Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
O #4 convidado do Nós da Teia é João Machado, artista multidisciplinar e meliponicultor, que há mais de 10 anos pesquisa as abelhas nativas do Brasil. Para o desfile que realizamos na SPFN N60, nossa trilha sonora composta por Bruno Fabbrini e Eddu Ferreira contou com a música bioacústica das abelhas nativas, cedida por João. Nos encontramos para bater um papo sobre a pesquisa artística e militância que norteia seu trabalho.
[F - A] João, sabemos que faz muitos anos que você pesquisa as abelhas sem ferrão, então conta um pouco essa história, de onde vem esse desejo, essa necessidade de unir a sua relação artística e estética, com a questão ambientalista.
JOÃO: Eu trabalho há 15 anos com as abelhas nativas do Brasil. Eu decidi montar meu ateliê aqui em Minas, em uma região de Visconde de Mauá, que fica no meio do caminho entre Rio de Janeiro e Minas Gerais.
E eu decidi montar o meu ateliê aqui porque eu queria ter uma relação mais próxima com a natureza, poder entender os ciclos da natureza, poder plantar os meus alimentos, conhecer um pouco desses saberes que não são acessíveis para nós que nascemos e fomos criados em cidades grandes. Eu sempre morei em cidades grandes, nasci no Rio, passei muitos anos na Europa, morei mais de 10 anos em Los Angeles, sou formado em cinema. E num determinado momento eu senti muito essa necessidade, como uma espécie de um chamado.
E eu vim pra cá sem conhecer muito desses processos, fui tateando, entrando em contato com vizinhos, com pessoas aqui da terra que me ensinaram. Muito trabalho de campo que eu fui colocando em prática e realmente me predispondo a me relacionar com esse lugar rural. Conheci as abelhas sem ferrão graças a um vizinho que me presenteou com uma caixa com enxame há 15 anos atrás, e comecei a me interessar por esse ser tão incrível, tão fundamental pra gente, responsável pela polinização. Fui estudando, descobri como são importantes as abelhas nativas, como elas são ameaçadas, a gente aqui no Brasil tem a maior biodiversidade de abelhas do mundo, são mais de 1.500 tipos de abelhas diferentes. Aquela abelha que tem ferrão, que pica, que a gente conhece e tem medo, ela é exótica, ela chegou nesse território aqui em 1700. Quer dizer, na linha do tempo desse território ela chegou agora. Porque as abelhas sem ferrão, não é nem que elas são responsáveis pelo território, elas são o território.

As abelhas nativas evoluíram junto com as nossas plantas há 130 milhões de anos, precisamente. Então, esse território se formou, em grande parte, nessa relação simbiótica entre flor e abelha. A gente, na nossa cultura, tem essa separação, essa distinção entre a flor e a abelha, mas elas são praticamente uma dança, uma simbiose. O encaixe entre uma abelha sem ferrão e as flores nativas é o encaixe perfeito.
Sem as nossas abelhas a gente não teria grande parte das plantas. O maracujá é um exemplo. Essa fruta que todo mundo conhece só pode ser polinizada por uma abelha sem ferrão, chamada mamangava, que é uma abelha grandona, peluda, linda. Inclusive, a mamangava é uma abelha solitária. A maioria das abelhas não vivem em sociedade, não produzem mel. A maioria das abelhas são solitárias, como a mamangava.
Das abelhas consideradas sociais, que produzem mel, a gente tem mais de 300 tipos. Desde abelhas grandes, grandonas, como a uruçu, que tem na Amazônia, até aqui em casa que eu crio também uma abelha chamada lambe-olhos, que é a menor abelha do mundo.
A lambe-olhos caberia na ponta da cabeça de um fósforo, umas cinco abelhinhas no espaço. E as arquiteturas dentro dos enxames são de uma beleza… São mundos muito preciosos. Virou um amor muito grande. Um encantamento muito grande por tudo, não só pela estética, pelas cores, pela importância, mas também isso desencadeou no meu trabalho de arte uma série de desdobramentos.
Por exemplo, eu tenho um trabalho já de três anos de mapeamento, onde eu reúno pessoas nas cidades e faço caminhadas coletivas chamadas Derivas, onde eu proponho caminhar pela cidade encontrando essas abelhas na cidade.
Eu já encontrei enxames de abelhas nativas em lugares muito inóspitos, onde a gente considera que não existe nenhum tipo de animal silvestre. E ali a gente encontra, às vezes, num poste, numa caixa de correio, numa fresta de um muro. Quer dizer, nessas frestas das cidades, das nossas sociedades tão egoístas, esses seres ainda resistem e insistem em fazer florestas.
Porque é isso que esses seres querem fazer, continuar, perpetuar a floresta. Então a gente encontra abelhas nativas nos centros urbanos, no Rio de Janeiro, já fizemos várias derivas, inclusive a última agora foi no Centro Cultural Helio Oiticica. A gente encontrou uma riqueza de abelhas nativas em Paraty, Inclusive uma abelha considerada muito mística, que é a abelha feiticeira, a única abelha que se tem registro de que possui o mel alucinógeno. Mel que é usado em alguns rituais indígenas para promover visões. E essa abelha estava lá, no meio da praça de Paraty.

Enfim, é um mundo enorme. As derivas foram um dos desdobramentos, esculturas, vídeo instalações, trabalhos com mel, com cera, muito vídeo mesmo. E o desdobramento sonoro, que é um dos braços desse desdobramento com as abelhas.
Esse desdobramento sonoro começou quando eu descobri, lendo artigos científicos, que as abelhas se comunicam por sons. Por dança e sons. E esses sons são muito sofisticados. Há, inclusive, um estudo científico recente onde foi descoberto uma comunicação sonora entre flores e abelhas. A abelha se comunica sonoramente, vibracionalmente com as flores e vice-versa. Por cargas magnéticas.
E também, como artista, como pesquisador, eu comecei a ver que existe muito pouco de estudo sobre os sons das abelhas nativas. Tem muita coisa da abelha com ferrão, que é a Apis mellifera, o seu nome científico, mas as abelhas nativas são muito pouco estudadas. Daí a gente corre o risco de perdê-las antes que a gente conheça todos os seus benefícios. Voltando ao som, elas produzem sons em vários lugares do corpo, principalmente no abdômen. Quando a gente pensa em som de abelha, a gente pensa num zumbido, aquilo é o som da asa. Só que elas produzem uma grande diversidade de outros sons. Alguns são produzidos só pela rainha.
Tem sons, por exemplo, que é chamado do zumbido das dez entre os biólogos. É um efeito muito curioso, que as abelhas, às dez horas da noite, emitem um som como um mantra, como um canto gregoriano. E todas elas se colocam em uníssono, produzindo esse canto que parecem vozes mesmo. É incrível.
Aí eu comecei a gravar esses sons, a catalogar, a comprar microfones ultrassônicos, porque algumas abelhas produzem sons que são acima da nossa capacidade de ouvir. Enfim, é uma pesquisa muito extensa, são muitos universos. E aí, essa ideia de fazer música com as abelhas, parte desse estudo, mas principalmente como uma maneira de trazer visibilidade para essas abelhas, tanto no lado do som, quanto nas esculturas.
As minhas esculturas são casas para abelhas em cerâmica. Então eu quero fazer com que o colecionador de arte, o comprador das minhas esculturas, passe a virar um criador de abelhas. Esse é o meu plano secreto. Usar a arte para criar criadores de abelhas.

[F - A] Você comentou que as abelhas se comunicam através desses sons pelo corpo todo e nós gostaríamos de saber sobre o seu diálogo pessoal com as abelhas. Das suas experiências nessa comunicação que você desenvolveu nesses anos de pesquisa. Gostaríamos que você descrevesse um pouco dessa linguagem que você mesmo criou, de escuta e percepção.
JOÃO: Ela começa com um lugar de muito respeito e de tentar pisar com o máximo de leveza possível na abordagem dessa relação. Porque eu vejo muito essa palavra “interespécies” sendo usada no campo das artes e muitas vezes eu sinto que tem uma mão do ser humano muito pesada ali. Sempre trolando e querendo impor de alguma forma o seu ponto de vista sobre aquela realidade.
Então, o meu caminho é um exercício de tentar escutar muito mais do que tudo. E é uma escuta mesmo. Dos sons, a observação, é o convívio, é se predispor a estar presente em diferentes climas, observar como elas se comportam no sol, quando está frio, os tamanhos que elas ocupam, porque cada abelha tem um tamanho diferente e é muito importante a gente observar onde essas abelhas ocorrem naturalmente. Tem abelhas que tem até o nome popular de pé de pau, porque elas colocam os ninhos bem na base de uma árvore. Outras fazem seus ninhos seus enxames lá no alto e não gostam de ficar dentro. Elas mesmo constroem as suas arquiteturas.
Então é só observar que está tudo ali. É observando que a gente consegue ver o que elas preferem e como a gente pode trabalhar em conjunto. Essa ideia de fazer casas para as abelhas não é uma coisa de domesticar, não é como um pássaro que você coloca numa gaiola. Até porque as abelhas não são domesticáveis, você não consegue ensinar uma abelha a fazer uma determinada coisa. Elas são completamente indomesticáveis.
É importante também dizer que são sociedades matriarcais e femininas. São sempre as abelhas que fazem toda a história. O zangão tem funções muito específicas, mas é uma sociedade matriarcal e é muito bonito de ver o cuidado que as abelhas tem quando nasce uma jovem abelha, como essa abelha tem funções dentro do enxame. Ela vive aproximadamente 105, são 3 ciclos de 30 a 35 dias, aproximadamente. Então na primeira fase ela está dentro de um casulo, depois ela eclode, e ela tem funções ali dentro, toda a sociedade ali está trabalhando para ensinar. E por último, no seu último ciclo ela voa. Quando a gente vê uma abelhinha visitando uma flor, ela está no seu último ciclo. Então tem toda uma maneira de ser, tem toda uma ordem ali que só observando e convivendo que a gente vai aprendendo.

[F - A] Como tem sido a recepção das pessoas tanto nas Derivas que você faz, quanto quando você leva o seu trabalho para o espaço tradicional da arte, pensando numa galeria, por exemplo? Como tem sido a recepção das pessoas com esses sons? Que tipo de reação, de experiência, você tem reparado nas pessoas?
JOÃO: Quando há uma conexão com o meu trabalho e com o som das abelhas, eu sinto que é um misto de encantamento e, por incrível que pareça, um certo reconhecimento. E eu gostaria de atribuir isso ao fato de que essas abelhas são parte desse território, formaram esse território e os povos que aqui vivem, que aqui viveram desde sempre e já se relacionavam com essas abelhas há milhões de anos, milênios. Por exemplo, os maias têm divindades para as abelhas de ferrão. Existem templos em Tulum, no México, erguidos para divindades abelhas sem ferrão. Os povos originários do nosso território aqui, de várias etnias, têm uma série de cosmologias, cosmovisões muito apuradas sobre a relação com esses seres, com os sons das abelhas.
Tem várias histórias sobre essas relações. Então, eu gosto de pensar que quando alguém escuta esses sons das abelhas, vai para algum lugar ali no subconsciente, numa memória, algo assim, além de nós, porque há um reconhecimento. São sons muito estranhos, mas ao mesmo tempo estranhamente familiares.
E as pessoas reagem com esse tipo de dualidade, eu sinto. Quando as pessoas nas Derivas se deparam com as abelhas nativas, eu me sinto muito feliz de proporcionar essa relação com algo dentro delas que também é algo de direito de todos nós. Esse isolamento que a gente sente nas grandes cidades, que não é por acaso, no sentido que tudo ali favorece uma agitação e uma coisa para o trabalho, que tem toda uma lógica, mas que nos distancia dessa nossa relação com outro tempo.
Então ver uma abelha e ver que existe essa vida silvestre, um animal silvestre em plena cidade, eu acho que ao mesmo tempo nos dá esperança, também nos coloca num lugar de responsabilidade, de achar que cuidar da natureza não é uma coisa para o indígena lá na aldeia, que é algo que a gente aqui também tem que fazer. Com atitudes conscientes, assim como o trabalho da Flavia e essa pesquisa do atingimento natural e de pensar a moda de uma maneira mais consciente.
FOTOS: João Machado, @joaomachadoarte
NÓS DA TEIA 04 _ JOÃO MACHADO E A MÚSICA BIOACÚSTICA DAS ABELHAS NATIVAS
Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
O #4 convidado do Nós da Teia é João Machado, artista multidisciplinar e meliponicultor, que há mais de 10 anos pesquisa as abelhas nativas do Brasil. Para o desfile que realizamos na SPFN N60, nossa trilha sonora composta por Bruno Fabbrini e Eddu Ferreira contou com a música bioacústica das abelhas nativas, cedida por João. Nos encontramos para bater um papo sobre a pesquisa artística e militância que norteia seu trabalho.
[F - A] João, sabemos que faz muitos anos que você pesquisa as abelhas sem ferrão, então conta um pouco essa história, de onde vem esse desejo, essa necessidade de unir a sua relação artística e estética, com a questão ambientalista.
JOÃO: Eu trabalho há 15 anos com as abelhas nativas do Brasil. Eu decidi montar meu ateliê aqui em Minas, em uma região de Visconde de Mauá, que fica no meio do caminho entre Rio de Janeiro e Minas Gerais.
E eu decidi montar o meu ateliê aqui porque eu queria ter uma relação mais próxima com a natureza, poder entender os ciclos da natureza, poder plantar os meus alimentos, conhecer um pouco desses saberes que não são acessíveis para nós que nascemos e fomos criados em cidades grandes. Eu sempre morei em cidades grandes, nasci no Rio, passei muitos anos na Europa, morei mais de 10 anos em Los Angeles, sou formado em cinema. E num determinado momento eu senti muito essa necessidade, como uma espécie de um chamado.
E eu vim pra cá sem conhecer muito desses processos, fui tateando, entrando em contato com vizinhos, com pessoas aqui da terra que me ensinaram. Muito trabalho de campo que eu fui colocando em prática e realmente me predispondo a me relacionar com esse lugar rural. Conheci as abelhas sem ferrão graças a um vizinho que me presenteou com uma caixa com enxame há 15 anos atrás, e comecei a me interessar por esse ser tão incrível, tão fundamental pra gente, responsável pela polinização. Fui estudando, descobri como são importantes as abelhas nativas, como elas são ameaçadas, a gente aqui no Brasil tem a maior biodiversidade de abelhas do mundo, são mais de 1.500 tipos de abelhas diferentes. Aquela abelha que tem ferrão, que pica, que a gente conhece e tem medo, ela é exótica, ela chegou nesse território aqui em 1700. Quer dizer, na linha do tempo desse território ela chegou agora. Porque as abelhas sem ferrão, não é nem que elas são responsáveis pelo território, elas são o território.
As abelhas nativas evoluíram junto com as nossas plantas há 130 milhões de anos, precisamente. Então, esse território se formou, em grande parte, nessa relação simbiótica entre flor e abelha. A gente, na nossa cultura, tem essa separação, essa distinção entre a flor e a abelha, mas elas são praticamente uma dança, uma simbiose. O encaixe entre uma abelha sem ferrão e as flores nativas é o encaixe perfeito.
Sem as nossas abelhas a gente não teria grande parte das plantas. O maracujá é um exemplo. Essa fruta que todo mundo conhece só pode ser polinizada por uma abelha sem ferrão, chamada mamangava, que é uma abelha grandona, peluda, linda. Inclusive, a mamangava é uma abelha solitária. A maioria das abelhas não vivem em sociedade, não produzem mel. A maioria das abelhas são solitárias, como a mamangava.
Das abelhas consideradas sociais, que produzem mel, a gente tem mais de 300 tipos. Desde abelhas grandes, grandonas, como a uruçu, que tem na Amazônia, até aqui em casa que eu crio também uma abelha chamada lambe-olhos, que é a menor abelha do mundo.
A lambe-olhos caberia na ponta da cabeça de um fósforo, umas cinco abelhinhas no espaço. E as arquiteturas dentro dos enxames são de uma beleza… São mundos muito preciosos. Virou um amor muito grande. Um encantamento muito grande por tudo, não só pela estética, pelas cores, pela importância, mas também isso desencadeou no meu trabalho de arte uma série de desdobramentos.
Por exemplo, eu tenho um trabalho já de três anos de mapeamento, onde eu reúno pessoas nas cidades e faço caminhadas coletivas chamadas Derivas, onde eu proponho caminhar pela cidade encontrando essas abelhas na cidade.
Eu já encontrei enxames de abelhas nativas em lugares muito inóspitos, onde a gente considera que não existe nenhum tipo de animal silvestre. E ali a gente encontra, às vezes, num poste, numa caixa de correio, numa fresta de um muro. Quer dizer, nessas frestas das cidades, das nossas sociedades tão egoístas, esses seres ainda resistem e insistem em fazer florestas.
Porque é isso que esses seres querem fazer, continuar, perpetuar a floresta. Então a gente encontra abelhas nativas nos centros urbanos, no Rio de Janeiro, já fizemos várias derivas, inclusive a última agora foi no Centro Cultural Helio Oiticica. A gente encontrou uma riqueza de abelhas nativas em Paraty, Inclusive uma abelha considerada muito mística, que é a abelha feiticeira, a única abelha que se tem registro de que possui o mel alucinógeno. Mel que é usado em alguns rituais indígenas para promover visões. E essa abelha estava lá, no meio da praça de Paraty.
Enfim, é um mundo enorme. As derivas foram um dos desdobramentos, esculturas, vídeo instalações, trabalhos com mel, com cera, muito vídeo mesmo. E o desdobramento sonoro, que é um dos braços desse desdobramento com as abelhas.
Esse desdobramento sonoro começou quando eu descobri, lendo artigos científicos, que as abelhas se comunicam por sons. Por dança e sons. E esses sons são muito sofisticados. Há, inclusive, um estudo científico recente onde foi descoberto uma comunicação sonora entre flores e abelhas. A abelha se comunica sonoramente, vibracionalmente com as flores e vice-versa. Por cargas magnéticas.
E também, como artista, como pesquisador, eu comecei a ver que existe muito pouco de estudo sobre os sons das abelhas nativas. Tem muita coisa da abelha com ferrão, que é a Apis mellifera, o seu nome científico, mas as abelhas nativas são muito pouco estudadas. Daí a gente corre o risco de perdê-las antes que a gente conheça todos os seus benefícios. Voltando ao som, elas produzem sons em vários lugares do corpo, principalmente no abdômen. Quando a gente pensa em som de abelha, a gente pensa num zumbido, aquilo é o som da asa. Só que elas produzem uma grande diversidade de outros sons. Alguns são produzidos só pela rainha.
Tem sons, por exemplo, que é chamado do zumbido das dez entre os biólogos. É um efeito muito curioso, que as abelhas, às dez horas da noite, emitem um som como um mantra, como um canto gregoriano. E todas elas se colocam em uníssono, produzindo esse canto que parecem vozes mesmo. É incrível.
Aí eu comecei a gravar esses sons, a catalogar, a comprar microfones ultrassônicos, porque algumas abelhas produzem sons que são acima da nossa capacidade de ouvir. Enfim, é uma pesquisa muito extensa, são muitos universos. E aí, essa ideia de fazer música com as abelhas, parte desse estudo, mas principalmente como uma maneira de trazer visibilidade para essas abelhas, tanto no lado do som, quanto nas esculturas.
As minhas esculturas são casas para abelhas em cerâmica. Então eu quero fazer com que o colecionador de arte, o comprador das minhas esculturas, passe a virar um criador de abelhas. Esse é o meu plano secreto. Usar a arte para criar criadores de abelhas.
[F - A] Você comentou que as abelhas se comunicam através desses sons pelo corpo todo e nós gostaríamos de saber sobre o seu diálogo pessoal com as abelhas. Das suas experiências nessa comunicação que você desenvolveu nesses anos de pesquisa. Gostaríamos que você descrevesse um pouco dessa linguagem que você mesmo criou, de escuta e percepção.
JOÃO: Ela começa com um lugar de muito respeito e de tentar pisar com o máximo de leveza possível na abordagem dessa relação. Porque eu vejo muito essa palavra “interespécies” sendo usada no campo das artes e muitas vezes eu sinto que tem uma mão do ser humano muito pesada ali. Sempre trolando e querendo impor de alguma forma o seu ponto de vista sobre aquela realidade.
Então, o meu caminho é um exercício de tentar escutar muito mais do que tudo. E é uma escuta mesmo. Dos sons, a observação, é o convívio, é se predispor a estar presente em diferentes climas, observar como elas se comportam no sol, quando está frio, os tamanhos que elas ocupam, porque cada abelha tem um tamanho diferente e é muito importante a gente observar onde essas abelhas ocorrem naturalmente. Tem abelhas que tem até o nome popular de pé de pau, porque elas colocam os ninhos bem na base de uma árvore. Outras fazem seus ninhos seus enxames lá no alto e não gostam de ficar dentro. Elas mesmo constroem as suas arquiteturas.
Então é só observar que está tudo ali. É observando que a gente consegue ver o que elas preferem e como a gente pode trabalhar em conjunto. Essa ideia de fazer casas para as abelhas não é uma coisa de domesticar, não é como um pássaro que você coloca numa gaiola. Até porque as abelhas não são domesticáveis, você não consegue ensinar uma abelha a fazer uma determinada coisa. Elas são completamente indomesticáveis.
É importante também dizer que são sociedades matriarcais e femininas. São sempre as abelhas que fazem toda a história. O zangão tem funções muito específicas, mas é uma sociedade matriarcal e é muito bonito de ver o cuidado que as abelhas tem quando nasce uma jovem abelha, como essa abelha tem funções dentro do enxame. Ela vive aproximadamente 105, são 3 ciclos de 30 a 35 dias, aproximadamente. Então na primeira fase ela está dentro de um casulo, depois ela eclode, e ela tem funções ali dentro, toda a sociedade ali está trabalhando para ensinar. E por último, no seu último ciclo ela voa. Quando a gente vê uma abelhinha visitando uma flor, ela está no seu último ciclo. Então tem toda uma maneira de ser, tem toda uma ordem ali que só observando e convivendo que a gente vai aprendendo.
[F - A] Como tem sido a recepção das pessoas tanto nas Derivas que você faz, quanto quando você leva o seu trabalho para o espaço tradicional da arte, pensando numa galeria, por exemplo? Como tem sido a recepção das pessoas com esses sons? Que tipo de reação, de experiência, você tem reparado nas pessoas?
JOÃO: Quando há uma conexão com o meu trabalho e com o som das abelhas, eu sinto que é um misto de encantamento e, por incrível que pareça, um certo reconhecimento. E eu gostaria de atribuir isso ao fato de que essas abelhas são parte desse território, formaram esse território e os povos que aqui vivem, que aqui viveram desde sempre e já se relacionavam com essas abelhas há milhões de anos, milênios. Por exemplo, os maias têm divindades para as abelhas de ferrão. Existem templos em Tulum, no México, erguidos para divindades abelhas sem ferrão. Os povos originários do nosso território aqui, de várias etnias, têm uma série de cosmologias, cosmovisões muito apuradas sobre a relação com esses seres, com os sons das abelhas.
Tem várias histórias sobre essas relações. Então, eu gosto de pensar que quando alguém escuta esses sons das abelhas, vai para algum lugar ali no subconsciente, numa memória, algo assim, além de nós, porque há um reconhecimento. São sons muito estranhos, mas ao mesmo tempo estranhamente familiares.
E as pessoas reagem com esse tipo de dualidade, eu sinto. Quando as pessoas nas Derivas se deparam com as abelhas nativas, eu me sinto muito feliz de proporcionar essa relação com algo dentro delas que também é algo de direito de todos nós. Esse isolamento que a gente sente nas grandes cidades, que não é por acaso, no sentido que tudo ali favorece uma agitação e uma coisa para o trabalho, que tem toda uma lógica, mas que nos distancia dessa nossa relação com outro tempo.
Então ver uma abelha e ver que existe essa vida silvestre, um animal silvestre em plena cidade, eu acho que ao mesmo tempo nos dá esperança, também nos coloca num lugar de responsabilidade, de achar que cuidar da natureza não é uma coisa para o indígena lá na aldeia, que é algo que a gente aqui também tem que fazer. Com atitudes conscientes, assim como o trabalho da Flavia e essa pesquisa do atingimento natural e de pensar a moda de uma maneira mais consciente.
FOTOS: João Machado, @joaomachadoarte