ESTEFÂNIA VERRESCHI _ DIÁLOGOS DO VESTIR #26

ESTEFÂNIA VERRESCHI _ DIÁLOGOS DO VESTIR #26

Estefânia Verreschi é perfumista e pesquisadora olfativa, formada em perfumaria fina pela escola francesa Cinquième Sens. É do encontro entre olfato, ciência e poética que nasce seu trabalho, inspirada pelo mundo sensível que passa pelas plantas e por seus usos nas culturas tradicionais.

Sempre que precisamos repensar o cheiro e seus imaginários por aqui, chamamos por Estefânia para captar o sutil da nossa história. Nosso último encontro revela na linha Bem-Estar o cheiro da Flavia Aranha, o rastro das Roupas Vivas revelado em plantas nativas.

Estefânia Verreschi é nossa convidada da edição #26 do Diálogos do Vestir.

Estefânia, como é a sua relação com o vestir?
Para mim, vestir é um gesto de escuta, contação de história, de identidade. Vestir não é só conversar com o corpo, mas conversar com as emoções, com os desejos. Tecidos, cores e texturas são sempre uma pele simbólica.

Sempre me vesti para mim e ao longo do tempo foi interessante perceber o que cada fase da Estefânia contava.  Esse amadurecimento trouxe o desejo por roupas que carregam tempo, matéria viva, processo. Antes de tudo tocar o tecido é uma mania de criança.  Agora o que tingiu, como foi feito traz outra experiência. Tudo que passa pelo fogo se transforma

Dentre os sentidos, por que o cheiro?
Porque o cheiro pega a gente pelas entranhas. Ele vai direto ao sistema límbico, à memória, às emoções, não mente, não deixa mentir. O olfato nos atravessa antes que a gente consiga explicar o que está sentindo. Ancestral e visceral, sempre foi a minha forma de ver o mundo.

Trabalhar com o olfato é trabalhar com aquilo que é invisível, mas profundamente real.

O seu trabalho de pesquisa olfativa faz um cruzamento entre neurociência, psicologia, práticas artísticas, dentre outras possibilidades. Como foi seu percurso para chegar neste ofício?
Meu percurso não foi linear, foi sensível. Comecei observando o uso das plantas nas tradições e como elas se conectavam ao campo emocional, sempre tem uma planta pra dores não físicas. Depois vieram os óleos essenciais e daí pro olfato foi um pulo intenso de 10 anos. O olfato foi abrindo portas e camadas que eu nem sabia que existiam e criando um eixo natural com diferentes interesses meus: memória, emoção, identidade e imaginação.

Meu trabalho hoje é criar dispositivos sensoriais para que as pessoas possam acessar partes de si mesmas que estão além do discurso, sentir e se emocionar.

Lemos você comentando sobre o olfato como sentido dos afetos. “Sentir o cheio para voltar a sentir”. Existem cheiros que funcionam mesmo como portais, atravessando o tempo e o corpo. Há algum cheiro (ou alguns) que marcam sua história de forma especial? A infância, um período específico… Em que momentos eles aparecem e o que despertam em você?
Sim, cheiros são verdadeiros portais, eles levam a gente pra dar uma volta no tempo e é um sentido biográfico.  Criar pequenos rituais olfativos com cheiros da nossa história pessoal devolve pra gente detalhes que a gente vai se esquecendo, daquilo que é simples e é humano: se emocionar.

Lembro do cheiro de alho nas mãos da minha mãe quando criança, de ir brincar por um caminho que em certas épocas do ano era inundado pelo cheiro doce da caliandra, e do bolo, do café e dessas coisas de roça.

Assim como no tingimento natural, o seu trabalho também necessita de uma escuta atenta às plantas, né? Seus aromas, propriedades…. Como se dá essa relação com o mundo vegetal? O que as plantas tem te ensinado sobre o cheiro, o corpo e o bem-estar?
Eu sinto as plantas como presenças muito gentis e generosas. Elas vão oferecendo exatamente aquilo que a gente precisa naquele momento, sem julgamento. Existe uma inteligência nelas que vai muito além da nossa, não só nos cheiros, nas propriedades medicinais, mas na forma de viver e habitar a terra. Na minha história, o reino vegetal foi sempre o que falou mais alto e que sempre me puxa de volta, é mesmo uma relação pra vida toda.

Desenvolvemos juntas uma linha de bem-estar para ritualizar a chegada desse novo ano. Você pode nos contar como foi o processo de criação dessa fragrância? Para nós sempre é muito importante o trabalho com plantas nativas, queria que você contasse um pouco como foi farejar as sensações que buscamos, até chegar nos produtos que recebemos na loja.

Trabalhar com plantas brasileiras e matéria prima natural foi essencial porque elas carregam território, memória e os princípios da marca. A ideia era encontrar um equilíbrio entre frescor, acolhimento e presença. A fragrância nasceu como um campo sensorial para ritualizar o Brasil, não apenas perfumar.

Aqui na Flavia Aranha, costumamos falar que criamos Roupas Vivas. O que essa expressão significa para você?
Para mim, Roupas Vivas são aquelas que conversam com o corpo enquanto as vestimos. São roupas que não foram separadas da terra, das mãos, dos processos visíveis.

Vestir algo vivo é sentir o corpo em relação com o tecido, com a planta que o tingiu, com a força daquela matéria prima, é ir criando amuletos e uma forma de lembrar que nós também somos natureza.

Registros: Café em Frames (Cris Cartacho e Marcus Chorão)
Estefânia Verreschi veste: Kaftan Seda Lisa Índigo, Cola Lupa Grande, Bracelete Lupa, Chemise Linho Vick Off White, Calça Caetana Off White, Rasteira Cetim Índigo,linha bem estar

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