a gente já está há quase 10 anos juntas, né? A gente passou por muitas fases. Quando a gente se conheceu, que era só nós, depois da gestação e agora com o nosso filho. Se redescobrindo, reconectando e reencontrando.
DANIELA: São muitos reencontros dentro de um encontro de tanto tempo.
COMO É, PARA VOCÊS, VIVER E CONTAR UMA HISTÓRIA DE MATERNIDADE NO PLURAL, QUE DURANTE TANTO TEMPO, NÃO TEVE ESPAÇO PARA SER DITA?
Se hoje a gente consegue estar em qualquer lugar existindo como família é porque muita gente lutou por isso. Nossos direitos são muito recentes. Pensa só: em 2011, ganhamos direitos via união estável, alguns casais começaram a converter isso judicialmente em casamento. Em 2013, uma norma do Conselho Nacional de Justiça passou a obrigar todos os cartórios do país a celebrar casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. É tudo muito novo.
Então, eu gosto sempre de pensar em quem veio antes e me possibilitou passar por muito menos perrengue. Temos muitos ainda? Sem dúvida. Mas conseguimos existir, ser reconhecidas. Isso em algum lugar me emociona, além de me mobilizar pra luta também. Quero que, cada vez mais, famílias como a minha estejam em todo lugar. Nas fotos da Flavia Aranha, na novela "Vale tudo", no comercial da TV, nas escolas, nas pracinhas, em qualquer lugar.
DANI, A PALAVRA SEMPRE ATRAVESSOU SUA TRAJETÓRIA, COMO JORNALISTA, NA CRIAÇÃO DA CONTENTE E, MAIS RECENTEMENTE, COM SEU LIVRO. COMO VOCÊ PERCEBE A ESCRITA COMO FERRAMENTA DE CONEXÃO E CUIDADO ENTRE MULHERES?
DANIELA: A escrita é um lugar precioso pra gente, que vive equilibrando tantas tarefas ao mesmo tempo. A gente é muito boa em dar conta de tudo, mas, muitas vezes, se negligencia, se deixa pra depois. Defendo que a gente encontre um mínimo espaço que seja na rotina para a escrita porque isso nos faz olhar pra dentro, faz a gente ver nossa própria vida em perspectiva, faz a gente lidar com a ansiedade, faz a gente prestar atenção ao que está gritando dentro de nós. Cada vez mais eu vejo como esse convite para parar e escrever é urgente. E a gente ainda é boa de fazer isso em conjunto, né? Compartilhando o que escrevemos, dividindo dores e alegrias. Mulheres quando se juntam são ainda mais poderosas.
LAURA, O CORPO FEMININO NEM SEMPRE FOI LUGAR DE PERTENCIMENTO PARA NÓS MESMAS. MUITAS VEZES, FOMOS ENSINADAS A NOS CONHECERMOS A PARTIR DO OLHAR DO OUTRO. COMO TEM SIDO TORNAR ESSE CONHECIMENTO MAIS ACESSÍVEL ÀS MULHERES? O QUE APRENDEU AO OBSERVAR O CORPO EM MOVIMENTO, INCLUSIVE O SEU?
LAURA: Por muito tempo, o corpo feminino foi mais controlado do que habitado. Fomos ensinadas a nos reconhecer pelos olhos do outro: da medicina, da estética, da moral, e não pela nossa própria experiência.
Tornar esse conhecimento mais acessível é, para mim, um ato de devolução: devolver o corpo às mulheres. Observar o meu corpo em movimento, e o de tantas outras, me ensinou que o corpo fala, pede, lembra, sente. E, quando escutamos, nos apropriamos. É nesse espaço de escuta que nasce o pertencimento. Um corpo sentido é um corpo livre. E toda mulher merece isso.
O QUE A MATERNIDADE MUDOU NA RELAÇÃO DE VOCÊS COMO CASAL E DE CADA UMA CONSIGO MESMA? O QUE PERMANECEU IGUAL?
LAURA: A maternidade mudou bastante, né? Ter uma criança no meio é lindo demais, mas a gente já desconectou e reconectou muitas vezes. Eu acho que a gente tem muita vontade de estar junto, de ficar, de reconstruir. Então é uma delícia, mas um desafio.
DANIELA: É, porque eu acho que na nossa experiência, duas mulheres, mães, são duas mulheres cuidando muito.
Tem esse lugar que é maravilhoso, que não sobrecarrega nenhum das duas, mas tem o outro lado que a gente também precisa encontrar os nossos tempos para existir só a gente, juntas. Só nós duas. Tanto o tempo para existir cada uma individualmente, quanto o nosso tempo para existir juntas. Eu acho que a gente se torna mães melhores para ele quando a gente está abastecida da gente também. E aí vamos fazendo malabarismo com o tempo para conseguir fazer isso acontecer.
O QUE O AMOR ENSINOU A VOCÊS SOBRE A CORAGEM?
LAURA: Eu acho que a primeira é coragem de se mostrar no mundo, de sair do padrão esperado. De ainda ser a primeira amiga lésbica de um grupo de amigos que tem filho. De trabalhar onde eu trabalho e me assumir sem ter medo de perder espaço.
E estar nesse mundo e demonstrar afeto, né? O problema de não demonstrar afeto em público é que às vezes você se desacostuma a demonstrar em particular. O medo de fazer isso na frente de outras pessoas, às vezes faz com que a gente não faça quando a gente está em casa, a gente até esquece. Eu acho que tem que ter muita coragem mesmo.
DANIELA: Tem também uma coragem de continuar. Eu acho que o amor me ensina muito que nesse tempo que a gente vive, você tem um monte de aplicativos, parece que tem mil possibilidades. As amigas solteiras contam que nessa toada de rede social, parece que você tem sempre um cardápio à sua disposição, você pode ver muita coisa. Mas eu acho que a coragem é exatamente persistir. É você querer criar novas histórias dentro da história que você escolheu contar pra você.
Nosso encontro já vai fazer 10 anos, é muito tempo. São muitas temporadas da vida e precisa ter coragem de seguir apostando, de seguir dizendo sim, seguir dizendo que a gente quer estar junto porque isso é muito mais legal do que o mundo lá fora.
Registros: Camilla Loreta
Daniela Arrais veste: Blusa e Calça Gaia, Blusa Emma Bege Crajiru, Calça Rubia Impressão Botânica Arroz Negro e Vestido Ana Bordô Crajiru
Laura Della Negra veste: Blusa e Calça Gaia, Blusa Olívia Off White, Calça Olívia Off White, Camisa Emma Chumbo Romã, Regata Ana Chumbo Romã e Calça Rubia Chumbo Romã