Neide Rigo _ Diálogos do Vestir #31

Neide Rigo _ Diálogos do Vestir #31

Neide Rigo é a convidada da edição #31 do Diálogos do Vestir.

Nutricionista e pensadora da comida, Neide é uma referência na difusão de conhecimento sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) no Brasil. Autora de “Comida Comum” (Ubu, 2024), a pesquisadora se dedica a investigar e compartilhar saberes sobre plantas muitas vezes invisibilizadas, ampliando o olhar sobre biodiversidade, alimentação e território.

Neide nos recebeu em sua casa enquanto preparava uma massa com plantas colhidas em seu jardim. Caminhamos pela horta comunitária que cultiva em seu bairro e conversamos sobre sua relação com o vestir, os aprendizados que nascem da observação cotidiana e as formas de cultivar vínculos com a terra, com a comida e com aquilo que escolhemos preservar.

[F - A] Neide, como é a sua relação com o vestir?

NEIDE RIGO: Minha relação com o vestir tem muito a ver com o que eu vivi na infância. Minha mãe era costureira e costurava muito bem, então eu sempre gostei de desenhar roupa para ela fazer para mim. Eu não sou de consumir muito, de comprar muita roupa. Nunca me guiei por tendências, então minhas roupas são atemporais mesmo.

Tenho roupas muito antigas, roupas que minha mãe fez para mim e ainda tenho guardadas. E eu mesma gosto muito de costurar também, algumas roupas eu mesma faço. Tenho paixão por máquinas de costura, tenho seis máquinas em casa. E é tudo muito não convencional, como o meu trabalho.

Tenho uma história de quando eu era adolescente e meu pai me deu uma máquina.
Ele encontrou no quintal de um amigo e pediu essa máquina pra ele. Reformou a máquina inteira, colocou motor e me deu. Eu devia ter uns 17 anos, por aí. Ainda tenho ela e funciona até hoje.


Hoje eu faço roupas para o meu netinho. E gosto de fazer vestidos soltos para mim. Apesar de ter tido uma mãe costureira, não foi com ela que aprendi exatamente. Eu fui uma autodidata. Aprendi olhando e comecei a costurar sozinha. Desmanchando outras roupas, cortando em cima. Enfim, a minha relação com vestir é essa, de ter roupas muito confortáveis. Agora estou gostando muito de cores básicas, mas já gostei muito mais de roupas coloridas, com flores, com estampas. Às vezes, volto com esse desejo, independente de estar na moda ou não.

[F - A] O que você procura quando busca uma roupa?

NEIDE RIGO: Quando procuro uma roupa, busco algo que me caia bem, que não aprisione o meu corpo, que me dê muito conforto. E tenho as cores preferidas. Gosto muito de verde, de cereja, mas, principalmente, verde. Adoro cores verdes e tons terrosos.

FA: Por que pensar a comida? Em que momento você percebeu que esse seria o seu principal campo de investigação?

NEIDE RIGO: Eu sempre me interessei pela comida de uma forma ligada às plantas de comer. Desde criança, eu tinha interesse em conhecer as plantas e sempre perguntava, “é de comer?” Era um interesse meu, especialmente relacionado às plantas.

E com o tempo, plantar também, ver todo o desenvolvimento de uma planta comestível. A relação com o comer acho que teve muito a ver também com a minha participação no slow food durante uma época, eu era mais atuante. Conheci muitas pessoas especiais, visitei lugares, conheci modos de produção, conheci agricultores. Acho que a minha relação com o comer se solidificou mais do que eu já imaginava.

Mas fui fazer nutrição porque era um assunto que me tocava muito, essa coisa de como as pessoas comem, o que elas comem, de onde vem o que elas comem. É claro que o curso de nutrição não me deu todas as respostas, mas serviu para embasar algumas coisas que eu já pensava. Hoje, trabalho muito com plantas alimentícias não convencionais.

[F - A]: Vemos você falando muito sobre ampliar a biodiversidade dos nossos pratos.
Em um mundo que olha tanto para a monocultura e padronização dos hábitos, qual é a importância de preservar a diversidade dos alimentos para o equilíbrio climático, cultural e social?


NEIDE RIGO: Um prato biodiverso diz muito a respeito de quem está comendo, mas toda a história que está por trás daquele prato. Falo muito dessa biodiversidade, porque sempre fui muito ligada à natureza e sei o impacto que tem uma comida monótona, de arroz, feijão, salada de alface com tomate, bife, o impacto desse prato na sociedade, culturalmente, economicamente e ecologicamente.

A gente sabe que um prato monótono vem de uma monocultura. E a monocultura, acho que ninguém tem dúvida disso, é um atraso para o país, para o planeta. Porque se você tem um modelo equilibrado, um modelo agroecológico, por exemplo, em que as plantas convivem com os insetos, com os animais, um modelo de agricultura de pequeno porte, com isso você consegue ter algum equilíbrio.


A hora que você tira tudo isso, tira a floresta, polui os rios e exaure a terra para produzir um tipo de alimento, é claro que vai dar errado em algum momento. Pode ser que durante um tempo isso dê certo, mas você sabe que se você voltar naquele pedaço de terra, vai encontrar desequilíbrio da fauna, da flora, daí muitas vezes você tenta consertar isso e vai estragando outras coisas.

Por exemplo, se você tira o ecossistema de um inseto, se você rompe com a cadeia alimentícia desse inseto, você vai ter um excesso, vai ter que usar agrotóxico. E o agrotóxico vai poluir os rios e a água que uma população bebe, uma comunidade que depende desse rio. Enfim, é todo um desequilíbrio difícil de resolver.


Então eu acredito no modelo de agricultura de pequeno porte, distribuição de terras, dar mais ênfase à reforma agrária. Se todo mundo que pode plantar e que tem talento para plantar tivesse um pedaço de terra, acho que estaríamos num mundo mais justo.

[F - A] Ao conhecer melhor as plantas que nos alimentam, o que passamos a compreender sobre a natureza e sobre o nosso lugar nela?

NEIDE RIGO: O fato de a gente conhecer o que a gente come, nos conecta com o território. Acredito muito na comida ligada à cultura daquele lugar, ligada ao território, ao que você tem ao redor. Acho que se todo mundo tivesse essa percepção e essa noção, a gente teria um mundo um pouquinho melhor.

[F - A] Enquanto somos incentivados a procurar sempre o raro, o extraordinário, você tem um livro chamado “Comida comum”, um trabalho que nos convida a olhar para o que já está por perto. O que a simplicidade tem te ensinado sobre abundância e qualidade de vida na alimentação?

NEIDE RIGO: O meu livro chama “Comida Comum”, e não é um comum no sentido de simples, uma comida simplificada. Esse comum no livro é uma provocação para dizer que nós vivemos em um país de abundância de comida, nós temos uma diversidade de plantas alimentícias enorme, no Brasil existem mais de 10 mil plantas alimentícias, e a gente se alimenta de apenas 20 espécies.

Na hora que todo mundo conhece um pouco mais da comida, de onde ela vem, do que o seu território pode nos oferecer e como essa comida pode pertencer a todos desse território, acho que é comum nesse sentido. A gente tem essas comidas, a gente vê que essas comidas nascem espontaneamente em vários lugares. Então, se as pessoas pudessem ter quintais produtivos, se a gente dependesse menos desses alimentos vindos da monocultura, dependesse menos desses alimentos que vêm de longe…a gente tem muita abundância por perto, não precisa vir de longe.

Isso não quer dizer que as pessoas não tenham que ter curiosidade para comprar e experimentar o que vem de longe, mas vamos olhar também para o que a gente tem por perto e vamos pensar que esse alimento pode ser comum para todas as pessoas, que todo mundo deveria ter alimento.

Acho que esse é o ponto em que a gente vive num mundo em que algumas pessoas têm demais e que existe desperdício, a gente sabe que têm desperdício enquanto outras pessoas passam fome. Então eu sempre prego a popularização das hortas urbanas. Acho que se todos os bairros tivessem terreno suficiente para fazer hortas urbanas, as pessoas poderiam se alimentar melhor, depender menos de alimentos comprados, cada vez menos. E acho que só de depender menos da monocultura, a gente já melhora um tantinho.

[F - A] Em uma entrevista, você comentou sobre a ideia de uma “agricultura de frestas” (a possibilidade de perceber plantas comestíveis surgindo em meio ao concreto). O que essa prática revela sobre o potencial alimentar e ecológico que existe nas cidades e que muitas vezes ignoramos?

NEIDE RIGO: Quando eu falo desses alimentos que nascem em frestas, é claro que a gente não vai sair pela rua catando alimento. Acho que a ideia não é essa. Quando eu faço as caminhadas para reconhecer plantas alimentícias não convencionais, as PANCs nas ruas, não estou querendo dizer que as pessoas devam sair pelas ruas para colher seus alimentos e ter o que comer. Não é bem isso. E a gente vê, sim, os alimentos nascendo nas frestas, na escada mesmo que dá para a minha casa, têm pelo menos umas 20 espécies comestíveis que nascem nas frestas.

E isso serve para nos mostrar que existe essa abundância que pode nascer perto da gente, seja num quintal, numa horta comunitária, numa pequena propriedade. Mesmo que você não plante, essas plantas nascem espontaneamente. Então, acho que esse passeio que faço serve para mostrar que existe a possibilidade de a gente ter comida nas cidades, não necessariamente nas frestas. Essa é uma alegoria para dizer que, mesmo numa cidade grande, as comidas estão sempre perto da gente.

[F - A] Existe uma planta, um ingrediente ou um alimento que você sente que sintetiza a sua maneira de olhar para o mundo? Por quê?

NEIDE RIGO: Acho que não existe essa planta que sintetiza o meu olhar, porque estou sempre apaixonada por algum alimento, alguma planta diferente. Mas as PANCS, de um modo geral, acho que fazem esse papel na minha vida, porque elas são tão abundantes, tão generosas, e elas não estão no mercado. Elas são rebeldes, nascem por aí. Não só as que nascem espontâneas, mas as que a gente planta. Você não vai encontrar no supermercado, por exemplo.

São plantas que não são padronizadas, não são padronizáveis. Então, falo que são plantas rebeldes. Quando a gente fala do termo PANC, quem não conhece, fala que foi um movimento de rebeldia (punk). E entre tantas espécies, as PANCs também poderiam ser consideradas um movimento de resistência, de quem está aí batalhando, ensinando as pessoas a comer essas plantas. Não só ensinando, mas, às vezes, relembrando.

São plantas, muitas vezes, que estão aí nas comunidades tradicionais e que estão esquecidas, porque a indústria de alimentos, os ultraprocessados, chegam arrasando tudo isso e colocando à margem. E tem muita gente trabalhando com as
PANCs no momento, não só no Brasil, mas em todos os países da América Latina. Tem gente trabalhando arduamente para fazer essas plantas virem à tona e que elas estejam mesmo nos quintais, nas hortas comunitárias, nas pequenas propriedades.

[F - A] Para terminar, o que você gostaria que as pessoas reaprendessem a enxergar quando se sentam à mesa?

NEIDE RIGO: Eu valorizo muito o sentar à mesa. Valorizo muito na minha casa, na casa das minhas irmãs, nos lugares onde vou, na casa do meu pai. Sempre tivemos esse hábito de sentar à mesa. Acho que se sentar à mesa é o momento de você celebrar a vida, é o momento de você agradecer a quem fez a comida e de onde veio essa comida, ainda que não seja literal esse agradecimento.

Acho que no momento em que você presta atenção no que está comendo, em que você conversa durante o jantar ou o almoço, tem esse momento de comunhão. Acho que estamos respeitando quem produziu aquele alimento. Eu gostaria que as pessoas que comem, comessem à mesa.

Sei que muitas vezes não é fácil fazer isso sozinho, e muitas pessoas vivem sozinhas, pegam um prato e vão para a frente da televisão comer. Mas sempre que puder, chame um vizinho para comer junto, compartilhe esse momento, porque é tão importante que a gente fique na mesa sem celular, olhando para as pessoas que estão ali ao seu redor. Acho que é isso.

Gostaria que as pessoas se lembrassem de que comer à mesa pode ser muito prazeroso e um movimento, um momento de reflexão mesmo, de agradecimento, comunhão, celebração.

Registros: Tainá Bernard

Neide Rigo veste: Blusa Modal Ampla Sofia Lilás, Calça Modal Emma Chumbo, Panô Seda Impressão Botânica Palha de Milho, Camisa Erivânia Algodão Orgânico Xadrez e Calça Algodão Orgânico Xadrez Gaia

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