João Camarero _ Diálogos do Vestir

João Camarero _ Diálogos do Vestir

João Camarero é violonista e compositor, nascido em Ribeirão Preto e criado em Avaré, no interior de São Paulo. Estudou no Conservatório de Tatuí e na Escola Portátil de Música do Rio de Janeiro. Ao longo de sua trajetória, tocou e colaborou com artistas como Maria Bethânia, Dori Caymmi e Paulinho da Viola.

Em 2026, ao lado de Fernando Barros, criou o Clube de Cultura, encontro que aproxima literatura, música e outras formas de expressão para pensar o Brasil. Foi a partir desses cruzamentos (entre palavra, som, escuta e matéria) que conversamos com João para mais um Diálogos do Vestir.

[F - A] João, assistimos a um vídeo em que você fala sobre o percurso da madeira até se tornar um violão. Você diz que “o que vem da natureza não morre”, mas muda de forma. Como a percepção de estar se relacionando com uma matéria viva influencia sua relação com o instrumento e a criação?

JOÃO CAMARERO: Gosto da ideia de que os objetos que utilizamos na vida - não necessariamente os musicais, apenas - são feitos de matéria que ainda respondem aos estímulos ambientais no sentido de reagir ao tempo e à manipulação. Seja pela umidade, pelo calor, pela luz, seja pelo desgaste que nosso toque causa. A fibra responde e se transforma, às vezes de forma definitiva ou não. Gosto de pensar que o instrumento ainda vai tocar por muitos anos depois que eu morrer. O material orgânico de um modo geral, sempre se transforma em algo novo, seja através da reciclagem, propriamente, ou simplesmente sua decomposição, voltando ao estado original das coisas.

[F - A] Você é instrumentista e o seu trabalho sempre esteve muito próximo da canção e da poesia. Para você, o que um violão pode dizer que as palavras não alcançam? E o que a literatura devolve à música quando elas se encontram?

JOÃO CAMARERO: Penso que a música sem palavras trabalha em registro sensorial diferente, de ser quase diretamente ligado à emoção. A palavra também traz, claro, especialmente a poesia. Mas quando a letra entra na canção, o registro sensorial é para um lugar de mais racionalidade, direcionado pela palavra. A melodia sem letra pode te induzir a diferentes sensações, lembranças; você mesmo pode dar o sentido que quiser. A letra afunila isso para um determinado caminho (mesmo que sejam muitos caminhos).

[F - A] A música amplia nossa forma de escutar o mundo. O silêncio, o ritmo, a pausa. Você sente que essa forma de ouvir também transformou a maneira como lê poesia?

JOÃO CAMARERO: De certa forma a poesia é indissociável da música. Antes da escrita a poesia era principalmente cantada. Ritmo ajuda a memorizar texto. Podemos pensar nos aedos, os poetas da Grécia Antiga, por exemplo, que não escreviam. Creio, portanto, que a relação entre as coisas é quase indissociável, mas não sinto que minha ligação com a música mude a maneira como eu leio poesia. Muitos milênios depois, as coisas se transformam, e, principalmente na canção brasileira, uma letra de música não é necessariamente poesia e vice-versa. Não é como se lesse um verso de Drummond e saísse cantando aquilo. Ou que uma letra por ela mesma se sustente como poesia.

[F - A] Li que o clube de cultura, que você criou com o Fernando Barros nasceu do encontro entre literatura, música e outras formas de expressão para pensar o Brasil. O que esse diálogo entre essas linguagens têm revelado a você sobre o país?

JOÃO CAMARERO: Esse diálogo é algo que sempre existiu nos bastidores das classes artísticas, jornalísticas, etc. Portanto, esses cruzamentos entre linguagens estão presentes na forma como pensamos o país. O que estamos fazendo, eu e Fernando, é sistematizar algumas conversas e assuntos para oferecer ao público. Nesse sentido, me aprofundar sobre um assunto específico tem me dado uma dimensão histórica que eu não tinha, principalmente no âmbito político e social. Olhar pra esses fenômenos e transformações do tempo com a lente da cultura é algo realmente revelador, principalmente levando em consideração quão recente é nossa história como nação.

Assista o diálogo entre o fazer e o vestir, com João Camarero

Registros: Ana Andrade
João Camarero veste: Camisa Cambraia de Linho Edu, Calça Tela de Linho Vicente

Confira as edições anteriores da série Diálogos do Vestir

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