Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
A #3 convidada do Nós da Teia é Laura Berbert, astróloga e artista que combina linguagens visuais, têxteis e oraculares em seu trabalho e assina as artes da nossa coleção em colaboração com a Casa Sete Selos + Supersônica, “A pele do texto”.
SEU TRABALHO CRUZA LINGUAGENS VISUAIS E GRÁFICAS, LEITURAS ASTROLÓGICAS E TARÔ. COMO ESSAS CAMADAS FORAM SE COSTURANDO AO LONGO DO SEU PROCESSO ARTÍSTICO?
Primeiro vieram as artes gráficas, eu me formei em artes visuais com ênfase em artes gráficas. Eu sempre tive um pouco de interesse no campo da psicologia, do ocultismo, aí quando eu cheguei em São Paulo, comecei a estudar astrologia e outros oráculos. E eu acho que essa aproximação dos oráculos com as artes vem para mim porque eu entendo que os oráculos mostram coisas invisíveis, mas a gente também tem imagem. É pela via do discurso que o oráculo acontece, né? Pela via da palavra ou pela via da imagem. Então, essa mistura foi acontecendo quase sem eu perceber mesmo.
SEU TRABALHO TEM UMA RELAÇÃO PROFUNDA COM A PALAVRA. QUANDO PENSAMOS ESSA IDEIA DE TORNAR A PALAVRA UM LUGA HABITÁVEL A PARTIR DAS FRASES DAS EDITORAS, SEU NOME VEIO FORTE. COMO FOI O PROCESSO DE CRIAÇÃO DAS PEÇAS QUE VOCÊ DESENVOLVEU PARA A FLAVIA ARANHA E PARA O 7SELOS? QUE CAMINHOS TE CONDUZIRAM NESSAS TRADUÇÕES ENTRE PALAVRA E IMAGEM?
Eu acho que uma das coisas que eu mais gosto de fazer é desenhar palavras. Acho que eu vivo rodeada de palavras. Então quando eu recebi esse convite, foi muito prazeroso sentar pra desenhar. Ainda mais de alguns autores e autoras que eu gosto muito.
Para mim, o processo de desenhar as estampas da coleção foi um processo de invenção de letra. Eu fiquei experimentando as infinitas formas que eu consigo desenhar as letras.
No meu processo com as palavras, gosto muito de, por exemplo, escrever com a mão esquerda, que é um jeito de descolar um pouco o automatismo que a gente pode ter com a palavra.

Eu também entendo que no meu processo a palavra é um desenho. Então poder experimentar as infinitas formas que você pode fazer a mesma palavra é quase que meu processo todos os dias. Eu acho que fazer essas estampas é uma coisa que eu já faço todos os dias, que é pensar nas possibilidades visuais que a gente pode dar pra palavra.
Eu entendo que a gente vive rodeado de palavras, o tempo inteiro. Então, isso de dar a ver a palavra, pra mim é um exercício. Ainda que a palavra seja sempre a mesma, eu acho que a gente está sempre reinventando a palavra. E pela via do desenho, pela via da escrita, acho que a gente faz isso.
A gente faz a palavra nascer a cada vez que a gente escreve.
AQUI NA FLÁVIA, ESTAMOS SEMPRE NOS RELACIONANDO COM AS ARTES TÊXTEIS E OS FAZERES MANUAIS. O BORDADO É UMA TÉCNICA MUITO PRESENTE NO SEU TRABALHO. COMO VOCÊ ENXERGA O LUGAR DO BORDADO NA SUA PRÁTICA ARTÍSTICA? O QUE ESSA MANUALIDADE TE REVELA?
As minhas duas avós costuravam e bordavam na juventude. Uma delas até bordava pra fora, como um jeito de ter alguma autonomia financeira. Então eu sempre tive isso presente. Na casa das minhas avós, sempre tinha o cantinho da máquina de costura e eu tenho uma tia que faz muito, como uma espécie de hobby, ela me ensinou quando eu era criança.
Quando eu entrei na faculdade de artes (estudei em Belo Horizonte) tinha uma linha de pesquisa de artes têxteis e eu experimentei alguma coisa, fiz alguns trabalhos de bordado. Mas o bordado entrou mesmo para dentro do meu trabalho durante a pandemia. Porque o bordado pede um tempo que não é o tempo da vida que a gente leva. Na pandemia a gente pôde ter um pouco mais de tempo e aí eu me reconectei.
O meu fazer artístico é muito colado na minha vida. Não é uma coisa que eu trabalho x horas no ateliê e depois eu vivo minha vida, as coisas são muito misturadas. E eu passei por um processo de luto na pandemia, meu pai faleceu e a única coisa que me era possível nessa época, era bordar. Aí eu comecei a bordar obsessivamente.
Tem uma singularidade que eu encontrei na minha relação com o bordado, que é quase impossível pra mim bordar sem ter uma palavra. Eu gosto muito de escrever, mas não tenho facilidade de falar, me sinto mais silenciosa. E aí, no bordado, eu entendi que eu consegui escrever devagar e ficar muito tempo com uma palavra só. Às vezes, demorar uma semana para fazer uma palavra.
Na criação das estampas, quando vocês trazem essa imagem da pele do texto, faz muito sentido para mim e o meu processo de bordado. Essa coisa de você ter que passar letra por letra, eu acho que, provocada por essa imagem da pele do texto, eu chego numa outra imagem, que é pensar que as letras são os poros da palavra.
Eu gosto muito da Louise Bourgeois, que também tinha um trabalho de arte e texto, e ela fala muito da potência da agulha, isso dela ser uma ponta perfurante, né? Então o que é possível você fazer com essa ponta? E aí, quando eu tô bordando palavra, e pra fazer uma letra, eu tenho que fazer muitos furos no tecido, isso, pra mim, é uma coisa que faz muito sentido. É criar com essa materialidade. Então para mim a palavra é ponto e linha, que é o que o bordado oferece, né? Tudo no bordado você vai passar pelo ponto e pela linha. Então, eu acho que essa junção do bordado com a escrita fez muito sentido e é o que eu sigo fazendo. Eu falo que eu bordo pra escrever devagar.

Laura Berbert usa: Blusa Olívia Natural, Shorts Cila Natural e Chemise Beatriz Off White
Fotos: Camilla Loreta
NÓS DA TEIA 03 _ LAURA BERBERT
Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
A #3 convidada do Nós da Teia é Laura Berbert, astróloga e artista que combina linguagens visuais, têxteis e oraculares em seu trabalho e assina as artes da nossa coleção em colaboração com a Casa Sete Selos + Supersônica, “A pele do texto”.
Primeiro vieram as artes gráficas, eu me formei em artes visuais com ênfase em artes gráficas. Eu sempre tive um pouco de interesse no campo da psicologia, do ocultismo, aí quando eu cheguei em São Paulo, comecei a estudar astrologia e outros oráculos. E eu acho que essa aproximação dos oráculos com as artes vem para mim porque eu entendo que os oráculos mostram coisas invisíveis, mas a gente também tem imagem. É pela via do discurso que o oráculo acontece, né? Pela via da palavra ou pela via da imagem. Então, essa mistura foi acontecendo quase sem eu perceber mesmo.
Eu acho que uma das coisas que eu mais gosto de fazer é desenhar palavras. Acho que eu vivo rodeada de palavras. Então quando eu recebi esse convite, foi muito prazeroso sentar pra desenhar. Ainda mais de alguns autores e autoras que eu gosto muito.
Para mim, o processo de desenhar as estampas da coleção foi um processo de invenção de letra. Eu fiquei experimentando as infinitas formas que eu consigo desenhar as letras.
No meu processo com as palavras, gosto muito de, por exemplo, escrever com a mão esquerda, que é um jeito de descolar um pouco o automatismo que a gente pode ter com a palavra.
Eu também entendo que no meu processo a palavra é um desenho. Então poder experimentar as infinitas formas que você pode fazer a mesma palavra é quase que meu processo todos os dias. Eu acho que fazer essas estampas é uma coisa que eu já faço todos os dias, que é pensar nas possibilidades visuais que a gente pode dar pra palavra.
Eu entendo que a gente vive rodeado de palavras, o tempo inteiro. Então, isso de dar a ver a palavra, pra mim é um exercício. Ainda que a palavra seja sempre a mesma, eu acho que a gente está sempre reinventando a palavra. E pela via do desenho, pela via da escrita, acho que a gente faz isso.
A gente faz a palavra nascer a cada vez que a gente escreve.
As minhas duas avós costuravam e bordavam na juventude. Uma delas até bordava pra fora, como um jeito de ter alguma autonomia financeira. Então eu sempre tive isso presente. Na casa das minhas avós, sempre tinha o cantinho da máquina de costura e eu tenho uma tia que faz muito, como uma espécie de hobby, ela me ensinou quando eu era criança.
Quando eu entrei na faculdade de artes (estudei em Belo Horizonte) tinha uma linha de pesquisa de artes têxteis e eu experimentei alguma coisa, fiz alguns trabalhos de bordado. Mas o bordado entrou mesmo para dentro do meu trabalho durante a pandemia. Porque o bordado pede um tempo que não é o tempo da vida que a gente leva. Na pandemia a gente pôde ter um pouco mais de tempo e aí eu me reconectei.
O meu fazer artístico é muito colado na minha vida. Não é uma coisa que eu trabalho x horas no ateliê e depois eu vivo minha vida, as coisas são muito misturadas. E eu passei por um processo de luto na pandemia, meu pai faleceu e a única coisa que me era possível nessa época, era bordar. Aí eu comecei a bordar obsessivamente.
Na criação das estampas, quando vocês trazem essa imagem da pele do texto, faz muito sentido para mim e o meu processo de bordado. Essa coisa de você ter que passar letra por letra, eu acho que, provocada por essa imagem da pele do texto, eu chego numa outra imagem, que é pensar que as letras são os poros da palavra.
Eu gosto muito da Louise Bourgeois, que também tinha um trabalho de arte e texto, e ela fala muito da potência da agulha, isso dela ser uma ponta perfurante, né? Então o que é possível você fazer com essa ponta? E aí, quando eu tô bordando palavra, e pra fazer uma letra, eu tenho que fazer muitos furos no tecido, isso, pra mim, é uma coisa que faz muito sentido. É criar com essa materialidade. Então para mim a palavra é ponto e linha, que é o que o bordado oferece, né? Tudo no bordado você vai passar pelo ponto e pela linha. Então, eu acho que essa junção do bordado com a escrita fez muito sentido e é o que eu sigo fazendo. Eu falo que eu bordo pra escrever devagar.
Laura Berbert usa: Blusa Olívia Natural, Shorts Cila Natural e Chemise Beatriz Off White
Fotos: Camilla Loreta