Maíra Liguori e Nana Lima (Think Olga) _ Diálogos do Vestir #28

Maíra Liguori e Nana Lima (Think Olga) _ Diálogos do Vestir #28

Maíra e Nana são as convidadas da edição #28 do Diálogos do Vestir.

Maíra Liguori é jornalista, mãe e presidente da ONG Think Olga, além de diretora na consultoria Think Eva. Nana Lima é mãe, empreendedora social, diretora executiva da Think Olga e cofundadora da Think Eva.

Think Olga é um laboratório independente de ideias que, desde 2013, promove o debate público e contribui ativamente para a equidade de gênero no Brasil. Como desdobramento desse trabalho, Maíra e Nana fundaram a Think Eva, uma consultoria de inovação social focada em equidade de gênero, que utiliza a inteligência feminina para desenvolver estratégias de impacto, fortalecer culturas organizacionais inclusivas e construir uma comunicação de marca mais consciente.

No mês em que ampliamos as conversas sobre as lutas femininas, nos encontramos com Maíra e Nana para refletir sobre o vestir, o papel da comunicação na busca por equidade de gênero e na imaginação de futuros possíveis.


[F - A] Maíra, Nana, como é a relação de vocês com o vestir?
NANA: Eu diria que a minha relação com o vestir está cada vez mais leve e cada vez com menos regras do que já foi. Inclusive antes de estar na Think Eva e na Think Olga, eu trabalhei 10 anos com moda, com marketing de moda. Eu acho que antes eu era muito presa em regras, em moldes e eu acho que com mais maturidade, mais autoconhecimento, você entende o que faz sentido pra você e desliga um pouco o ruído externo. Então hoje em dia é uma relação muito mais gostosa, muito mais intencional do que era antes.

MAÍRA: Para mim o vestir acaba sendo uma maneira de me aproximar de mim mesma. Eu lembro que quando eu tinha 12 anos, eu alisei o cabelo. Eu fiz uma escova para uma festa e eu passei diante de um espelho meio desatenta e não reconheci aquela pessoa que estava daquele lado. Aquilo me incomodou demais e a partir desse dia eu nunca mais fiz escova, alisei o cabelo. Eu assumi que meu cabelo era esse e eu acho que eu tenho com o vestir essa necessidade de autoafirmação de quem eu sou. Então todas as vezes que eu me visto, eu tô sempre buscando coisas que vão me vestir de mim mesma e menos preocupada ou menos interessada no que vem de fora. Claro, me inspiro muito em mulheres em volta de mim, mas sempre com esse objetivo de chegar perto de mim mesma.

[F - A] O trabalho do Think Olga sempre apostou na comunicação como ferramenta de transformação social. Ao longo desses anos, o que vocês aprenderam sobre o poder das narrativas na mobilização por direitos das mulheres? E como vocês observam meninas e mulheres mais jovens se engajando nessas conversas hoje?
MAÍRA: Eu acho que esse papel da Think Olga de ser vocal sobre os temas e de pautar conversas permanece independente do tempo, independente da ferramenta. Então, lá em 2013, quando a gente nasceu, a internet era um terreno muito fértil para esse tipo de discussão, para conectar as mulheres que estavam em busca de mais conhecimento ou mais interessadas em saber sobre o que é ser mulher nesse mundo. A gente tinha um espaço de debate genuíno ali, muito fértil. Com as redes sociais, os algoritmos e todas as mudanças que a gente foi vendo no debate público e nas ferramentas de comunicação, a gente foi precisando adaptar as maneiras como a gente traz os temas.

De uns anos pra cá, acho que desde 2018, a gente vem pautando estudos aprofundados, com dados novos, para justamente levar essa conversa por meio de achados, novidades. E aí, a partir disso, a gente puxa o fio para debater as questões fundamentais que estão ali postas desde sempre, que são os mesmos problemas de cem, duzentos anos atrás, mas que a gente consegue atrair o interesse das pessoas.

Além disso, a gente tem a oportunidade e o privilégio de conversar com mulheres que estão perto de nós e que elas são amplificadoras desse debate. Então, a comunidade da Think Olga não é uma comunidade passiva. Ela recebe o que a gente faz e ela dissemina isso. Ela leva isso para outros espaços, com outros ângulos, com novas perspectivas pessoais, inclusive, e isso pra gente vale ouro.

NANA: Eu acho que desde o dia 1, a Olga sempre foi uma comunidade feita por muitas mulheres, para além de quem está na equipe no dia a dia, que reverbera muito esses temas. A gente já teve relatos de pessoas que usaram os nossos relatórios, os dados, a pesquisa, os posts até, para pedir uma mudança no ambiente de trabalho, para ir falar sobre segurança pública, para ir fazer uma campanha, um advocacy para a criação de uma lei, para o avanço de uma lei. Então é muito legal ver como a evolução do trabalho da Olga também é a evolução dessa pauta. Não só com uma pauta que antes, em 2013, 2014, você ainda tinha muito letramento, muito convencimento de que mulheres são seres humanos, são pessoas, são cidadãs de direito… Hoje em dia já tem um lugar muito mais estratégico de atuação e essa base é essencial para isso acontecer.

[F - A] A indústria da moda, da qual fazemos parte por aqui, é bastante contraditória no que diz respeito à presença feminina. As mulheres são maioria no setor, do consumo à produção, mas também estão entre as mais afetadas por desigualdades, precarização e estereótipos de gênero. Quando vocês olham para esse cenário, que questões aparecem com mais urgência? Na opinião de vocês, qual é o papel que marcas e empresas podem ter na construção dessas narrativas?
MAÍRA: Acho que dá pra gente começar falando que as mulheres chegaram no mercado de trabalho formal pra ficar. Isso é uma conquista e um avanço recente. O mercado de trabalho foi desenhado por homens, para homens e a gente simplesmente se acoplou. As necessidades das mulheres não estão contempladas. A gente vê muito nos trabalhos que a gente faz uma dificuldade real de conciliação, de flexibilização dos horários de trabalho para que as mulheres possam cuidar enquanto trabalham também. Ou seja, um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional. A gente vê o problema de assédio acontecendo ainda de maneira muito forte, apesar de todos os esforços, apesar da legislação.

Então, ainda existe uma necessidade de adaptação desse contexto do trabalho que não está dado e que só com a participação ativa das mulheres pode mudar. Principalmente com as mulheres que estão na liderança. Porque daí elas sim têm poder de decisão e de influência nos espaços onde as coisas podem ser mudadas.

Acho que a gente tem hoje uma responsabilidade muito grande das empresas e das mulheres que estão dentro dessas empresas em poder construir esse espaço onde elas sejam, de fato, bem-vindas.

NANA: E eu acho que a indústria da moda, por ser uma indústria que, se a gente for olhar, tem muitas mulheres (sejam estilistas, empresárias com suas próprias marcas), mas muitas ainda estão ali por não terem muita opção. Ou até a gente refletir mais sobre que representatividade é essa que a gente tem lá, que qualidade de representatividade é essa.

Acho que a gente também tem que valorizar marcas que a gente sabe que olham para toda a cadeia de produção. A gente vê muito na indústria da moda, principalmente ao longo da história, que realmente quem subia nos palcos, quem recebia as palmas no final do desfile, na maioria das vezes eram os homens. E você tinha todo um exército de mulheres para entregar aquele produto, aquela coleção, aquela história, de um jeito muito lindo, muito poético, mas o mérito normalmente ia para os homens. É quase como se a mulher saber costurar, a mulher saber fazer roupa, já fosse algo dado.

Então é muito legal ver exemplos de marcas que estão conseguindo fazer isso na prática, mesmo com todo o esforço que existe. Ainda é uma indústria em que as mulheres são as que mais consomem e as que mais trabalham na base da pirâmide, mas, lá em cima, se a gente for olhar os grandes varejistas, tenho certeza de que há muito poucas mulheres nos cargos de liderança ou nos conselhos de administração também.

[F - A} Nós, mulheres, sempre estivemos ameaçadas. Mas os últimos meses têm sido especialmente difíceis, e em períodos eleitorais muitas pautas ligadas aos direitos das mulheres voltam a entrar em disputa. Que lugar os direitos das mulheres ocupam hoje nessa imaginação de futuro para o Brasil?
NANA: Esse início de ano, esse momento, é tão simbólico que o 8M vem um pouco depois de ter todas essas notícias. A gente até está falando sobre isso, talvez esteja acontecendo nesse momento uma ampliação de consciência de que esses crimes sempre existiram, no volume que estão sendo reportados, só que eles estão sendo mais relatados agora.

A gente sempre fala, estão tendo mais casos de violência ou eles estão sendo mais notificados? Porque isso a gente sabe que sempre existiu “ah, briga de marido e mulher não se mete a colher…”, ou toda a questão da violência sexual contra meninas, era algo que se jogava para baixo do tapete. Então, apesar do difícil que é ser bombardeada por essas notícias todos os dias, acho que a gente é otimista de que isso possa acelerar algumas mudanças, nem que seja do reconhecimento dessas violências e de que a gente precisa trabalhar com os homens agora. Esse é o foco, porque as mulheres já estão fazendo tudo o que podem para melhorar esse cenário.

MAÍRA: É, as mulheres vão estar em disputa, é um eleitorado super importante, é uma parcela que tem bastante influência. Então, eu estou imaginando que a gente vai ver umas disputas políticas bastante ferrenhas e que não necessariamente vão desembocar no que é melhor para as mulheres. A gente vê muito, por exemplo, alguns discursos em uma tendência mais punitivista do agressor, enquanto outros vão mais para a prevenção da violência. Na hora de votar, o que a gente vai priorizar? Acho que tudo isso vai estar sendo colocado e por ser uma parcela do eleitorado muito importante, que hoje está vulnerabilizada, assim como a segurança pública, a segurança da mulher também vai estar no holofote.

E aí, acho que a gente vai ter esse desafio de separar o joio do trigo e saber quem é que está, de fato, a favor das mulheres. Ou está com propostas que vão mesmo melhorar a vida delas, em vez de causar um alarme no primeiro momento e depois as coisas se seguirem como são. Ou até culpabilizar as mulheres pelas situações. A gente vê muito esse discurso de um público que pode ser mais conservador, de você justificar que isso acontece porque você não sabe escolher marido ou porque a mulher justifica alguma coisa no comportamento dela, na roupa, no que for.

Então, acho que nessas eleições vai ser um campo de bastante disputa. De quais soluções a gente vai usar para diminuir esses números, para conscientizar e que representatividade a gente quer que esteja a nosso favor lá. Quem vai estar lá e que ferramentas vai utilizar. E é muito doido porque esse “vote em mulheres”, ele pode ao mesmo tempo ser uma coisa boa e uma armadilha. A gente vê alguns esforços sendo colocados nisso de forma a manipular e distorcer o que as mulheres, de fato, querem e precisam. Por meio de um discurso que muitas vezes parece emancipador, na verdade, ele está pregando que as mulheres voltem para o lugar que elas ocupavam no século passado, que era um lugar de bem menos protagonismo na sociedade.

[F - A] No ano passado vocês investigaram o que sonham as mulheres brasileiras, em parceria com o projeto Sonhe Como Uma Garota. Depois de tantos anos ouvindo, pesquisando e lutando por mudanças, com o que vocês têm sonhado hoje?
MAÍRA: Eu acho que, do meu lado, os sonhos não mudam. Eles continuam sendo esse desejo de um futuro melhor para as meninas e mulheres. E é obviamente um sonho muito ingrato de se ter, porque provavelmente eu não vou ver isso acontecer. Mas eu não consigo pensar no âmbito da coletividade, numa coisa que me importe mais do que isso. É um tema que permeia a minha história desde sempre e que provavelmente eu vou carregar para sempre como o meu maior sonho. Esse mundo mais justo, mais seguro, onde as meninas e mulheres possam prosperar.

NANA: A gente está num momento tão individualista, ou tão cada um por si, cada um que se vire, ainda mais numa cidade como São Paulo, que a gente sabe que exige isso da gente, eu acho que se pudesse ter um desejo, um sonho que se realizasse, é que a gente desse uns passos atrás e voltasse a olhar mais para questões coletivas. Não está dando certo essa velocidade, esse lugar individualista. A gente viu que está dando muito errado e a gente, como mulher, está vendo as consequências, como sociedade, estamos vendo as consequências.

E nós duas somos mães de dois meninos, cada uma. Daí eu acho que não tem como isso não estar na minha projeção de futuro também. Pensar que eles vão ser pessoas melhores para esse mundo e vão viver num mundo menos individualista, menos competitivo, mais colaborativo. A gente está vendo que não tem mais para onde correr. A gente vai precisar parar, desacelerar e entender que vai ser outro caminho do que nos falaram, do que nos fizeram desejar ou achar que isso era a única solução.

Registros: Camilla Loreta

Maíra Liguori veste Chemise Olga CatuabaSandália Baixa TressêColar ApitoPulseira Marcia
Nana Lima veste Camisa Vick ÍndigoShorts Flavia ÍndigoAlpargata Off WhiteAnel Apito, Brinco Milho Crioulo

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