
Barbara Poerner é a nossa convidada da #25 edição da série Diálogos do Vestir.
Barbara é jornalista, gestora de projetos e documentarista na área socioambiental. Colunista da revista Capricho, também atua como assessora de projetos no Instituto Caburé e consultora no Instituto Febre. Nesta edição, ouvimos as notícias que Bárbara traz das suas conversas com a terra e seus habitantes. Um papo sobre esperança em e a possibilidade de reimaginar futuros.
BARBARA, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Acho que a minha relação com o vestir foi se transformando ao longo dos anos.
Quando criança, por ser de uma família de baixa renda, os acessos às roupas e tudo desse universo eram muito mais limitados. E aí na época da faculdade, quando eu era mais jovem do que eu sou hoje, eu conheci a moda sustentável, esse termo que hoje tem muitas definições, mas há 10 anos atrás, acho que era muito mais incipiente.
Foi um período que a minha relação com o vestir foi muito pautada nisso, em realmente buscar saber de onde vieram as minhas roupas, quem fez, como fez, em que condições. Então, eu comprava muito de brechó, fazia encontros de troca na época, fazia uso de armário coletivo e produzia muitas coisas também, tanto transformava peças por meio do upcycling, quanto produzia. E aí, acho que essa relação com vestir tem muita relação com o meu gosto e a minha sinergia com as atividades manuais têxteis, principalmente.
Desde criança, eu sempre gostei muito de tudo que é um pouco da ordem artística, mas principalmente da costura, do artesanato, do bordado. Eu bordava com a minha avó ponto cruz, outros tipos de bordado. Eu sempre tive esse interesse e fui cultivando isso.
Também sempre foi uma relação pautada por esse interesse mesmo, entendendo que as roupas carregam muita história e que existem relações que estão ali imbuídas nas roupas, que a gente não vê, mas estão ali e elas foram necessárias para construir qualquer peça que a gente imagine.
E por fim, eu tento não me martirizar tanto em relação ao consumo das roupas. Por um período, eu era muito “não posso comprar nunca mais, não posso nunca mais pisar numa loja de uma grande varejista”. Para mim, ainda não faz sentido consumir de grandes fast fashions internacionais, mas acho que hoje mesmo, as marcas brasileiras, varejistas, buscam ter mais responsabilidade.
Fui mudando essa relação para não me colocar num lugar em que eu preciso resolver todos os problemas, porque isso não existe. As soluções são coletivas, né? Tirar um pouco esse papel do peso do consumidor e transformar mais em uma ação de cidadania mesmo, pelos vários projetos que eu faço.

VOCÊ VEM TRAÇANDO UMA CARREIRA MUITO POTENTE NA COMUNICAÇÃO VOLTADA A PROJETOS SOCIOAMBIENTAIS, NÉ? COMO VOCÊ DESCOBRIU QUE QUERIA CONTAR ESSAS HISTÓRIAS? SEJA PELO JORNALISMO, SOCIOLOGIA…? POR QUE CONTAR ESSAS HISTÓRIAS?
Eu reflito muito nessa minha trajetória, comecei na área da moda quando eu era bem novinha, tipo 14, 15 anos. Eu fazia o técnico em moda, fiz costura antes, com 13 anos, e eu queria muito ser estilista, ter um ateliê. Quando eu descobri porquê o mundo é tão desigual, mudei muito essa perspectiva. Foi uma questão de repertório.
Acho que, no geral, a relação com a moda e tudo o que a moda me permitia fazer, pensar e refletir, foi se tornando insuficiente, dadas minhas outras angústias perante as desigualdades e a forma de organização social que a gente tem imperativa hoje no mundo.
Como a gente sabe, a indústria da moda e do têxtil têm muitos problemas de ordem socioambiental, trabalhista, econômica, de gênero, de raça, tem muitos problemas como outras grandes indústrias. E eu acho que o setor da moda que se propõe a ser combativo, se propõe a fazer esse enfrentamento, ainda é muito tímido e, muitas vezes, covarde. Eu acho que muitas vezes falta coragem de enfrentar os interesses das grandes empresas, do setor público.
Então, por exemplo, o setor da moda faz pouca incidência política para essa questão socioambiental, pensando na questão de incidir para gerar melhorias da ordem socioambiental. O setor da moda faz bastante lobby, por exemplo, do algodão, acho que é o maior exemplo que a gente pode ter. Mas ainda falta enfrentamento, acho que falta tensão.
A gente vê a tensão, o enfrentamento, como uma coisa ruim. Mas acho que não é questão de vilanizar e ser dicotômico, o mundo não é assim. A gente é feito de contradições, isso é um fato histórico, inclusive. Mas a gente precisa de enfrentamento, porque gerando tensão, a gente consegue também gerar melhorias significativas para as pessoas e para as populações que são as mais impactadas pelas mazelas da indústria da moda.
Acho que a moda foi nesse lugar de querer mais, de me conectar com outras áreas, esses outros campos de conhecimento e de atuação. Então eu tenho essa inquietação e gratidão por essa trajetória da moda, que de alguma forma eu ainda incorporo. Ainda trabalho nesse campo, mas não só, fui incorporando outros campos, principalmente de ordem social e ambiental, trabalhar com comunidades, territórios, olhar muito para questões de gênero e clima, de direitos trabalhistas, são muitas bagagens que vem da moda, muitas relações.

VOCÊ ESTEVE RECENTEMENTE COM OS NOSSOS GRANDES PARCEIROS DA REDE BORBOREMA, NA PARAÍBA, E TROUXE A AGROECOLOGIA PARA AS PÁGINAS DA CAPRICHO, UMA REVISTA QUE HISTORICAMENTE CONVERSA SOBRE MODA, BELEZA E COMPORTAMENTO COM UMA GERAÇÃO MAIS JOVEM. COMO VOCÊ PERCEBE A RELEVÂNCIA DE TRAZER ESSES TEMAS PARA ESSE PÚBLICO?
É muito legal ter um espaço na Capricho, uma revista muito histórica e antiga no grupo, que vem se transformando ao longo dos anos, ter esse espaço para falar sobre mudança climática, gênero, de uma forma muito autónoma.
Acho muito importante conseguir democratizar mais esse assunto, esse discurso. Muitas vezes a gente fica pautado em número, né, a gente fala de mudança climática, de emissão, de hectares de terra, mas na verdade esses números são personificados em pessoas. São as pessoas que estão sofrendo esses impactos e pensando em soluções. Impactos que não se dão de forma igualitária, a gente precisa falar sobre isso.
Então é muito legal ter um espaço numa revista jovem, que tem olhado para essas questões de gênero, que tem pautado conversas sobre o direito das meninas, das mulheres. E trazer esse assunto da agroecologia, especificamente, de falar sobre isso a partir da história da Susana e da família da Susana, a partir da história de várias mulheres.
Pensar em clima e juventude é muito delicado, no sentido de ansiedade climática, de pensar que futuro é esse que a gente, enquanto juventude, tem. Então, acho que mostrar que existem enfrentamentos, que existem soluções, não necessariamente soluções prontas em uma prateleira, mas soluções estão sendo construídas no coletivo, em espaços comunitários, como esse que é a Rede Borborema.
Mostrar isso também é uma forma de plantar essa semente de esperança para que a gente consiga imaginar futuros, né? Acho que, enquanto juventude, a gente fica muitas vezes preso numa ideia de apocalipse e, de fato, a gente tem muitos sinais de que as coisas estão muito ruins, mas é importante imaginar outros futuros pra gente, estimular esse imaginário mesmo. A Susana e a Rede Borborema são histórias muito potentes e que devem ser contadas também nesse exercício de imaginação de futuros e, consequentemente, de disputa de futuros. 
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS TÊM UM IMPACTO DESPROPORCIONAL SOBRE AS MULHERES, MAS TAMBÉM SÃO ELAS QUE LIDERAM MUITOS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO. COMO VOCÊ PERCEBE ESSA DUPLA REALIDADE: MULHERES MAIS AFETADAS PELA CRISE, MAS TAMBÉM PROTAGONISTAS NA BUSCA POR SOLUÇÕES?
Acho muito importante que a gente visibilize essas histórias de protagonismo, de pensar em soluções, de pensar outros modos de vida e não só as histórias de muita dor, sofrimento.
Existe essa tendência de subalternizar as mulheres e outros grupos como as populações negras ou indígenas nesses espaços e invisibilizar os pensamentos que estão sendo construídos nesses territórios. E acho que, pensando no papel da comunicação, de projetos e organizações coletivas e socioambientais, é muito nesse lugar de realmente visibilizar essas histórias e mostrar que as mulheres são múltiplas.
Existe uma série de abordagens que podem ser usadas no enfrentamento da crise climática, então ela vai ter multissoluções também. E acho que as mulheres são desses grupos que realmente estão à frente historicamente, se a gente pensa na luta campesina, por exemplo, e da agroecologia, as mulheres estão protagonizando ali as lutas agroecológicas.
Acho que nosso papel é também de visibilizar essas histórias e não só colocar as mulheres sempre nesse papel de sofrimento. E não pra romantizar ou tentar minimizar os impactos disso, mas para mostrar que existe enfrentamento, as mulheres não são passivas a tudo isso que acontece ou todos esses impactos que elas sofrem da crise climática. Existe tensão, existe enfrentamento e a gente tem que potencializar esses enfrentamentos.

PARA TERMINAR O QUE A TERRA TEM CONVERSADO COM VOCÊ ULTIMAMENTE, BÁRBARA? QUANDO VOCÊ A ESCUTA, QUAIS MENSAGENS MAIS TE MOBILIZAM?
É meio doido falar isso morando em São Paulo, em um prédio, nessa selva de pedra. Eu sou do interior de Santa Catarina, eu cresci meio no meio do mato, a casa da minha avó, da minha mãe, tudo no meio do mato. E aí o que eu tenho refletido muito, e até com essas experiências estando mais em territórios, com comunidades rurais, comunidades ribeirinhas também, é de parar de ver a vida como uma lista de tarefas.
A gente constantemente vai sendo empurrado, engolido e transformando a vida nesse grande checklist. A gente tem que cumprir mil tarefas por dia e aí o dia vira semana, semana vira mês e a gente transforma a vida nessa grande lista, assim. Acho que no sistema capitalista que a gente vive essa forma de se organizar está implicada.
Então pensando nessa relação com a Terra, acho que vai muito nesse lugar de entender que a vida é uma festa. O Ailton Krenak fala muito disso em “A Vida Não É Útil”, que a gente tenta o tempo inteiro ser muito utilitário e acho que uma coisa que a Terra pode nos ensinar é que não necessariamente tudo precisa ter uma grande utilidade o tempo inteiro. Acho que tentar ter uma relação mais saudável com a própria vida, entendendo que ela não precisa ser uma grande checklist.
Registros: Camilla Loreta
Barbara veste: Camisa Dora Chá Preto, Shorts Flavia Chá Preto, Kaftan Tereza, Blusa Liz Impressão Botânica Palha de Milho, Calça Rubia Impressão Botânica Palha de Milho, Colar Amuleto Milho Crioulo
DIÁLOGOS DO VESTIR #25 - BARBARA POERNER
Barbara Poerner é a nossa convidada da #25 edição da série Diálogos do Vestir.
Barbara é jornalista, gestora de projetos e documentarista na área socioambiental. Colunista da revista Capricho, também atua como assessora de projetos no Instituto Caburé e consultora no Instituto Febre. Nesta edição, ouvimos as notícias que Bárbara traz das suas conversas com a terra e seus habitantes. Um papo sobre esperança em e a possibilidade de reimaginar futuros.
BARBARA, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
Acho que a minha relação com o vestir foi se transformando ao longo dos anos.
Quando criança, por ser de uma família de baixa renda, os acessos às roupas e tudo desse universo eram muito mais limitados. E aí na época da faculdade, quando eu era mais jovem do que eu sou hoje, eu conheci a moda sustentável, esse termo que hoje tem muitas definições, mas há 10 anos atrás, acho que era muito mais incipiente.
Foi um período que a minha relação com o vestir foi muito pautada nisso, em realmente buscar saber de onde vieram as minhas roupas, quem fez, como fez, em que condições. Então, eu comprava muito de brechó, fazia encontros de troca na época, fazia uso de armário coletivo e produzia muitas coisas também, tanto transformava peças por meio do upcycling, quanto produzia. E aí, acho que essa relação com vestir tem muita relação com o meu gosto e a minha sinergia com as atividades manuais têxteis, principalmente.
Desde criança, eu sempre gostei muito de tudo que é um pouco da ordem artística, mas principalmente da costura, do artesanato, do bordado. Eu bordava com a minha avó ponto cruz, outros tipos de bordado. Eu sempre tive esse interesse e fui cultivando isso.
Também sempre foi uma relação pautada por esse interesse mesmo, entendendo que as roupas carregam muita história e que existem relações que estão ali imbuídas nas roupas, que a gente não vê, mas estão ali e elas foram necessárias para construir qualquer peça que a gente imagine.
E por fim, eu tento não me martirizar tanto em relação ao consumo das roupas. Por um período, eu era muito “não posso comprar nunca mais, não posso nunca mais pisar numa loja de uma grande varejista”. Para mim, ainda não faz sentido consumir de grandes fast fashions internacionais, mas acho que hoje mesmo, as marcas brasileiras, varejistas, buscam ter mais responsabilidade.
Fui mudando essa relação para não me colocar num lugar em que eu preciso resolver todos os problemas, porque isso não existe. As soluções são coletivas, né? Tirar um pouco esse papel do peso do consumidor e transformar mais em uma ação de cidadania mesmo, pelos vários projetos que eu faço.
VOCÊ VEM TRAÇANDO UMA CARREIRA MUITO POTENTE NA COMUNICAÇÃO VOLTADA A PROJETOS SOCIOAMBIENTAIS, NÉ? COMO VOCÊ DESCOBRIU QUE QUERIA CONTAR ESSAS HISTÓRIAS? SEJA PELO JORNALISMO, SOCIOLOGIA…? POR QUE CONTAR ESSAS HISTÓRIAS?
Eu reflito muito nessa minha trajetória, comecei na área da moda quando eu era bem novinha, tipo 14, 15 anos. Eu fazia o técnico em moda, fiz costura antes, com 13 anos, e eu queria muito ser estilista, ter um ateliê. Quando eu descobri porquê o mundo é tão desigual, mudei muito essa perspectiva. Foi uma questão de repertório.
Acho que, no geral, a relação com a moda e tudo o que a moda me permitia fazer, pensar e refletir, foi se tornando insuficiente, dadas minhas outras angústias perante as desigualdades e a forma de organização social que a gente tem imperativa hoje no mundo.
Como a gente sabe, a indústria da moda e do têxtil têm muitos problemas de ordem socioambiental, trabalhista, econômica, de gênero, de raça, tem muitos problemas como outras grandes indústrias. E eu acho que o setor da moda que se propõe a ser combativo, se propõe a fazer esse enfrentamento, ainda é muito tímido e, muitas vezes, covarde. Eu acho que muitas vezes falta coragem de enfrentar os interesses das grandes empresas, do setor público.
Então, por exemplo, o setor da moda faz pouca incidência política para essa questão socioambiental, pensando na questão de incidir para gerar melhorias da ordem socioambiental. O setor da moda faz bastante lobby, por exemplo, do algodão, acho que é o maior exemplo que a gente pode ter. Mas ainda falta enfrentamento, acho que falta tensão.
A gente vê a tensão, o enfrentamento, como uma coisa ruim. Mas acho que não é questão de vilanizar e ser dicotômico, o mundo não é assim. A gente é feito de contradições, isso é um fato histórico, inclusive. Mas a gente precisa de enfrentamento, porque gerando tensão, a gente consegue também gerar melhorias significativas para as pessoas e para as populações que são as mais impactadas pelas mazelas da indústria da moda.
Acho que a moda foi nesse lugar de querer mais, de me conectar com outras áreas, esses outros campos de conhecimento e de atuação. Então eu tenho essa inquietação e gratidão por essa trajetória da moda, que de alguma forma eu ainda incorporo. Ainda trabalho nesse campo, mas não só, fui incorporando outros campos, principalmente de ordem social e ambiental, trabalhar com comunidades, territórios, olhar muito para questões de gênero e clima, de direitos trabalhistas, são muitas bagagens que vem da moda, muitas relações.
VOCÊ ESTEVE RECENTEMENTE COM OS NOSSOS GRANDES PARCEIROS DA REDE BORBOREMA, NA PARAÍBA, E TROUXE A AGROECOLOGIA PARA AS PÁGINAS DA CAPRICHO, UMA REVISTA QUE HISTORICAMENTE CONVERSA SOBRE MODA, BELEZA E COMPORTAMENTO COM UMA GERAÇÃO MAIS JOVEM. COMO VOCÊ PERCEBE A RELEVÂNCIA DE TRAZER ESSES TEMAS PARA ESSE PÚBLICO?
É muito legal ter um espaço na Capricho, uma revista muito histórica e antiga no grupo, que vem se transformando ao longo dos anos, ter esse espaço para falar sobre mudança climática, gênero, de uma forma muito autónoma.
Acho muito importante conseguir democratizar mais esse assunto, esse discurso. Muitas vezes a gente fica pautado em número, né, a gente fala de mudança climática, de emissão, de hectares de terra, mas na verdade esses números são personificados em pessoas. São as pessoas que estão sofrendo esses impactos e pensando em soluções. Impactos que não se dão de forma igualitária, a gente precisa falar sobre isso.
Então é muito legal ter um espaço numa revista jovem, que tem olhado para essas questões de gênero, que tem pautado conversas sobre o direito das meninas, das mulheres. E trazer esse assunto da agroecologia, especificamente, de falar sobre isso a partir da história da Susana e da família da Susana, a partir da história de várias mulheres.
Pensar em clima e juventude é muito delicado, no sentido de ansiedade climática, de pensar que futuro é esse que a gente, enquanto juventude, tem. Então, acho que mostrar que existem enfrentamentos, que existem soluções, não necessariamente soluções prontas em uma prateleira, mas soluções estão sendo construídas no coletivo, em espaços comunitários, como esse que é a Rede Borborema.
Mostrar isso também é uma forma de plantar essa semente de esperança para que a gente consiga imaginar futuros, né? Acho que, enquanto juventude, a gente fica muitas vezes preso numa ideia de apocalipse e, de fato, a gente tem muitos sinais de que as coisas estão muito ruins, mas é importante imaginar outros futuros pra gente, estimular esse imaginário mesmo. A Susana e a Rede Borborema são histórias muito potentes e que devem ser contadas também nesse exercício de imaginação de futuros e, consequentemente, de disputa de futuros.
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS TÊM UM IMPACTO DESPROPORCIONAL SOBRE AS MULHERES, MAS TAMBÉM SÃO ELAS QUE LIDERAM MUITOS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO. COMO VOCÊ PERCEBE ESSA DUPLA REALIDADE: MULHERES MAIS AFETADAS PELA CRISE, MAS TAMBÉM PROTAGONISTAS NA BUSCA POR SOLUÇÕES?
Acho muito importante que a gente visibilize essas histórias de protagonismo, de pensar em soluções, de pensar outros modos de vida e não só as histórias de muita dor, sofrimento.
Existe essa tendência de subalternizar as mulheres e outros grupos como as populações negras ou indígenas nesses espaços e invisibilizar os pensamentos que estão sendo construídos nesses territórios. E acho que, pensando no papel da comunicação, de projetos e organizações coletivas e socioambientais, é muito nesse lugar de realmente visibilizar essas histórias e mostrar que as mulheres são múltiplas.
Existe uma série de abordagens que podem ser usadas no enfrentamento da crise climática, então ela vai ter multissoluções também. E acho que as mulheres são desses grupos que realmente estão à frente historicamente, se a gente pensa na luta campesina, por exemplo, e da agroecologia, as mulheres estão protagonizando ali as lutas agroecológicas.
Acho que nosso papel é também de visibilizar essas histórias e não só colocar as mulheres sempre nesse papel de sofrimento. E não pra romantizar ou tentar minimizar os impactos disso, mas para mostrar que existe enfrentamento, as mulheres não são passivas a tudo isso que acontece ou todos esses impactos que elas sofrem da crise climática. Existe tensão, existe enfrentamento e a gente tem que potencializar esses enfrentamentos.
PARA TERMINAR O QUE A TERRA TEM CONVERSADO COM VOCÊ ULTIMAMENTE, BÁRBARA? QUANDO VOCÊ A ESCUTA, QUAIS MENSAGENS MAIS TE MOBILIZAM?
É meio doido falar isso morando em São Paulo, em um prédio, nessa selva de pedra. Eu sou do interior de Santa Catarina, eu cresci meio no meio do mato, a casa da minha avó, da minha mãe, tudo no meio do mato. E aí o que eu tenho refletido muito, e até com essas experiências estando mais em territórios, com comunidades rurais, comunidades ribeirinhas também, é de parar de ver a vida como uma lista de tarefas.
A gente constantemente vai sendo empurrado, engolido e transformando a vida nesse grande checklist. A gente tem que cumprir mil tarefas por dia e aí o dia vira semana, semana vira mês e a gente transforma a vida nessa grande lista, assim. Acho que no sistema capitalista que a gente vive essa forma de se organizar está implicada.
Então pensando nessa relação com a Terra, acho que vai muito nesse lugar de entender que a vida é uma festa. O Ailton Krenak fala muito disso em “A Vida Não É Útil”, que a gente tenta o tempo inteiro ser muito utilitário e acho que uma coisa que a Terra pode nos ensinar é que não necessariamente tudo precisa ter uma grande utilidade o tempo inteiro. Acho que tentar ter uma relação mais saudável com a própria vida, entendendo que ela não precisa ser uma grande checklist.
Registros: Camilla Loreta
Barbara veste: Camisa Dora Chá Preto, Shorts Flavia Chá Preto, Kaftan Tereza, Blusa Liz Impressão Botânica Palha de Milho, Calça Rubia Impressão Botânica Palha de Milho, Colar Amuleto Milho Crioulo