Maria Izabel é a convidadas da edição #29 do Diálogos do Vestir.
Maria Izabel é produtora da cachaça artesanal Maria Izabel no Sítio Santo Antônio, à beira da baía de Paraty, onde vive e trabalha em contato direto com a terra. Desde os anos 90, conduz uma produção cuidadosa, acompanhando de perto cada etapa (do cultivo orgânico da cana ao preparo do próprio fermento, feito a partir de leveduras selvagens, em uma prática rara na região).
Antes da cachaça, veio o desejo de terra. Foi na década de 80 que Maria Izabel chegou ao sítio, investindo tudo o que tinha para realizar esse desejo. É desse cotidiano, entre o trabalho manual e a paisagem de Paraty, que se desenha seu fazer atento e profundamente ligado ao lugar.
Nos encontramos em seu sítio para falar sobre sua relação com o vestir, com o tempo e o fazer.

[F - A] Maria, como é a sua relação com o vestir? O que uma roupa precisa ter para fazer sentido no seu corpo e no seu dia a dia?
Maria Izabel: Tem que ser confortável, não pode ser muito cheia de detalhes que me incomoda. Também prefiro que as coisas que eu vou vestir, que são práticas, sejam, de preferência, bonitas. Funcionais. Eu gosto que tenha bolso, porque o bolso serve até se você está com frio. Se a sua mão está balançando muito, você aquieta ela no bolso. Guarda o papelzinho que está jogado na rua, põe no bolso, chega em casa e põe no lixo.
Eu acho muito importante que seja confortável, não aperte, tenha leveza, que não te atrapalhe os movimentos. E isso foi desde pequena, porque eu nasci em Paraty e eu dizia comigo mesma “se eu tivesse que escolher um lugar para nascer, eu teria escolhido esse onde eu nasci”. A consciência de que eu nasci no lugar que eu teria escolhido e isso não era só a fazenda, era com as cachoeiras, com a mata, com os cavalos, com o Centro Histórico, com as casas todas habitadas com os fantasmas que eu ficava querendo entrar em cada uma delas para descobrir esses mistérios… Para mim era realmente um mundo mágico. Então a roupa tinha que ser confortável, eu não ia ficar de vestidinho para montar cavalo, para entrar numa canoa.

[F - A] Você já comentou que o trabalho com a cachaça não nasceu da paixão, mas da necessidade de se manter. Como começou esse processo?
Maria Izabel: Eu estava morando aqui há alguns anos e, durante muito tempo, eu morei sem energia elétrica, sem estrada. Um dia, passando na rodovia, vi do outro lado uma pessoa cortando cana. Aí eu pedi, de brincadeira, “deixa essas olhadoras para mim, as pontas, vou plantar”. Toda essa área aqui em volta já era bem degradada de cultivos anteriores e, numa dessas áreas, eu plantei essas pontas de cana. Eu trouxe de canoa a remo, não tinha estrada ali no Corumbê, e cada vez que eu tinha dinheiro, eu pagava pessoas para me ajudar a manter o sítio, limpar, ia replantando, cortava, plantava um pouco pra frente… Cheguei a ter um canavial razoável.
Eu tinha duas casas na Ponte Branca e na Paraty-Cunha, uma delas que eu morava antes de vir pra cá. Acho que em 93 eu vendi uma delas para investir o dinheiro aqui. Não tinha muito o que fazer, não dava para conseguir investir em elétrica, nem estrada tinha na época. Não era muito dinheiro e eu não queria sair daqui para investir em outro lugar. Como eu tinha cana, eu construí o alambique. Foi um projeto, né? É que as pessoas associam a “ah, você faz com amor”, “ah, porque você ama cachaça”... Não, eu faço bem feito o que eu vou fazer. Não sei se é bem feito, mas é o melhor que eu consigo fazer. Eu tenho que fazer o melhor que eu posso. Eu sempre falo: não, não é amor, é fazer direito. Amor, eu amo a natureza, eu amo as pessoas, eu amo as minhas filhas.
Eu gosto muito de dar o sentido correto para a palavra, senão, às vezes, você vai usar e tem que criar uma outra palavra, porque aquela tá desgastada. Eu acredito no poder da palavra.

E aí, como eu tinha cana, queria usar o dinheiro aqui e montei o alambique. O alambique eu construí em três níveis, para não precisar usar bombeamento, energia elétrica. Durante muitos anos, pra moer a cana, eu usei um motor a diesel. Então, na parte mais alta, é onde chega a cana, onde ela é processada, moída. No piso intermediário, é a minha sala de fermentação. O fermento, a gente prepara aqui com leveduras selvagens, como se fazia antigamente. E, no nível mais baixo, é a parte de destinação.
Eu acredito que foi em 2008 que eu vendi a segunda casa e construí esse espaço de maneira a também aproveitar o terreno. A cachaça pronta nessa sala aqui ao lado, chega por gravidade. Aí eu fiz o meu estoque de cachaça, na época. Embaixo dessa loja, eu tenho a minha sala de engarrafamento. Hoje, eu tenho energia elétrica, eu tenho motor elétrico, que facilita muito. É um trabalho trabalhoso. Na época da safra, é muito intenso, exige bastante. Eu acho até bom que a minha produção seja pequena, é a menor de todas, de Paraty, porque ela é só com a cana que é plantada aqui, nesse sítio.
No início, era só com a cana daqui porque não tinha estrada, não tinha como trazer. Depois da estrada, ainda tinha uns vizinhos que ainda plantavam cana. Então eu comprava a cana deles, foi a época que a minha produção foi um pouco maior. Atualmente não plantam e a minha cana é certificada. A cachaça também, como orgânica. Então, fica restrito a cana que a gente planta aqui.

[F - A] Vi você falando em uma entrevista que só se sente bem em um lugar quando faz parte da paisagem, porque se sente integrada à natureza do local. Queria que você contasse um pouco de que forma observa que o sítio, o seu corpo e a cachaça se conectam como esse mesmo organismo.
Maria Izabel: Isso, sempre. Muitos não acham, porque não tem consciência disso, mas a gente faz parte de um todo. Então, eu me sinto bem quando eu me sinto parte da paisagem. Eu já morei em São Paulo e não me sentia bem. Eu não tinha um horizonte, eu ia olhar para frente, meus olhos não iam longe porque tinha uma muralha de edifício. O ar não tinha verde. Você não vive como um todo. Os seus sentidos não funcionam como um todo, junto com o todo.
E, na natureza, eu sempre me sinto fazendo parte da paisagem. Então, eu também tenho muito cuidado aqui com a minha plantação de cana, em áreas que já foram de cultivo anterior. Eu não desmato, é bem pequeno. Eu não aumento a minha produção, porque eu quero tudo isso. Eu quero que o tatu que mora ali na frente, continue morando o lagarto, a cobra… Sabe? Um equilíbrio.
[F - A] Você trabalha com a cana plantada em seu próprio sítio, sem uso de agrotóxicos, e o que sobra da feitura da cachaça retorna para a terra, alimentando novamente o solo. Como isso se reflete na cachaça que você produz?
Maria Izabel: Reflete porque eu não uso nenhum aditivo, é tudo daqui. Então, é com respeito na terra. Todo o lixo orgânico da minha casa fica aqui. Ele vai para a terra. O bagaço que sobra… Eu quero que os que estavam morando aqui antes, continuem morando.

[F - A] Na sua experiência como filha, mulher e mãe de seis filhas, o que você percebe como herança e o que foi uma ruptura necessária?
Maria Izabel: Eu, por enquanto, ainda não vi ruptura. Principalmente as mulheres na minha família foram muito marcantes.
Eu me lembro muito do meu lado materno. O meu pai morreu, eu tinha quatro anos. O meu avô morreu antes que meus pais se casassem. Foi uma pessoa que eu admiro muito, tenho o maior respeito pela figura dele. Foi uma pessoa que fez muita coisa por Paraty. Era um poeta, um idealista, era uma pessoa muito espiritualizada. Tudo isso eu sei das memórias dele, do que tem escrito, do que ele deixou como legado.
Eu convivi mais com minhas avós maternas, pessoas muito simples, mas com os valores muito fortes. Isso foi muito importante. A minha avó materna era uma figura muito forte. A minha mãe ficou viúva, então ela batalhou muito, conseguiu tocar a fazenda e eu nasci na Fazenda Bananal. Aí, depois quando ela veio para Paraty, ela teve um comércio em um dos sobrados da família, um restaurante, uma pousada e depois a loja, a Casa Costa, que existe até hoje em outro endereço.
Então, as mulheres na família tiveram um papel muito marcante. Eu sou fã das minhas irmãs, somos muito amigas. E as minhas filhas têm essa união também. Eu digo que a maior força delas, o maior poder delas, é essa amizade que elas têm. Porque é difícil, né? Seis filhas e elas são cada uma a melhor amiga da outra. Elas são uma unidade, é uma força.

[F - A] Para as mulheres que estão lendo essa conversa e também enfrentando estruturas patriarcais, que força ou consciência você acredita ser essencial cultivar?
Maria Izabel: Eu acho que você tem que estar com você mesma. É como se eu brigasse, mas eu não brigava porque eu estava fiel a mim desde a infância, mesmo com essa cultura patriarcal.
Por exemplo, eu falo das minhas irmãs e falo pouco dos meus irmãos, que também eram uns queridos, já foram os dois. Porque a minha mãe não sabia como criar um filho homem. Então ela queria que a gente servisse eles na mesa, eu sempre briguei. Nós arrumávamos a casa, mas eles não. Eles podiam vir da praia com o pé cheio de areia e pisar, eu me negava a limpar porque não era justo. Então foi sempre essa briga, ela não sabia como educar um homem. Meu pai morreu muito cedo, meu irmão mais novo nasceu um mês depois que meu pai morreu. Eles não tiveram um modelo masculino, provavelmente seria um modelo patriarcal. Mas as mulheres ficaram fortes.
As pessoas sempre perguntam como é fazer um trabalho que normalmente é considerado um trabalho mais masculino. Tem outras empresárias, donas de engenho, mas que não trabalham assim. Não foi fácil, mas eu não ligava. Nada para mim era fácil porque tudo que eu gostava não combinava com uma menina. Eu estava sempre muito solta, sem medo. Querendo superar os medos.

Então eu estava sempre me pondo a prova e por vezes todos ficavam contra mim. Eu não ficava contra todos, eles ficavam contra mim porque não entendiam.
E de fato eles ficam perturbados quando você não se intimida com essa postura machista. Eles não entendem, eles não sabem o que você acha e aí você faz o que vai fazer mesmo. Claro, tem mais dificuldades. No início para eu vender minha cachaça foi muito difícil, “cachaça de mulher é fraca”, “mulher não sabe fazer cachaça”... Porque a minha era muito suave, a acidez era baixa, mas era forte, mesmo teor alcoólico, só que uma qualidade diferente. Aí falavam que era fraca.
Na época eu não tinha estrada, o meu transporte era um barco. E nos finais de semana, para ajudar, eu fazia passeios turísticos nesses pontos turísticos, as praias, as ilhas. Aí eu levava os turistas e levava uns garrafões de cachaça embaixo dos bancos. Enquanto estavam nos restaurantes ou curtindo, eu ia oferecendo minhas cachaças nos quiosques, nos restaurantes. Eles compravam quando tinha movimento e eles estavam com pouca cachaça. Mas aí as pessoas que tomavam, gostavam. Os turistas que não sabiam que era feito por uma mulher e queriam saber de onde era.
Registros: Ana Andrade
Maria Izabel veste: Camisa Clarice Off White, Calça Emma Chumbo, Camisa Bruna Mostarda, Regata Ceci Off White, Calça Emma Areia
Maria Izabel _ Diálogos do Vestir #29
Maria Izabel é a convidadas da edição #29 do Diálogos do Vestir.
Maria Izabel é produtora da cachaça artesanal Maria Izabel no Sítio Santo Antônio, à beira da baía de Paraty, onde vive e trabalha em contato direto com a terra. Desde os anos 90, conduz uma produção cuidadosa, acompanhando de perto cada etapa (do cultivo orgânico da cana ao preparo do próprio fermento, feito a partir de leveduras selvagens, em uma prática rara na região).
Antes da cachaça, veio o desejo de terra. Foi na década de 80 que Maria Izabel chegou ao sítio, investindo tudo o que tinha para realizar esse desejo. É desse cotidiano, entre o trabalho manual e a paisagem de Paraty, que se desenha seu fazer atento e profundamente ligado ao lugar.
Nos encontramos em seu sítio para falar sobre sua relação com o vestir, com o tempo e o fazer.
[F - A] Maria, como é a sua relação com o vestir? O que uma roupa precisa ter para fazer sentido no seu corpo e no seu dia a dia?
Maria Izabel: Tem que ser confortável, não pode ser muito cheia de detalhes que me incomoda. Também prefiro que as coisas que eu vou vestir, que são práticas, sejam, de preferência, bonitas. Funcionais. Eu gosto que tenha bolso, porque o bolso serve até se você está com frio. Se a sua mão está balançando muito, você aquieta ela no bolso. Guarda o papelzinho que está jogado na rua, põe no bolso, chega em casa e põe no lixo.
Eu acho muito importante que seja confortável, não aperte, tenha leveza, que não te atrapalhe os movimentos. E isso foi desde pequena, porque eu nasci em Paraty e eu dizia comigo mesma “se eu tivesse que escolher um lugar para nascer, eu teria escolhido esse onde eu nasci”. A consciência de que eu nasci no lugar que eu teria escolhido e isso não era só a fazenda, era com as cachoeiras, com a mata, com os cavalos, com o Centro Histórico, com as casas todas habitadas com os fantasmas que eu ficava querendo entrar em cada uma delas para descobrir esses mistérios… Para mim era realmente um mundo mágico. Então a roupa tinha que ser confortável, eu não ia ficar de vestidinho para montar cavalo, para entrar numa canoa.
[F - A] Você já comentou que o trabalho com a cachaça não nasceu da paixão, mas da necessidade de se manter. Como começou esse processo?
Maria Izabel: Eu estava morando aqui há alguns anos e, durante muito tempo, eu morei sem energia elétrica, sem estrada. Um dia, passando na rodovia, vi do outro lado uma pessoa cortando cana. Aí eu pedi, de brincadeira, “deixa essas olhadoras para mim, as pontas, vou plantar”. Toda essa área aqui em volta já era bem degradada de cultivos anteriores e, numa dessas áreas, eu plantei essas pontas de cana. Eu trouxe de canoa a remo, não tinha estrada ali no Corumbê, e cada vez que eu tinha dinheiro, eu pagava pessoas para me ajudar a manter o sítio, limpar, ia replantando, cortava, plantava um pouco pra frente… Cheguei a ter um canavial razoável.
Eu tinha duas casas na Ponte Branca e na Paraty-Cunha, uma delas que eu morava antes de vir pra cá. Acho que em 93 eu vendi uma delas para investir o dinheiro aqui. Não tinha muito o que fazer, não dava para conseguir investir em elétrica, nem estrada tinha na época. Não era muito dinheiro e eu não queria sair daqui para investir em outro lugar. Como eu tinha cana, eu construí o alambique. Foi um projeto, né? É que as pessoas associam a “ah, você faz com amor”, “ah, porque você ama cachaça”... Não, eu faço bem feito o que eu vou fazer. Não sei se é bem feito, mas é o melhor que eu consigo fazer. Eu tenho que fazer o melhor que eu posso. Eu sempre falo: não, não é amor, é fazer direito. Amor, eu amo a natureza, eu amo as pessoas, eu amo as minhas filhas.
Eu gosto muito de dar o sentido correto para a palavra, senão, às vezes, você vai usar e tem que criar uma outra palavra, porque aquela tá desgastada. Eu acredito no poder da palavra.
E aí, como eu tinha cana, queria usar o dinheiro aqui e montei o alambique. O alambique eu construí em três níveis, para não precisar usar bombeamento, energia elétrica. Durante muitos anos, pra moer a cana, eu usei um motor a diesel. Então, na parte mais alta, é onde chega a cana, onde ela é processada, moída. No piso intermediário, é a minha sala de fermentação. O fermento, a gente prepara aqui com leveduras selvagens, como se fazia antigamente. E, no nível mais baixo, é a parte de destinação.
Eu acredito que foi em 2008 que eu vendi a segunda casa e construí esse espaço de maneira a também aproveitar o terreno. A cachaça pronta nessa sala aqui ao lado, chega por gravidade. Aí eu fiz o meu estoque de cachaça, na época. Embaixo dessa loja, eu tenho a minha sala de engarrafamento. Hoje, eu tenho energia elétrica, eu tenho motor elétrico, que facilita muito. É um trabalho trabalhoso. Na época da safra, é muito intenso, exige bastante. Eu acho até bom que a minha produção seja pequena, é a menor de todas, de Paraty, porque ela é só com a cana que é plantada aqui, nesse sítio.
No início, era só com a cana daqui porque não tinha estrada, não tinha como trazer. Depois da estrada, ainda tinha uns vizinhos que ainda plantavam cana. Então eu comprava a cana deles, foi a época que a minha produção foi um pouco maior. Atualmente não plantam e a minha cana é certificada. A cachaça também, como orgânica. Então, fica restrito a cana que a gente planta aqui.
[F - A] Vi você falando em uma entrevista que só se sente bem em um lugar quando faz parte da paisagem, porque se sente integrada à natureza do local. Queria que você contasse um pouco de que forma observa que o sítio, o seu corpo e a cachaça se conectam como esse mesmo organismo.
Maria Izabel: Isso, sempre. Muitos não acham, porque não tem consciência disso, mas a gente faz parte de um todo. Então, eu me sinto bem quando eu me sinto parte da paisagem. Eu já morei em São Paulo e não me sentia bem. Eu não tinha um horizonte, eu ia olhar para frente, meus olhos não iam longe porque tinha uma muralha de edifício. O ar não tinha verde. Você não vive como um todo. Os seus sentidos não funcionam como um todo, junto com o todo.
E, na natureza, eu sempre me sinto fazendo parte da paisagem. Então, eu também tenho muito cuidado aqui com a minha plantação de cana, em áreas que já foram de cultivo anterior. Eu não desmato, é bem pequeno. Eu não aumento a minha produção, porque eu quero tudo isso. Eu quero que o tatu que mora ali na frente, continue morando o lagarto, a cobra… Sabe? Um equilíbrio.
[F - A] Você trabalha com a cana plantada em seu próprio sítio, sem uso de agrotóxicos, e o que sobra da feitura da cachaça retorna para a terra, alimentando novamente o solo. Como isso se reflete na cachaça que você produz?
Maria Izabel: Reflete porque eu não uso nenhum aditivo, é tudo daqui. Então, é com respeito na terra. Todo o lixo orgânico da minha casa fica aqui. Ele vai para a terra. O bagaço que sobra… Eu quero que os que estavam morando aqui antes, continuem morando.
[F - A] Na sua experiência como filha, mulher e mãe de seis filhas, o que você percebe como herança e o que foi uma ruptura necessária?
Maria Izabel: Eu, por enquanto, ainda não vi ruptura. Principalmente as mulheres na minha família foram muito marcantes.
Eu me lembro muito do meu lado materno. O meu pai morreu, eu tinha quatro anos. O meu avô morreu antes que meus pais se casassem. Foi uma pessoa que eu admiro muito, tenho o maior respeito pela figura dele. Foi uma pessoa que fez muita coisa por Paraty. Era um poeta, um idealista, era uma pessoa muito espiritualizada. Tudo isso eu sei das memórias dele, do que tem escrito, do que ele deixou como legado.
Eu convivi mais com minhas avós maternas, pessoas muito simples, mas com os valores muito fortes. Isso foi muito importante. A minha avó materna era uma figura muito forte. A minha mãe ficou viúva, então ela batalhou muito, conseguiu tocar a fazenda e eu nasci na Fazenda Bananal. Aí, depois quando ela veio para Paraty, ela teve um comércio em um dos sobrados da família, um restaurante, uma pousada e depois a loja, a Casa Costa, que existe até hoje em outro endereço.
Então, as mulheres na família tiveram um papel muito marcante. Eu sou fã das minhas irmãs, somos muito amigas. E as minhas filhas têm essa união também. Eu digo que a maior força delas, o maior poder delas, é essa amizade que elas têm. Porque é difícil, né? Seis filhas e elas são cada uma a melhor amiga da outra. Elas são uma unidade, é uma força.
[F - A] Para as mulheres que estão lendo essa conversa e também enfrentando estruturas patriarcais, que força ou consciência você acredita ser essencial cultivar?
Maria Izabel: Eu acho que você tem que estar com você mesma. É como se eu brigasse, mas eu não brigava porque eu estava fiel a mim desde a infância, mesmo com essa cultura patriarcal.
Por exemplo, eu falo das minhas irmãs e falo pouco dos meus irmãos, que também eram uns queridos, já foram os dois. Porque a minha mãe não sabia como criar um filho homem. Então ela queria que a gente servisse eles na mesa, eu sempre briguei. Nós arrumávamos a casa, mas eles não. Eles podiam vir da praia com o pé cheio de areia e pisar, eu me negava a limpar porque não era justo. Então foi sempre essa briga, ela não sabia como educar um homem. Meu pai morreu muito cedo, meu irmão mais novo nasceu um mês depois que meu pai morreu. Eles não tiveram um modelo masculino, provavelmente seria um modelo patriarcal. Mas as mulheres ficaram fortes.
As pessoas sempre perguntam como é fazer um trabalho que normalmente é considerado um trabalho mais masculino. Tem outras empresárias, donas de engenho, mas que não trabalham assim. Não foi fácil, mas eu não ligava. Nada para mim era fácil porque tudo que eu gostava não combinava com uma menina. Eu estava sempre muito solta, sem medo. Querendo superar os medos.
Então eu estava sempre me pondo a prova e por vezes todos ficavam contra mim. Eu não ficava contra todos, eles ficavam contra mim porque não entendiam.
E de fato eles ficam perturbados quando você não se intimida com essa postura machista. Eles não entendem, eles não sabem o que você acha e aí você faz o que vai fazer mesmo. Claro, tem mais dificuldades. No início para eu vender minha cachaça foi muito difícil, “cachaça de mulher é fraca”, “mulher não sabe fazer cachaça”... Porque a minha era muito suave, a acidez era baixa, mas era forte, mesmo teor alcoólico, só que uma qualidade diferente. Aí falavam que era fraca.
Na época eu não tinha estrada, o meu transporte era um barco. E nos finais de semana, para ajudar, eu fazia passeios turísticos nesses pontos turísticos, as praias, as ilhas. Aí eu levava os turistas e levava uns garrafões de cachaça embaixo dos bancos. Enquanto estavam nos restaurantes ou curtindo, eu ia oferecendo minhas cachaças nos quiosques, nos restaurantes. Eles compravam quando tinha movimento e eles estavam com pouca cachaça. Mas aí as pessoas que tomavam, gostavam. Os turistas que não sabiam que era feito por uma mulher e queriam saber de onde era.
Registros: Ana Andrade
Maria Izabel veste: Camisa Clarice Off White, Calça Emma Chumbo, Camisa Bruna Mostarda, Regata Ceci Off White, Calça Emma Areia