Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
As primeiras convidadas do Nós da Teia são Vânia e Suzana Aguiar, membros da diretoria da Rede Borborema de Agroecologia.

A Rede Borborema de Agroecologia é uma associação de agricultores familiares que se dedica a fortalecer a produção de alimentos e algodão agroecológicos na Paraíba. Um trabalho de organização social que busca o comércio justo e a partilha de saberes agroecológicos.
Confira a entrevista completa com Suzana e Vânia!
CONTA UM POUCO DA REDE BORBOREMA PRA GENTE? ONDE ELA NASCE?
SUZANA: A Rede Borborema nasceu em 2013. Mas a gente sempre fala que, na verdade, começou lá em 2004, com a associação local e os agricultores sempre muito engajados. Então já faz 20 anos do início do movimento da produção de algodão agroecológico, que era algo que todo mundo achava impossível. Nos anos 80, a praga do bicudo dizimou a cultura do algodão, então a retomada do algodão em si já parecia impossível.
Para a nossa região era muito difícil, mas em 2004, o agricultor José de Cinésio começou a produzir o algodão agroecológico, o algodão sem veneno. Aí em 2005 começaram os ensaios com a Embrapa Algodão, parceiros que nos ajudaram para que em 2006 começasse a produção do algodão orgânico.
Então foi o nosso primeiro contato com o algodão orgânico, que já foi certificado pelo IBD na época, porque a gente já tinha um trabalho agroecológico com as famílias, de se produzir com cuidado com a terra, com as pessoas e os animais.
A rede nasce da necessidade dos agricultores terem autonomia na sua produção e propriedade, porque pra gente acessar o mercado, precisávamos que o algodão fosse orgânico. Mas a certificação que a gente tinha era inviável financeiramente para os agricultores, já que tem ano que a gente produz muito algodão e tem ano que a gente não vai produzir quase nada.
A gente é de uma região bem seca e você vê que mesmo assim os agricultores estão produzindo sem irrigação, sem agroquímicos ou agrotóxicos, a base é literalmente a agricultura familiar.
Gosto muito de usar o termo das vivências agroecológicas, porque desde o início sempre foi sobre troca de saberes, saberes agroecológicos. Cada agricultor tinha a sua vivência e um começou a trocar experiência com o outro.
*Na imagem: Vânia
A CRISE CLIMÁTICA AFETA A TODOS, MAS AS PROPORÇÕES SÃO DESIGUAIS, COMO EM TUDO O QUE DIZ RESPEITO AO SISTEMA EM QUE VIVEMOS. COMO VOCÊS SENTEM O IMPACTO DESSE MOMENTO NO TRABALHO QUE REALIZAM?
VÂNIA: A crise climática afeta não só a vida do ser humano, mas também a vida dos animais e a vida em geral. Principalmente a gente que depende da chuva para produzir o nosso algodão de sequeiro, a gente acaba sofrendo bastante, a chuva está cada dia mais escassa. Antigamente a gente já sabia a época de plantar e de colher, hoje em dia a gente já não sabe mais.
A gente fica muito ameaçado com a chuva vir quando Deus quer, mas antigamente o agricultor já plantava sabendo a época certa de plantar e de colher, já sabia a época certa da chuva chegar. A questão climática está cada dia mais difícil para nós que trabalhamos com essa área.
São fatores que afetam muito o dia a dia dos agricultores, porque a gente não tem mais aquela certeza de quando vai chover ou não. Tem a questão das queimadas também, cada dia a gente vê que há muitas áreas, em muitos locais na Paraíba que têm incêndio. Aqui mesmo a gente acaba sofrendo, porque alguns locais em beira de pista pegam fogo, até mesmo por causa da temperatura que está muito alta. Isso afeta porque a fumaça prejudica muito o ser humano e a questão respiratória.

COMO VOCÊ VÊ MANIFESTADO NA ROTINA DA REDE BORBOREMA A FORÇA E VALOR DO TRABALHO DO AGRICULTOR?
SUZANA: Antes de tudo, o agricultor trabalha muito. O algodão é um ciclo de 121 dias, do plantio até a colheita. Mas antes disso tem todo um preparo do solo, planejamento, sacaria, beneficiamento, certificação, reuniões… Então é um contexto que não fica nos 120 dias, no ciclo da cultura em si.
Até o algodão se tornar um fio, até se tornar uma roupa, tem todo o trabalho das famílias. Um trabalho que é manual, cada sementezinha que é plantada, que a gente joga na terra e semeia, pra ela germinar, é manual. São inúmeras mãos para plantar e na colheita é a mesma coisa. Cada capulho [capulho é como se fosse o fruto do algodão], é colhido manualmente, um por um, e cada família sabe de todo o trabalho que faz.
A gente tem uma música de Luiz Gonzaga que os agricultores sempre cantam aqui. Fala sobre quando chega o tempo rico da colheita e o “trabalhador vendo a fartura se alegra”, que é justamente falando do algodão, é uma música que retrata bem a cultura da gente. Quando vocês quiserem sentir um pouco da vibração, escutem essa música, porque ela sempre nos acompanha nos roçados.
Na imagem: Suzana
EM NOSSO TRABALHO AQUI NA FLAVIA ARANHA, OLHAMOS MUITO PARA AS MULHERES QUE NOS ACOMPANHAM, DO FAZER AO VESTIR. VÂNIA, SABEMOS QUE AS MULHERES DO CAMPO SÃO FORÇA FUNDAMENTAL NA REDE BORBOREMA E QUE VOCÊ TEM UM PROJETO QUE OLHA DIRETAMENTE PARA ELAS. QUAL O IMPACTO DESSE TRABALHO NO DIA-A DIA?
VÂNIA: As mulheres na Rede Borborema de Agroecologia têm uma força fundamental. É um impacto muito grande, porque elas que estão diariamente nas reuniões, elas que estão diariamente dentro do roçado, elas que ajudam a desenvolver esse trabalho na nossa comunidade e na Rede Borborema de Agroecologia. A gente vê que cada dia mais elas se interessando em participar.
Antigamente, você só via homens na reunião. Hoje é uma realidade diferente. Então, a Rede começou a fortalecer esse laço com as mulheres, principalmente com os coletivos femininos, que têm dado uma força e incentivado as mulheres a participar mais das atividades da Rede.
E as mulheres dialogam, conversam, elas tomam decisões. Elas, para mim, são a força da Rede. Elas que estão trabalhando nos seus quintais produtivos, no coletivo feminino, na associação, na Rede Borborema, participando da Marcha das Mulheres que a gente tem aqui em Remígio.
A Marcha das Mulheres é um evento que a gente tem e que é fundamental para as mulheres também. A gente está envolvida em várias ações que têm não só na nossa comunidade, mas de modo geral. Então, elas são sim a fortaleza do nosso trabalho.
Com a Flavia, isso veio se fortalecendo. A Flavia teve um olhar para as mulheres. Quando ela começou a comprar o nosso algodão, ela teve aquele cuidado de vir nos conhecer. Lembro que o primeiro roçado que a Flavia conheceu foi o do coletivo feminino. Ela foi lá, conheceu as mulheres e também ajudou a gente a colher o algodão. Foi isso que fez eu mesma, como mulher, querer vender para a Flavia e querer participar desse grupo.
PENSANDO EM REGENERAÇÃO, COMO VOCÊS PERCEBEM A CONTRIBUIÇÃO DESSE TRABALHO PARA AS PESSOAS E O CAMPO?
SUZANA: A questão da Rede Borborema é que a gente trabalha a certificação, a parte social, o vínculo com as famílias, do empoderamento das mulheres, da juventude, a questão da saúde, do bem-estar, da preservação da terra.
As pessoas sempre falam da sustentabilidade, “ah, vamos cuidar do solo, da água”. Mas a gente esquece que tem que cuidar das pessoas, porque são as pessoas que vão cuidar de tudo isso.
Hoje em dia eu não gosto nem do termo “sustentabilidade”, porque o planeta não consegue mais se sustentar. A gente está numa luta para regenerar o planeta, mas se a gente não regenerar as pessoas, a gente não alcança o propósito de cura.
Então tem o trabalho muito forte que a gente faz com as famílias, empoderar as famílias, fazer com que elas permaneçam no campo, com qualidade de vida, com condição de comprar, chegar no fim do ano e comprar um brinquedo, comprar alguma coisa para os filhos, uma geladeira boa, uma televisão, porque as pessoas às vezes acham que a gente que é do campo não precisa, sabe?
Vale ressaltar que a gente não tem projeto financiado, então tudo que a gente faz de organização, dos grupos, de visitas, tudo somos nós agricultores que pagamos a anuidade, a arrecadação de 13%. Então a gente tem todo um trabalho, busca parceiros, mas a gente não tem nenhuma ajuda financeira.
Com isso a gente entende que os agricultores que estão na rede, estão pelo propósito de produzir o algodão, porque o algodão carrega toda uma ancestralidade. Eu sou a quinta geração de produtores de algodão da minha família, o algodão é enraizado aqui no Nordeste porque é uma planta muito resistente. Se você plantou o algodão, por mais que chova pouquíssimo. ele vai resistir. O algodão tem esse traço nordestino também, sabe? Enraizado.
Na imagem: Paulo Duarte
SUZANA, EM OUTRA CONVERSA VOCÊ MENCIONOU QUE O ALGODÃO É A SUA SEMENTE DA PAIXÃO. ACHAMOS FUNDAMENTAL PENSAR E RESGATAR ESSA CONEXÃO ANCESTRAL COM A TERRA. PODE NOS CONTAR MAIS SOBRE ESSA LIGAÇÃO COM O ALGODÃO E A RECUPERAÇÃO DOS SABERES TRADICIONAIS?
SUZANA: A gente chama isso de soberania. Primeiro, a gente busca nossa soberania alimentar, porque se a gente guarda a nossa semente de feijão, a nossa semente de fava, a gente vai ter a soberania de ter o feijão de todo santo dia no prato.
E a gente não fica à mercê de grandes empresas, como a Monsanto, a Bayer, que tem patente, né? Agora imagina a gente, pequeno produtor, como vai comprar a semente? Então não ficamos à mercê de comprar feijão caro no mercado. Depois dessa soberania alimentar, a gente vem à questão da soberania do campo, da gente ter a nossa semente no tempo certo de plantar. Então, se eu tenho uma semente, eu sei a origem dela, eu sei que ela não é uma semente transgênica, eu sei que ela é uma semente que não passou por nenhum processo químico.
Para vocês terem noção, quando a gente vai guardar a semente, a gente guarda com pimenta-do-reino, ou com a casca da laranja, ou com arruda, ou com a cinza. A gente sabe que isso vai preservar a nossa semente. Então todo agricultor tem o seu banco de sementes.
Aqui na Paraíba, a gente chama de semente crioula, semente da paixão porque cada agricultor vai ter sua paixão por uma semente. Tem paixão por todas, mas tem aquela que é a paixão dele.
No meu caso, a semente da paixão é o algodão. Já do meu pai, é muito forte a semente do milho, porque ele lembra do bisavô dele guardando a semente num filo de zinco e lacrando com sabão na borda.
E eu de ver meu pai com o algodão, acabei criando essa ligação tão forte, é uma questão de ancestralidade.
Então a semente do algodão, de milho, de feijão, de favo, de girassol, são todas lindíssimas. É uma lindeza de cores. A floração do algodão começa creme, amarelo, mas quando acontece a polinização, a fecundação, ele muda de cor, fica rosa.
Isso é um detalhe muito bonito da cultura do algodão. A natureza é muito sábia, então, para os polinizadores saberem que aquela planta já precisa ser visitada, ele vê que ela está com uma cor diferente. Quando ela está vermelha, rosinha, significa que foi fecundada e ele já vai procurar outra florzinha para polinizar. São detalhes que deixam esse processo tão rico

VÂNIA, PARA FINALIZAR, PODE FALAR UM POUCO DA IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR O AGRICULTOR, QUE TEM SE EMPENHADO NO TRABALHO COM O ALGODÃO AGROECOLÓGICO?
VÂNIA: A gente costuma dizer que o algodão agroecológico em si é o carro-chefe. O carro-chefe da nossa cultura, pra gente produzir. Porque a gente planta outras culturas, planta de forma consorciada, mas o algodão é a última colheita que a gente colhe, então costumamos dizer que é o nosso 13º, é algo que nos ajuda muito.
Os agricultores fortalecem o elo da cadeia produtiva, principalmente porque o agricultor, quando chega o final do ano, quando ele recebe o seu dinheiro, muitos já têm um destino. Muitos, às vezes, compram alguma coisa para casa. Às vezes, compram uma motinha para o filho andar ou para eles mesmos. Uma roupa. É algo que cada dia está se fortalecendo mais.
Para a gente é muito gratificante. É muito bom como associação, como mulher que produz, que faz acontecer, estar trabalhando, produzindo um produto que respeita o meio ambiente, que valoriza o trabalho da mulher, o trabalho dos jovens, o trabalho dos homens, que valoriza em geral.
Então, não é só a questão do preço, mas sim a questão do ser humano. A questão de você ter o respeito pelo agricultor, ter o respeito por quem trabalha, ter o respeito por quem produz. Porque se não for o agricultor estar no campo trabalhando, lutando, o Brasil não come. Então, o algodão trouxe isso para a nossa comunidade. Trouxe mais união, mais força, mais companheirismo.
Na imagem: Maria Nazaré Cruz
Fotos: Thiago Trajano
Conheça as peças de Tricot cujo algodão é fruto da parceria com a Rede Borborema de Agroecologia.
Nós da Teia #1 - Rede Borborema
Nossa Teia é uma trama em expansão.
Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos.
Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra.
As primeiras convidadas do Nós da Teia são Vânia e Suzana Aguiar, membros da diretoria da Rede Borborema de Agroecologia.
A Rede Borborema de Agroecologia é uma associação de agricultores familiares que se dedica a fortalecer a produção de alimentos e algodão agroecológicos na Paraíba. Um trabalho de organização social que busca o comércio justo e a partilha de saberes agroecológicos.
Confira a entrevista completa com Suzana e Vânia!
CONTA UM POUCO DA REDE BORBOREMA PRA GENTE? ONDE ELA NASCE?
SUZANA: A Rede Borborema nasceu em 2013. Mas a gente sempre fala que, na verdade, começou lá em 2004, com a associação local e os agricultores sempre muito engajados. Então já faz 20 anos do início do movimento da produção de algodão agroecológico, que era algo que todo mundo achava impossível. Nos anos 80, a praga do bicudo dizimou a cultura do algodão, então a retomada do algodão em si já parecia impossível.
Para a nossa região era muito difícil, mas em 2004, o agricultor José de Cinésio começou a produzir o algodão agroecológico, o algodão sem veneno. Aí em 2005 começaram os ensaios com a Embrapa Algodão, parceiros que nos ajudaram para que em 2006 começasse a produção do algodão orgânico.
Então foi o nosso primeiro contato com o algodão orgânico, que já foi certificado pelo IBD na época, porque a gente já tinha um trabalho agroecológico com as famílias, de se produzir com cuidado com a terra, com as pessoas e os animais.
A rede nasce da necessidade dos agricultores terem autonomia na sua produção e propriedade, porque pra gente acessar o mercado, precisávamos que o algodão fosse orgânico. Mas a certificação que a gente tinha era inviável financeiramente para os agricultores, já que tem ano que a gente produz muito algodão e tem ano que a gente não vai produzir quase nada.
A gente é de uma região bem seca e você vê que mesmo assim os agricultores estão produzindo sem irrigação, sem agroquímicos ou agrotóxicos, a base é literalmente a agricultura familiar.
Gosto muito de usar o termo das vivências agroecológicas, porque desde o início sempre foi sobre troca de saberes, saberes agroecológicos. Cada agricultor tinha a sua vivência e um começou a trocar experiência com o outro.
A CRISE CLIMÁTICA AFETA A TODOS, MAS AS PROPORÇÕES SÃO DESIGUAIS, COMO EM TUDO O QUE DIZ RESPEITO AO SISTEMA EM QUE VIVEMOS. COMO VOCÊS SENTEM O IMPACTO DESSE MOMENTO NO TRABALHO QUE REALIZAM?
VÂNIA: A crise climática afeta não só a vida do ser humano, mas também a vida dos animais e a vida em geral. Principalmente a gente que depende da chuva para produzir o nosso algodão de sequeiro, a gente acaba sofrendo bastante, a chuva está cada dia mais escassa. Antigamente a gente já sabia a época de plantar e de colher, hoje em dia a gente já não sabe mais.
A gente fica muito ameaçado com a chuva vir quando Deus quer, mas antigamente o agricultor já plantava sabendo a época certa de plantar e de colher, já sabia a época certa da chuva chegar. A questão climática está cada dia mais difícil para nós que trabalhamos com essa área.
São fatores que afetam muito o dia a dia dos agricultores, porque a gente não tem mais aquela certeza de quando vai chover ou não. Tem a questão das queimadas também, cada dia a gente vê que há muitas áreas, em muitos locais na Paraíba que têm incêndio. Aqui mesmo a gente acaba sofrendo, porque alguns locais em beira de pista pegam fogo, até mesmo por causa da temperatura que está muito alta. Isso afeta porque a fumaça prejudica muito o ser humano e a questão respiratória.
COMO VOCÊ VÊ MANIFESTADO NA ROTINA DA REDE BORBOREMA A FORÇA E VALOR DO TRABALHO DO AGRICULTOR?
SUZANA: Antes de tudo, o agricultor trabalha muito. O algodão é um ciclo de 121 dias, do plantio até a colheita. Mas antes disso tem todo um preparo do solo, planejamento, sacaria, beneficiamento, certificação, reuniões… Então é um contexto que não fica nos 120 dias, no ciclo da cultura em si.
Até o algodão se tornar um fio, até se tornar uma roupa, tem todo o trabalho das famílias. Um trabalho que é manual, cada sementezinha que é plantada, que a gente joga na terra e semeia, pra ela germinar, é manual. São inúmeras mãos para plantar e na colheita é a mesma coisa. Cada capulho [capulho é como se fosse o fruto do algodão], é colhido manualmente, um por um, e cada família sabe de todo o trabalho que faz.
A gente tem uma música de Luiz Gonzaga que os agricultores sempre cantam aqui. Fala sobre quando chega o tempo rico da colheita e o “trabalhador vendo a fartura se alegra”, que é justamente falando do algodão, é uma música que retrata bem a cultura da gente. Quando vocês quiserem sentir um pouco da vibração, escutem essa música, porque ela sempre nos acompanha nos roçados.
EM NOSSO TRABALHO AQUI NA FLAVIA ARANHA, OLHAMOS MUITO PARA AS MULHERES QUE NOS ACOMPANHAM, DO FAZER AO VESTIR. VÂNIA, SABEMOS QUE AS MULHERES DO CAMPO SÃO FORÇA FUNDAMENTAL NA REDE BORBOREMA E QUE VOCÊ TEM UM PROJETO QUE OLHA DIRETAMENTE PARA ELAS. QUAL O IMPACTO DESSE TRABALHO NO DIA-A DIA?
VÂNIA: As mulheres na Rede Borborema de Agroecologia têm uma força fundamental. É um impacto muito grande, porque elas que estão diariamente nas reuniões, elas que estão diariamente dentro do roçado, elas que ajudam a desenvolver esse trabalho na nossa comunidade e na Rede Borborema de Agroecologia. A gente vê que cada dia mais elas se interessando em participar.
Antigamente, você só via homens na reunião. Hoje é uma realidade diferente. Então, a Rede começou a fortalecer esse laço com as mulheres, principalmente com os coletivos femininos, que têm dado uma força e incentivado as mulheres a participar mais das atividades da Rede.
E as mulheres dialogam, conversam, elas tomam decisões. Elas, para mim, são a força da Rede. Elas que estão trabalhando nos seus quintais produtivos, no coletivo feminino, na associação, na Rede Borborema, participando da Marcha das Mulheres que a gente tem aqui em Remígio.
A Marcha das Mulheres é um evento que a gente tem e que é fundamental para as mulheres também. A gente está envolvida em várias ações que têm não só na nossa comunidade, mas de modo geral. Então, elas são sim a fortaleza do nosso trabalho.
Com a Flavia, isso veio se fortalecendo. A Flavia teve um olhar para as mulheres. Quando ela começou a comprar o nosso algodão, ela teve aquele cuidado de vir nos conhecer. Lembro que o primeiro roçado que a Flavia conheceu foi o do coletivo feminino. Ela foi lá, conheceu as mulheres e também ajudou a gente a colher o algodão. Foi isso que fez eu mesma, como mulher, querer vender para a Flavia e querer participar desse grupo.
PENSANDO EM REGENERAÇÃO, COMO VOCÊS PERCEBEM A CONTRIBUIÇÃO DESSE TRABALHO PARA AS PESSOAS E O CAMPO?
SUZANA: A questão da Rede Borborema é que a gente trabalha a certificação, a parte social, o vínculo com as famílias, do empoderamento das mulheres, da juventude, a questão da saúde, do bem-estar, da preservação da terra.
As pessoas sempre falam da sustentabilidade, “ah, vamos cuidar do solo, da água”. Mas a gente esquece que tem que cuidar das pessoas, porque são as pessoas que vão cuidar de tudo isso.
Hoje em dia eu não gosto nem do termo “sustentabilidade”, porque o planeta não consegue mais se sustentar. A gente está numa luta para regenerar o planeta, mas se a gente não regenerar as pessoas, a gente não alcança o propósito de cura.
Então tem o trabalho muito forte que a gente faz com as famílias, empoderar as famílias, fazer com que elas permaneçam no campo, com qualidade de vida, com condição de comprar, chegar no fim do ano e comprar um brinquedo, comprar alguma coisa para os filhos, uma geladeira boa, uma televisão, porque as pessoas às vezes acham que a gente que é do campo não precisa, sabe?
Vale ressaltar que a gente não tem projeto financiado, então tudo que a gente faz de organização, dos grupos, de visitas, tudo somos nós agricultores que pagamos a anuidade, a arrecadação de 13%. Então a gente tem todo um trabalho, busca parceiros, mas a gente não tem nenhuma ajuda financeira.
Com isso a gente entende que os agricultores que estão na rede, estão pelo propósito de produzir o algodão, porque o algodão carrega toda uma ancestralidade. Eu sou a quinta geração de produtores de algodão da minha família, o algodão é enraizado aqui no Nordeste porque é uma planta muito resistente. Se você plantou o algodão, por mais que chova pouquíssimo. ele vai resistir. O algodão tem esse traço nordestino também, sabe? Enraizado.
SUZANA, EM OUTRA CONVERSA VOCÊ MENCIONOU QUE O ALGODÃO É A SUA SEMENTE DA PAIXÃO. ACHAMOS FUNDAMENTAL PENSAR E RESGATAR ESSA CONEXÃO ANCESTRAL COM A TERRA. PODE NOS CONTAR MAIS SOBRE ESSA LIGAÇÃO COM O ALGODÃO E A RECUPERAÇÃO DOS SABERES TRADICIONAIS?
SUZANA: A gente chama isso de soberania. Primeiro, a gente busca nossa soberania alimentar, porque se a gente guarda a nossa semente de feijão, a nossa semente de fava, a gente vai ter a soberania de ter o feijão de todo santo dia no prato.
E a gente não fica à mercê de grandes empresas, como a Monsanto, a Bayer, que tem patente, né? Agora imagina a gente, pequeno produtor, como vai comprar a semente? Então não ficamos à mercê de comprar feijão caro no mercado. Depois dessa soberania alimentar, a gente vem à questão da soberania do campo, da gente ter a nossa semente no tempo certo de plantar. Então, se eu tenho uma semente, eu sei a origem dela, eu sei que ela não é uma semente transgênica, eu sei que ela é uma semente que não passou por nenhum processo químico.
Para vocês terem noção, quando a gente vai guardar a semente, a gente guarda com pimenta-do-reino, ou com a casca da laranja, ou com arruda, ou com a cinza. A gente sabe que isso vai preservar a nossa semente. Então todo agricultor tem o seu banco de sementes.
Aqui na Paraíba, a gente chama de semente crioula, semente da paixão porque cada agricultor vai ter sua paixão por uma semente. Tem paixão por todas, mas tem aquela que é a paixão dele.
No meu caso, a semente da paixão é o algodão. Já do meu pai, é muito forte a semente do milho, porque ele lembra do bisavô dele guardando a semente num filo de zinco e lacrando com sabão na borda.
E eu de ver meu pai com o algodão, acabei criando essa ligação tão forte, é uma questão de ancestralidade.
Então a semente do algodão, de milho, de feijão, de favo, de girassol, são todas lindíssimas. É uma lindeza de cores. A floração do algodão começa creme, amarelo, mas quando acontece a polinização, a fecundação, ele muda de cor, fica rosa.
Isso é um detalhe muito bonito da cultura do algodão. A natureza é muito sábia, então, para os polinizadores saberem que aquela planta já precisa ser visitada, ele vê que ela está com uma cor diferente. Quando ela está vermelha, rosinha, significa que foi fecundada e ele já vai procurar outra florzinha para polinizar. São detalhes que deixam esse processo tão rico
VÂNIA, PARA FINALIZAR, PODE FALAR UM POUCO DA IMPORTÂNCIA DE VALORIZAR O AGRICULTOR, QUE TEM SE EMPENHADO NO TRABALHO COM O ALGODÃO AGROECOLÓGICO?
VÂNIA: A gente costuma dizer que o algodão agroecológico em si é o carro-chefe. O carro-chefe da nossa cultura, pra gente produzir. Porque a gente planta outras culturas, planta de forma consorciada, mas o algodão é a última colheita que a gente colhe, então costumamos dizer que é o nosso 13º, é algo que nos ajuda muito.
Os agricultores fortalecem o elo da cadeia produtiva, principalmente porque o agricultor, quando chega o final do ano, quando ele recebe o seu dinheiro, muitos já têm um destino. Muitos, às vezes, compram alguma coisa para casa. Às vezes, compram uma motinha para o filho andar ou para eles mesmos. Uma roupa. É algo que cada dia está se fortalecendo mais.
Para a gente é muito gratificante. É muito bom como associação, como mulher que produz, que faz acontecer, estar trabalhando, produzindo um produto que respeita o meio ambiente, que valoriza o trabalho da mulher, o trabalho dos jovens, o trabalho dos homens, que valoriza em geral.
Então, não é só a questão do preço, mas sim a questão do ser humano. A questão de você ter o respeito pelo agricultor, ter o respeito por quem trabalha, ter o respeito por quem produz. Porque se não for o agricultor estar no campo trabalhando, lutando, o Brasil não come. Então, o algodão trouxe isso para a nossa comunidade. Trouxe mais união, mais força, mais companheirismo.
Fotos: Thiago Trajano
Conheça as peças de Tricot cujo algodão é fruto da parceria com a Rede Borborema de Agroecologia.