DIÁLOGOS DO VESTIR #24 - JOSYARA

DIÁLOGOS DO VESTIR #24 - JOSYARA

Josyara é a nossa convidada da #24 edição da série Diálogos do Vestir.

Josyara (34 anos) nasceu em Juazeiro (BA) e atualmente vive em São Paulo. É da música. Canta, compõe, produz e toca violão. 2025 marca o lançamento do seu terceiro álbum autoral, “Avia”. Nosso encontro com Josyara acontece no Bona, uma conversa sobre o vestir, o cantar e a terra. 

PARA COMEÇAR, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?

Olha, eu acho que o vestir é o que aterra a gente pro momento que a gente tá mergulhando, se identificando. Então, eu me sinto muito mutável, muito eclética também. Às vezes, eu acordo com vontade de vestir coisas muito largas, grandes. Às vezes, eu quero vestir menininha, botar um vestidinho colado e trazer uma sensualidade de outro lugar. Então, eu acho que depende muito do meu momento. É que nem a música, a inspiração.

LEMOS EM UMA MATÉRIA QUE A MÚSICA ENTROU BEM CEDO NA SUA VIDA. COMO FOI ESSE PROCESSO DE FAZER DA MÚSICA OFÍCIO? COMO VOCÊ PERCEBE SUA VOZ NESSE LUGAR DE CONTAR HISTÓRIAS, SEJA PELAS LETRAS, SEJA PELA PERFORMANCE?

A música, desde criança, me abraçou. Eu me entendi como compositora quando estava transbordando muita emoção, muito sentimento. E acho que a música soube reger, me acalmar, me colocar no brumo. Esse entendimento foi ao longo dos anos, mas acho que quando eu comecei a escrever os meus primeiros versos e ter prazer de cantar, falar isso que eu quero dizer e sentir uma verdade ali, foi quando eu compreendi que eu poderia ser totalmente música, ser da música, ser cantora. Quando eu fiz meu primeiro show profissional, ganhei meu primeiro cachê, foi aí que eu entendi que eu poderia viver de música, comprar meu pão de cada dia. Mas foi muito nos processos, não foi imediato, não era um sonho. Foi um encontro mesmo que foi desencadeando possibilidades, oportunidades e encantamentos também.

VOCÊ NASCEU EM JUAZEIRO, SE MUDOU CEDO PARA SALVADOR E DEPOIS SEGUIU PARA SÃO PAULO. COMO VOCÊ ACHA QUE A RELAÇÃO COM A TERRA, OU AS TERRAS, INFLUENCIOU SUA MÚSICA? O QUE DA TERRA QUE TE FORMOU CONTINUA PRESENTE NO QUE VOCÊ CRIA?

Quando eu tava em Juazeiro, eu não conseguia compreender, seja pela idade, que eu era sertaneja, que eu tinha um sotaque específico, que eu consumia ali a cultura e era criança de um interior da Bahia.
Quando eu fui pra Salvador, eu compreendi que eu não era de Salvador, que meu sotaque era diferente, as pessoas inclusive questionavam se eu era baiana mesmo. A coisa foi se desenvolvendo, então a saudade também foi um ponto em que eu olhava pro sertão, olhava pra essas memórias de um jeito diferente, compreendendo, enxergando por outra ótica mesmo, me inspirando na escrita, na escolha inclusive dessa identidade visual. Então isso também continuou na chegada em São Paulo, que eu me tornei também baiana, sertaneja,  três vezes mais, porque a gente aqui precisa firmar de onde a gente vem e ter muita força pra continuar. Criar as nossas raízes e construir as nossas relações para conseguir viver nessa cidade de encruzilhada. Mas para mim é muito importante falar do meu lugar, muito importante saber onde eu estou pra poder cantar. 

VIMOS QUE O SEU NOVO DISCO É TODO ESCRITO POR MULHERES. O QUE SIGNIFICOU PARA VOCÊ DAR CORPO E VOZ A ESSAS PALAVRAS? COMO FOI ESSE ENCONTRO DE LINGUAGENS FEMININAS?

O disco Avia é um disco que fala de amor, de sentimento, de forma humana, digamos, sem forma exata, é uma emoção. E essas canções foram surgindo a partir de um episódio pessoal meu, em que eu quis me colocar nesse lugar vulnerável de cantar sobre a raiva, sobre ser deixada ou deixar também.
E aí quando eu entendi que um disco estava surgindo, eu comecei a resgatar composições, a chamar amigas pra poder escrever esses versos comigo. Daí o álbum foi acontecendo. E o interessante também foi nesse resgate perceber que músicas de anos atrás, de 2018, 2019, começavam a fazer sentido nesse novo trabalho, né? Então, dizer também que a música não tem tempo, né? É atemporal.
E aí foi uma coincidência ter só compositoras. Não foi um intuito assim fazer um disco só com mulheres. Acho que isso é um reverber do tempo que a gente tá vivendo e que nós, compositoras, estamos pegando nosso trabalho, assinando, tendo mais peito pra poder assumir e muita responsabilidade com as pautas, com as lutas todas.
Então acho que foi uma consequência do tempo, dos momentos. Tantas mulheres que lutaram pra poder ter suas assinaturas, acabou reverberando nesse álbum. E eu fiquei muito feliz com tudo, com essa maravilha.

SOBRE O QUE VOCÊ AINDA NÃO CANTOU E GOSTARIA DE CANTAR?

Acho que eu só vou descobrir quando eu cantar!

 

Registros: Camilla Loreta

Josyara veste: Sutiã Isis, Calça Rubia, Regata Betânia, Calça Tereza, Camisa Erivania, Calça Caetana e Mule Bianca

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