NÓS DA TEIA 05 _ CAMILA HONDA

NÓS DA TEIA 05 _ CAMILA HONDA

Nossa Teia é uma trama em expansão.

Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.

Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, a editoria, “Nós da Teia” é um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.

A #5 convidada do Nós da Teia é a multiartista Camila Honda. Ilustradora, cantora, arte-educadora e mãe. Nascida em Belém do Pará, seu trabalho reduz fronteiras entre linguagens artísticas e é fortemente inspirado pela natureza ao seu redor. Do encontro entre Flavia Aranha e Camila Honda, nasce AMAZÔNIA, o primeiro capítulo da coleção FLORESTA, estudo dos biomas a partir de plantas que dialogam com nossa identidade e pesquisa tintória.

Confira a entrevista completa com Camila!

[F - A] Pesquisando seu trabalho, vem muito forte esse cruzamento entre linguagens. Então a música, a dança, a ilustração… Como essas camadas foram se cruzando no seu processo artístico? Você sente que existe uma costura entre todas essas linguagens?
CAMILA:Acho que a costura sou eu mesma, né? Porque todos esses fazeres são indissociáveis da minha personalidade, do que dá sentido à minha vida, à minha existência. Eu comecei nas artes através da dança, comecei no balé desde pequenininha e isso foi o grande sonho da minha vida por muito tempo. Mas depois eu comecei a experimentar outras linguagens, ainda criança também. A fotografia, a ilustração… Eu cresci dentro de uma loja de decoração, meus pais tinham uma loja de decoração que cresceu junto comigo também. A gente fazia viagens para o interior do Brasil para conhecer as casas dos artesãos e trazer para Belém esse grande mix do que havia de melhor no artesanato brasileiro nos anos 80, 90. E eu fui crescendo dentro desse universo, todas essas referências que eu via da minha família dentro dessa loja, que era o lugar onde eu brincava com os trenzinhos dos artesãos de Minas, os chocolates do Rio Grande do Sul… Então tudo isso foi construindo o meu imaginário e me abrindo possibilidades do que eu também poderia fazer, me dando referências pra vida. Então, eu passei pela dança, depois trabalhei como designer de joias, passei pela fotografia, até que me formei em arquitetura e fui pra música. Tudo isso sempre esteve tão interligado que é difícil pra mim dizer “eu sou cantora ou eu sou ilustradora”, porque eu prefiro sempre dizer eu sou artista e deixar que essas linguagens estejam livres, ao meu alcance.

[F - A] A natureza é um tema muito presente no seu trabalho de ilustração. Como essa relação de observação se manifesta na sua criação? O que te toca mais profundamente nesse encontro entre o fazer artístico e o fazer da terra?
CAMILA: Eu acho que o meu trabalho artístico dá sentido à minha existência mesmo, sabe? Dá sentido à minha vida aqui nesse planeta. Então é o que eu vivo, a arte como expressão do meu ser está muito interligada com o que eu vivo no dia a dia, com o que eu imagino, com o que eu sonho, com o que eu quero. Eu finalmente encontrei um grande mote do meu trabalho como ilustradora, que é o desenho de natureza. Porque eu sempre gostei de desenhos muito detalhados, de longas sessões, longas horas e pra gente observar uma coisa por tanto tempo, a paixão tem que acontecer. Então, eu observo as plantas e me apaixono por elas. E é duro observar, né? Encontrar o que me chama atenção, naquela planta, naquele ser. Tentar perceber, tentar entender como funciona, como é que a raiz se comporta, como é que ela vai crescendo, como se comportam os galhos, as folhas, as flores, como brotam as flores e como é que eu vejo isso, né? E depois de observar por tantas horas uma planta, quando eu chego no papel, sempre tenho essa sensação de revelar, porque tudo já tá tão presente no meu imaginário. Tenho sempre a sensação de estar revelando no papel o que já está desenhado, de alguma maneira, no mundo das ideias. É uma relação muito íntima com a planta, às vezes é preciso tocar, preciso pegar, é preciso cheirar, é preciso ver. E sempre no sentido de registrar essa planta da melhor forma possível para que eu possa apresentá-la para uma comunidade, para a sociedade em geral. Então o meu desenho tem sempre o intuito de mostrar. O desenho leva a forma como eu vejo aquela planta, apresenta para outras pessoas. E aí isso se tornou uma grande paixão mesmo.

[F - A] Nos últimos meses você vem desenvolvendo um projeto de ilustração de plantas tintórias com a Flavia Aranha. Queria que você contasse um pouco sobre como tem sido esse processo para você!
CAMILA: Nossa, eu me apaixonei por cada planta! Realmente foram dias muito intensos, descobri uma complexidade incrível que me deixou fascinada. É engraçado porque a Flavia falou algumas vezes “ah, eu sei que a gente está escolhendo algumas plantas mais clichês e tal…”. E depois, num certo momento, eu falei “Flavia, parece clichê mas, na verdade, eu nunca vi o Guaraná. Eu moro na Amazônia e nunca vi o Guaraná com fruto.” Então às vezes a gente acha clichê, mas como é importante continuar registrando essas plantas, né? Nativas da Amazônia, que fazem parte da nossa cultura. Para que as pessoas possam conhecê-las e se interessar por elas. Quando eu estava desenhando o Guaraná, comecei a ver vários vídeos, com uma vontade enorme de consumir o Guaraná, de beber. Eu cresci bebendo Guaraná em forma de xarope ou em forma de pó industrializado, né? Aí eu fiquei desenhando, olhando tanto o Guaraná e uma vontade enorme de poder fazer isso de novo. Eu acho que se a gente apresenta as plantas, com toda a sua complexidade de detalhes,  isso pode despertar também o interesse das pessoas. Não só pelo desenho, mas por tudo o que está por trás dela. Pela planta de verdade.

[F - A] Lendo sobre sua trajetória, vi que você é paraense de nascença, com raízes japonesas e brasileiras, e que já viveu um tempo na Europa. Como esse percurso, atravessado por tantas paisagens e territórios, influencia a forma como você se relaciona com o seu lugar de origem e com as plantas nativas da Amazônia, tão presentes no seu trabalho? O que você sente que permanece como essência, mesmo diante da mudança de paisagens?


CAMILA: O meu avô é japonês, ele morava num sítio aqui em Belém, na periferia da cidade. Tinha um terreno onde ele plantou muitas árvores frutíferas e ele era realmente do campo. No Japão, ele também era da zona rural. Aqui nesse sítio, ele era apaixonado pela natureza da Amazônia, então ele plantou muitas árvores frutíferas e muitas plantas nativas também. Muitas árvores que fazem parte da nossa cultura, como a mangueira, que não é daqui, mas que já está completamente inserida no nosso dia a dia, como um sabor. Como a memória afetiva da cidade. Então meu avô era apaixonado por isso E eu acho que essa observação da natureza de forma tão profunda tem muito a ver com a minha relação com os meus avós, especialmente com meu avô japonês. Ele observava os pássaros, ele sabia imitar o canto dos pássaros, sabia chamar os pássaros. E meu avô era a pessoa que tinha tempo para estar comigo quando eu era criança. Tinha esse tempo para brincar, para me levar no quintal, para colher e comer as frutas comigo. Para cantar músicas japonesas. Tinha esse contexto de cuidar, da brincadeira na natureza, ir atrás dos bichinhos, brincar com as flores que caíam, colher na horta… Então eu acho que realmente tem esse ponto fundamental do meu fazer no desenho que me conecta com essa história. E aí, bom, eu sou de uma família de viajantes. Porque minha mãe tem ascendência portuguesa e meu pai tem ascendência japonesa. Esses lugares por onde eu morei, que realmente me ajudaram a construir a minha identidade, eles têm a ver com ancestralidade.

[F - A] Para terminar, li que para você desenhar é como sonhar. Com o que você tem sonhado enquanto desenha?
CAMILA: O meu sonho é um sonho coletivo de conservação do nosso bioma amazônico. O respeito pela natureza do mundo, do planeta. O entendimento da natureza não como recurso natural, como diz o Krenak, mas como nosso lugar. Nos entendermos como parte dela. Engraçado, eu não consigo me dizer “cantora, ilustradora…” É um pouco difícil pra mim porque essas separações acabam nos limitando muito e causando uma série de confusões. O Krenak fala dessa separação também, dessa ideia da natureza apartada da gente. Ela dá a sensação de que a gente não faz parte dela, então que isso comece a se misturar de novo. Assim como no livro da Hanna Limulja, “Mari hi - a árvore dos sonhos”, era preciso um sonho coletivo para conseguir afastar uma série de maldades sobre a terra. Eu acho que agora também é preciso um sonho coletivo e isso já está acontecendo. Eu acredito que a minha missão, através do desenho, através do fazer artístico, é também levar essa semente de olhar para a natureza de novo, nos entendendo como parte dela. Nós somos muito parecidos com a planta. Como nasce uma planta e como nasce um ser humano, porque todos nós somos seres vivos. Eu poderia fazer inúmeras analogias ao crescimento de uma planta com o crescimento de um ser humano, com a nossa vida. E eu espero que através dos meus desenhos, as pessoas possam fazer as suas próprias analogias. Que os meus desenhos possam florescer no imaginário das pessoas de forma positiva em relação à sua presença no mundo, em relação às suas vontades, aos seus cuidados.

Camila Honda veste camisetas Amazônia.

Voltar para Novidades