Nós da Teia #2 - Marqueson e a Marchetaria do Acre

Nós da Teia #2 - Marqueson e a Marchetaria do Acre

Nossa Teia é uma trama em expansão. 

Dentre a primeira conversa com artesãos e cooperativas de todo o Brasil, até a peça que chega na loja, tantas histórias embrenhadas no contorno dos processos. 

Do desejo de fazer visível o curso desse encontro, inauguramos nossa nova editoria, “Nós da Teia”, um convite a chegar mais perto de cada elo que compõe nosso mapa através da conversa entre imagem e palavra. 

O #2 convidado do Nós da Teia é Maqueson, artista criador da empresa Marchetaria do Acre, que assina nossa família de acessórios de marchetaria no Verão 25.

Maqueson Pereira da Silva (1958) nasceu e cresceu em meio aos seringais da floresta amazônica, às margens do rio Juruá (Porto Walter, Acre). Aos dezoito anos, teve seu primeiro contato com a marchetaria quando ingressou no seminário em Santa Catarina. 

É na floresta que Maqueson encontra sua inspiração e matéria-prima. Com a técnica que desenvolveu ao longo dos anos, utiliza lâminas de madeiras encontradas em rios e igarapés para contar histórias que retratam a fauna, a flora, as paisagens e os povos. Sem recorrer a tintas ou corantes, ele cria contrastes e profundidades a partir das cores naturais da madeira.   

Confira a entrevista completa com Maqueson!

Maqueson, de onde vem a sua história com a marchetaria?

Quando eu iniciei em 1977, eu não sabia que existia uma técnica que chamou-se marchetaria. Comecei pela marchetaria porque na realidade ela é uma evolução da marcenaria. Eu via meu pai trabalhando com madeiras, bem no meio da floresta onde eu vivi até os 18 anos, observava ele utilizando raízes, galhos reduzidos para fazer barros, violinos… E por não conseguir pintar para contar as minhas histórias, e estes dois mundos de cores e formas completamente diferentes: o mundo da floresta virgem, de onde uma vez eu saí; e o mundo dos grandes centros urbanos, no caso, São Paulo, eu encontrei uma forma de me expressar.

Aí eu que estive 18 anos na floresta, com uma vivência de floresta, senti uma necessidade de contar essas histórias, de falar para os meus amigos quando eu cheguei em São Paulo: “Eu sou caboclo e eu vi isso, eu vi aquilo, eu vi o galhão real, eu vi o peixe elétrico, que me marcou de maneira indelével. Eu vi a onça pintada e às vezes ela correu, às vezes eu tive que encarar…” e comecei assim, falando de fauna e flora.

Esse muro que divide, me trouxe uma vontade imensa de contar sobre o que eu já passei. Eu sempre gostei de associar essas duas coisas, esse contraste do antigo com o novo. De repente eu estou aqui, eu estou em São Paulo, ou em qualquer outro lugar do mundo. De repente, eu quero fazer o meu cantinho lá no meio da floresta. Onde eu ouço o Tucano cantar de tardezinha. E as aves, toda a fauna.

O tingimento natural é parte importante do processo que realizamos por aqui e também se aplica à forma que você trabalha a marchetaria. Como se dá o seu encontro com as cores?

Eu passei a utilizar essa pesquisa justamente quando iniciamos o trabalho voltado para a moda. Para pensar os estilos diferentes, é naturalmente necessário um colorido. E como resolver isto? Através das madeiras, através das pesquisas dos seus diferentes tipos. Eu estava agora há pouco mesmo, verificando outras maneiras de chegar nessas tonalidades que nós temos e que são muito comuns aqui na nossa região.

Agora nós temos um período de estiagem na minha região e que a maioria das árvores que ficaram ao longo dos rios, ou no leito dos rios, estão aparecendo. E isto traz uma coloração diferente. Por outro lado, a floresta toma também um colorido diferente, porque algumas árvores, por incrível que pareça, vêm florir justamente nessa época. Algumas flores começam a desaparecer enquanto outras se sobressaem.

Você olhando de cima, tem a impressão de estar num recife de corais. Tem todas essas coisas que eu acho encantador. Por exemplo, o Ipê, vem a florir mais ou menos nessa época. Às vezes um pouquinho mais cedo, que são as árvores mais densas. Algumas espécies animais também se reproduzem nessa época.

Há toda uma conspiração da própria floresta em si, para que nós tenhamos esse colorido conforme a época. Nós aqui temos madeiras vermelhas, por exemplo, que são as Muirapirangas. Ipiranga, aí em São Paulo. “Moira” é madeira, “piranga” é vermelha. Ipiranga: rios e barrancas vermelhas. Então, a nomenclatura vem direcionar onde estão determinadas cores de madeiras.

Você é uma referência na arte da marchetaria no Brasil. Como você observa a importância em manter viva a marchetaria e toda tradição envolvida nessa técnica?

Olha, primeiramente a marchetaria foi um pouco desconhecida aqui no Brasil. E nos países onde a tecnologia está mais avançada, digamos assim, isso quase se perdeu.

Porque o imediatismo, que é próprio e comum dos países chamados de primeiro mundo e onde a revolução industrial esteve mais presente, eles desenvolveram sistemas de produzir em larga escala com peças geométricas. Isso não atingiu um grande público. Ao passo que países onde a influência da revolução industrial não chegou com tanta imponência, onde o tempo parecia não existir, onde o tempo parecia não ser dinheiro ainda, a gente se dá o luxo de mergulhar e desenvolver peças manuais, cortando pedacinho por pedacinho, e aí que entra a marchetaria.

A marchetaria, no primeiro momento, foi bem rudimentar, foi rústica. A gente não tinha os avanços que tem agora, em que não se explorava, por exemplo, as raízes das árvores. Há uma outra técnica para conseguir retirar esse material, sem precisar derrubar uma árvore, por exemplo, mas aproveitando apenas aquilo que já está caído por ação do tempo e que um certo tempo também está, seja no leito dos rios ou no meio da floresta, recebendo algum tipo de umidade e que vem trazer uma tonalidade tal, uma fermentação dessas madeiras. 

A marchetaria é uma técnica que tem tendência a desaparecer. Então a partir disso eu criei um sonho dentro de mim: eu posso resgatar essa coisa. Esse acreditar, esse sonho acalentado, teve muito de um resgate. Porque ali eu mergulhei, criei uma empresa com a minha esposa, com a comunidade. Hoje nós somos um grupo de mais de 30 pessoas, um time já bem estruturado e fazer isso funcionar foi um grande aprendizado. 

Além da produção das peças em si, você comenta que a Marchetaria do Acre nasce do desejo de contribuir com o desenvolvimento do espaço em que você residia. Como você analisa o impacto positivo para as pessoas que capacitou através da oficina de marchetaria e que hoje integram a Marchetaria do Acre?

Nesse mundo dos centros urbanos que eu começo a habitar, tudo é muito diferente daquilo que eu vi e vivi. Por um primeiro momento, eu achava que toda a verdade estava no sul e sudeste, que tudo que era bom estava lá. 

Foi aí que eu comecei a perceber também que nós não tínhamos cabanas lá naquela região que eu circulava, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Eu começo a observar isso e a me sentir inferior. 

Então, o tempo vai passando e vem a necessidade de contar as minhas histórias, que eram tão diferentes daquilo que eu estava iniciando a viver no sul. As pessoas não se importavam muito e até ignoravam,por um momento eu comecei a me sentir inútil,eu queria falar, mas ficava falando sozinho. Eu não tinha voz. Uma das formas que encontrei foi pintar aquilo que eu vi e vivi, onças, animais da floresta, árvores da floresta amazônica… Por mais que eu gritasse, ninguém me ouvia.

À medida que eu começo a estudar filosofia e também aprender a profissão da marcenaria, me vem a necessidade de juntar esses elementos com algo que eu ainda não conhecia. É aí que descubro que existia uma técnica, uma arte e que se eu fosse para a Itália poderia aprender. 

Nós não tínhamos material didático, nem mesmo nas enciclopédias daquela época, da década de 1970 até 84, eu ainda não conhecia muita coisa de marchetaria, porque não tinha mesmo. A marchetaria para o Brasil era uma ilustre desconhecida. 

Esse primeiro momento foi de retorno, até eu estudar, voltar para o Acre e ter que voltar às minhas origens, às minhas raízes e me conscientizar que através desta técnica e desta arte eu poderia chegar em lugares que de uma forma natural eu jamais conseguiria. Eu conseguia me comunicar com as pessoas através das madeiras e isso me abriu portas também. 

Quando eu volto, venho com a filosofia de querer oferecer oportunidades para as pessoas que diziam não terem tido uma. Porque eu também venho do meio da floresta e eu percebi que para as pessoas de lá, não havia uma referência, uma escala de valores.

Então eu começo a ver as famílias esfaceladas quando migravam para a cidade. Eu busquei oferecer oportunidades para aquelas famílias que se perdiam pelos lícitos e os ilícitos. Foi aí que eu iniciei a primeira escola. Ensinando, também passando a minha formação humanística, com ética, com moral, com princípios básicos de higiene, uma série de fatores que tentavam resgatar essas famílias, fazer com que elas voltassem para as suas origens, para as suas raízes e saíssem daquele mundo. 

Foi ali que tudo começou, com essa iniciativa de querer oferecer oportunidades para os filhos e assim eu fui recuperando um e outro. Hoje são pais de família, são mães de família, que trabalham conosco, quase 40 pessoas.

Em nossa conversa você falou um pouco sobre o conceito de cosmovisão, da capacidade de olhar para a floresta e de fato ver. Sentir a floresta, se reconhecer como parte. Em suas criações, a floresta é inspiração, mas também matéria-prima. O que você tem enxergado quando se encontra com a floresta?

Isto acontece depois que eu retorno da Europa. Eu fui para a Europa, inicialmente para a Alemanha, estudei no liceu de artes e ofícios e de lá eu fui fazer um curso de arquitetura, um curso apenas, arquitetura da biologia, que nós não temos ainda no Brasil, até onde eu sei. Depois disso, eu fui para a cidade de Vinci, em Florença também. Lá acontecia um módulo de um curso de biomimética. Eu nunca tinha ouvido falar em biomimética, mas eles estavam precisando de uma pessoa que pudesse caracterizar uma floresta tropical equatorial e que conhecesse o meio e o habitante, que disso pudesse falar com propriedade. Eu era o único amazônida que estava naquela região, então me foi feita uma cortesia, porque era muito caro, eu nem tinha condições de frequentar. 

Então, estudando mais a fundo a biomimética, eu percebi que eu estava no grande celeiro onde eu poderia encontrar os elementos que eu precisava para contar as minhas histórias. E é aí que madeiras, rios, pássaros, rede vivos, borboletas, não nos encantam simplesmente, mas que recendem as madeiras do mundo todo, reunidas num único quadro. Como se cada pedaço, cada espécie fosse um pequeno quadro dentro de um todo. E este, eu acho que foi o princípio que utilizei durante toda a minha vida.

Hoje, mais ainda, porque cada dia aprendo mais coisa, aprendo a observar melhor a floresta, a sua diversidade, a sua biologia e o mimetismo dentro desta biologia, que é um fator de encantamento, de crescimento e de aperfeiçoamento.

Como foi o processo de criação em parceria com a Flavia Aranha?

Me sinto honrado por poder participar de um projeto como esse. Eu tenho como temática elementos muito ligados à floresta, então para mim foi interessante em vários aspectos. Primeiramente, no que diz respeito a pesquisas de material, de temas ligados ao bioma do qual eu faço parte, do qual eu saí uma vez. Foi praticamente voltar um pouco às minhas origens, raízes, à forma com que eu me expresso.

Os elementos utilizados são os mesmos daqui da região do Brasil. Uma hora voltada mais para a Mata Atlântica, outra hora voltada para o Pantanal, hora voltada para a Amazônia. As diferentes Amazônias. Se nós falamos em diferentes “Brasis”, então temos também as diferentes Amazônias.

E faço votos para que nós possamos alcançar um nível de clientes do outro lado, a altura daquilo que nós nos propomos. Que a Flavia propõe, que venha ao encontro daquilo que nós também almejamos alcançar.

Fotos: Maíra Santos

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