DIÁLOGOS DO VESTIR #23 - MAR BECKER

DIÁLOGOS DO VESTIR #23 - MAR BECKER

Mar Becker é a nossa convidada da 23# edição da série Diálogos do Vestir.

Mar Becker (38 anos) nasceu em Passo Fundo (RS) e atualmente vive em São Paulo. Poeta e escritora, Mar foi destaque na FLIP 2025 com seu mais recente livro, “Noite devorada”, publicado pela editora Círculo de Poemas neste ano e parte da nossa coleção lançada em parceria com as editoras Sete Selos + Supersônica. Nos encontramos em sua casa para falar sobre o vestir, a escrita e a pele do texto.

PARA COMEÇAR, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
O que eu busco na roupa que eu visto sempre foi o conforto. E a minha sensação é de tentar o tecido como uma espécie de outro corpo, que me permita talvez até mais liberdade do que a princípio eu teria no meu próprio corpo. Então, quando eu busco a roupa e o tecido, eu busco essa sensação de leveza, de encontro com uma possível outra pele que alargue o meu desejo, que alargue o amor em mim, que alargue a poesia em mim também.

Eu tenho uma coisa muito natural com o vestir. Quanto mais a roupa transmite a nudez, no sentido amplo de nudez, mais eu me identifico. É quase como se vestir estando, em certo sentido, desnuda. Desnuda como as palavras também me desnudam.


MAR, POR QUE A POESIA?
Eu sinto que a poesia trabalha num registro de linguagem que permite, ao dizer, encostar nas fronteiras do não-dizível. A poesia negocia com o silêncio, joga com o silêncio. E as palavras, nesse lugar, me permitem e permitem ao meu texto, uma busca talvez mais afinada com aquilo que atravessa um corpo e não se consegue expressar por palavras.

A palavra, na poesia, está na fronteira de si, está nos limites de si, praticamente transbordando a si. É diferente da forma como a gente usa a linguagem, por exemplo, para se comunicar especificamente, mensagens de e-mail e WhatsApp, enfim.

Quando se fala em poesia, se fala nesse registro fino da linguagem. Se a palavra fosse tecido, ela seria aquele tipo de tecido muito tênue, muito delicado. A palavra como voal, a palavra como organza. Ao mesmo tempo, escondendo ou enevoando um corpo e dando esse corpo a ser visto também.

SEU LIVRO FOI UM DOS ESCOLHIDOS PARA A COLLAB DE PEÇAS QUE CRIAMOS COM A 7 SELOS. COMO FOI VER SUAS PALAVRAS TRANSFORMADAS EM TECIDO, CAMINHANDO PELO CORPO DE OUTRAS PESSOAS POR AÍ?
Para mim isso é muito significativo, tanto pela minha história particular de mãe costureira, então eu sou muito acostumada com todo o habitat da costura, eu sei que tipo de agulha que se coloca, eu sei que se trabalha com três carretéis numa máquina mais industrial, eu sei que se usa pra fazer uma barra de um tecido… Então todo esse universo me é muito íntimo. Quando eu vejo isso traduzido na roupa que as pessoas vestem, que está junto do corpo dessas pessoas, acho que não há matéria de maior intimidade com o corpo do que o pano que aquela pessoa usa. Talvez só um outro corpo ganhe a intimidade tal na relação entre dois corpos, na relação amorosa, por exemplo, ou na relação da maternagem e outros tipos de encontro de corpos. 

Então o tecido pra mim, ele ocupa justamente esse lugar de intimidade com o corpo, e imagina isso, o quanto que não ressoa e não toca em mil lugares da minha própria história e daquilo que é significativo no meu texto.

Esse lugar de intimidade, dos tecidos, dos panos, está descrito no meu texto desde o primeiro livro, “A mulher submersa”. Em “A mulher submersa” tem uma figura que sai do banho com uma toalha na cabeça e eu imagino essa mulher como uma espécie de rinoceronte, algo que chega a esse lugar. Em “Sal”, que é um outro texto em prosa poética, eu comento sobre o sutiã sem bojo, que estão pendurados nos cabideiros e lembram garças  ou qualquer outro tipo de pássaro muito longo.


No Canção Derruída, da mesma forma, tem a imagem da agulha, e aí eu imagino não uma agulha de inox, uma agulha de vidro, que demanda da mão uma tamanha delicadeza no segurar, porque precisa ser suficientemente firme para furar, mas suficientemente delicada para que não se quebre. Essa agulha de vidro, praticamente de cristal, praticamente de gelo. Então, acho que o tecido, a agulha, a costura educou o meu corpo e educou a minha poesia também, continua educando.

E quando isso aparece sob a forma de pessoas vestindo, por exemplo, essa camiseta que eu trago, que eu estou usando, quando isso ganha essa materialização, acho que me espanta positivamente. De repente a poesia sai daquele lugar do papel, que pra mim também é uma espécie de pele, e ganha morada, ganha endereço em outra possível pele, que é o tecido e que é o que há de mais próximo com a pele de um corpo. 

EM NOITE DEVORADA, A TEMÁTICA DO AMOR É CENTRAL: AMOR COMO PRESENÇA, PERDA, BUSCA, SOBREVIVÊNCIA. MAS TAMBÉM PARECE HAVER ALI UM GESTO DE AMAR A PRÓPRIA PALAVRA, DE CONFIAR QUE ELA PODE SUSTENTAR O INDIZÍVEL. QUE LUGAR O AMOR OCUPA NA SUA ESCRITA? E QUE TIPO DE RELAÇÃO SE CONSTRÓI ENTRE VOCÊ E A LINGUAGEM?
No processo de Noite Devorada há um amor-amor e há um amor pela língua também, né? Quando eu compus Noite Devorada eu via como dois rios correndo ao longo dele. Um era o do corpo amoroso e o outro era o do corpo da escrita, do corpo do texto.

E acho que ao mesmo tempo são dois corpos e são um só, porque há zonas de conexão entre um e outro, assim eu vejo. Há outras maneiras de se interpretar, de se ler um livro, não acho que o autor tenha a última palavra a respeito do próprio livro. Embora ele tenha escrito, os olhares e a recepção são plurais e diversos e que bom que seja assim.


Mas, na forma como eu entendo, eu sinto que tal como há uma emergência de corpo amoroso e há uma busca de composição do próprio corpo, capaz de sustentar o desejo, capaz de sustentar a orfandade de não poder ter tudo aquilo que se deseja, capaz de sustentar a finitude, porque não se é eterno, embora se ame tal como se pudesse ser eterno.

E esse tipo de fratura que aparece no corpo amoroso, aparece também na dimensão do trato com o texto. Quando se trabalha com o texto nesse registro da poesia, se trabalha com a finitude da língua, com aquilo que a língua não pode dizer. 

Então há um corpo amoroso que se engalfinha no seu próprio fim e precisa lidar com essa marca de dor. E há também um texto que se vê nas fronteiras daquilo que não pode ser dito e que precisa lidar com a marca da dor de não poder dizer. 

Acho que essa analogia entre um e o outro e a forma como um atravessa o outro é que produzem o efeito poético que está presente ali no “Noite Devorada”. 

Assim eu gosto de imaginar. Não sei se consigo, não sei se o livro dá conta de tudo isso, mas a minha expectativa é que sim. Eu falava ontem em uma conversa que participei, sobre a dimensão de dupla via entre o texto que se escreve e o fato de que uma vez escrito, o próprio texto volta para aquela que o escreveu e escreve aquela que o escreveu. 

Acho que o processo de composição de um livro é duplo nesse sentido. Se escreve um livro e o livro escreve a autora também, o livro escreve o leitor também. Então não sinto que há uma separação entre o corpo com o qual se ama e o corpo com o qual se escreve. A escrita também escreve o corpo amoroso, o corpo amoroso também escreve o corpo da escrita e assim por diante.

E é bonito que seja erótico e doloroso ao mesmo tempo, porque há uma refração do que não pode ser dito e da experiência, da finitude que eu falava há pouquinho, nas duas medidas. O poeta quer poder falar tudo. O desejo do poeta, o desejo de quem escreve é que as palavras deem conta de dizer tudo. E elas não dão. Acho que elas nunca dão. 


Então qual é o desafio de se escrever um livro? É o de compor um objeto que seja suficientemente poroso para que através dele, através do que ele não diz, alguma coisa se ilumine.

A Alejandra Pizarnik fala sobre jogar luz na própria sombra. Eu não sei se é exatamente isso que ela fala, mas é como eu tenho memória agora, sobre jogar luz naquilo que está escurecido. É como se houvesse esse ponto cego dentro do livro, que é a volta de onde o livro se constitui e a volta do que não se pode dizer e de repente as palavras devem jogar luz sobre esse ponto cego, devem jogar luz sobre aquilo que não pode ser dito. 

E acho que nesse sentido o livro se completa na experiência da leitura, porque mesmo que não possa ser dito a leitura, a sensibilidade na leitura, o olhar, aquilo que chega ao outro, a outra, faz alguma coisa eriçar, faz alguma coisa arrepiar.

PARA TERMINAR, QUERIA SABER: QUE PALAVRAS VOCÊ SENTE QUE AINDA QUER ESCREVER? HÁ ALGO QUE AINDA NÃO VIROU POEMA, MAS QUE TALVEZ ESTEJA SE APROXIMANDO?
Eu venho tentando escrever alguma coisa em prosa. Sinto que o desenvolvimento desde lá do “Serra sem fim”, o “Vila Annes”, agora eu tenho um texto que não saiu no “Noite Devorada”, mas foi escrito durante a composição desse livro, que se chama Segunda Pele. 

É sobre a experiência do frio no Rio Grande do Sul, do inverno, da esfera da neve. Nesse texto, especificamente, há a descrição de dois invernos que correm numa mesma casa. Um deles é um inverno formado por tecidos grossos, por cobertores que se tiram dos armários, casacos grossos, aquele tipo de roupa carregada. E o outro são os tecidos translúcidos, que se usam por baixo das roupas. aquelas blusas sem costura, tipo segunda pele, tecidos muito finos e que se vestem bem rentes ao corpo, de forma que aquilo que se vista por cima, tampe completamente os de baixo, mas os de baixo estão lá. 
Então, eu comento lá no texto que há varais específicos na casa para essas roupas translúcidas. Há varais específicos para esse tipo de tecido que quase dá medo de tocar. É muito perigoso. Há quase uma sensação de que, uma vez tocado, eles podem se desfazer nas mãos. E o inverno da neve, do brilho da neve, do brilho do gelo, conversa com essa translucidez que aparece nesses tecidos também.

Esse texto se chama segunda pele, porque a minha mãe chamava de segunda pele. É ambíguo o título porque também dá notícia do quanto, no corpo que escreve, a busca é também por uma pele que o contorne, uma pele de palavras, uma pele do texto.

Registros: Camilla Loreta

Mar Becker veste: Camiseta Eva Catuaba, Calça Eva Catuaba, Canga Círculo de Poemas, Blusa Alcimar Off White, Calça Olívia Natural, Camiseta Círculo de Poemas

Voltar para Novidades