Patty Durães é a convidada da edição #30 do
Diálogos do Vestir.
Pesquisadora de culturas alimentares, Patty Durães (50 anos, São Paulo) dedica seu trabalho a investigar a presença das heranças afrodiáspóricas na culinária brasileira e os modos como memória, território e identidade atravessam aquilo que comemos. Ao longo dos últimos anos, desenvolveu projetos e pesquisas em instituições como o Masp, Itaú Cultural, Sesc, Senac e Sebrae. É autora do curso
Muito Além da Boca e foi palestrante do TEDx São Paulo. Em 2024, foi professora convidada da Dillard University, em New Orleans, para falar sobre comida brasileira.
Mas essa pesquisa começou muito antes de ganhar nome. Patty reconhece que, olhando para a própria linha do tempo, sempre foi uma pesquisadora de culturas alimentares. Desde criança, foi movida pela curiosidade diante dos lugares em que a comida organiza a vida cotidiana. Cozinhas, feiras, mercados, quitandas, vendinhas… Espaços onde aprendeu a observar hábitos, relações e histórias.
Mãe de Aniké e Ivy, Patty tornou-se avó de Jorge recentemente. Nos encontramos com ela e sua família em uma feira de rua em São Paulo para uma conversa sobre sua relação com o vestir, com os sabores e heranças que atravessam seu maternar, a comida e os caminhos que se abrem entre as gerações.
[F - A] Patty, como é a sua relação com o vestir?
PATTY DURÃES: A roupa pra mim é muito importante. Não somente a roupa, porque eu acho que vestir é um conjunto. O cabelo me veste, a minha pele me veste, os acessórios me vestem, a roupa me veste, a minha atitude também me veste, as minhas crenças me vestem. Eu sou tudo isso e eu acho que quando eu me visto, seja para estar em casa ou para sair, eu tô me preenchendo, me acolhendo.
Não só me cobrindo, porque não necessariamente a roupa é pra cobrir, mas eu tô me complementando com tudo isso. Com o tecido, com a cor, com a mensagem que a roupa carrega também. A roupa é um instrumento de comunicação. Quando a gente não tá se sentindo tão bem, tão glamourosa, tão gloriosa, tão brilhante, a gente escolhe uma roupa que também dá uma apagadinha. E quando a gente tá com o plexo solar super forte e preenchido, a gente quer que a roupa também transmita essa força que a gente tá sentindo por dentro.
E eu tenho uma coisa com as meninas, que às vezes elas perguntavam assim: “ah, que roupa eu coloco pra ir numa feira, pra ir numa farmácia, pra ir na casa da avó?” E eu sempre falo “vai bonita, vai bonita”. “Ah, mas eu só tô indo ali…”, “Vai ali bonita”. O ali também merece que você mostre a sua beleza. Eu sou uma pessoa que vê beleza na vida, vê beleza nas coisas. Eu tô sempre tentando ter uma atitude muito positiva diante de tudo, até quando as situações não são as mais legais. E eu penso: eu vou bonita. Eu vou bonita até para lidar com isso.
Ou se eu não sei para onde eu tô indo, não sei o que eu vou encontrar, então eu vou bonita paro o novo. Eu vou bonita para o inesperado. E o ir bonita não necessariamente é uma roupa de grife, de marca, ou estar montada. Às vezes uma camiseta de algodão, um short de algodão, uma calça. Isso já se vê muito bonito, né? Então eu tô sempre atenta.
[F - A] O que a comida te ensinou sobre o Brasil que talvez outras áreas não ensinaram?
PATTY DURÃES: A comida me ensina muito. Ainda mais eu que tenho a minha lente voltada pra comida da casa das pessoas, isso me interessa muito. Às vezes as pessoas falam “mas o que você quer ver aqui na minha casa? Não tenho nada de bonito pra te mostrar…” E aí eu falo, “como não? Olha a forma como você apresentou as frutas em cima da sua mesa, olha como tá bonito. Sabia que isso é retratado em obras que valem milhões e que estão nos museus? Essa beleza, ela é real e tá dentro da sua casa”.
Então a comida vem me ensinando a ser uma pessoa melhor, a ser uma mãe melhor, a ser uma amiga melhor, a ser uma mulher melhor pra mim, a ser uma profissional melhor para o mercado, para a sociedade, para os territórios onde eu adentro.
A comida vem me falando de aproveitamento integral, de não desperdício. Vem me falando sobre os biomas brasileiros. Ela vem me ensinando a olhar pro Brasil, não só para esse Brasil político que a gente aprende na escola de divisão dos estados, mas hoje eu divido os estados por ingredientes.
Eu divido os bairros de São Paulo por comidas. Eu colocaria a feijoada no bexiga, eu colocaria uma comida caudalosa no Bom Retiro, eu colocaria um sanduíche na Avenida Paulista. Então a comida também está me ensinando a olhar para os lugares e a aprender mais sobre esses tantos brasis. A gente não tem só um Brasil. O Brasil do tacacá é um, o Brasil do baião de dois é outro, o Brasil do açaí, da graviola, o Brasil da cebola roxa, o Brasil do coentro… São diferentes brasis e tudo isso é a comida que me ensina.
[F - A] Ao longo da sua trajetória, como você acha que a alimentação atravessou seu maternar? O que você herdou da forma que foi criada e o que vem compartilhando com suas filhas?
PATTY DURÃES: Eu venho de uma família muito grande, uma família de muitas mulheres, bem matriarcal, mas também uma família de homens que cozinham. O meu padrinho era cozinheiro de navio, da marinha. O meu pai é hoje um homem de 76 anos que cozinha. Eu tenho um primo que faz comida nas nossas festas e a minha família faz festa porque alguém vai cozinhar, não ao contrário. Acontece de fazer comida porque tem um aniversário, um batizado, um casamento… Mas na minha família o que acontece é da gente se juntar porque alguém vai fazer um cozido, vai fazer um vinagrete de mexilhão, vai fazer um arroz, uma galinhada.
Então essa minha paixão por comida vem da minha família. Eu fiz uma transição de carreira. Eu era da aviação civil, minha formação é em relações internacionais, eu era uma profissional bem-sucedida, que ganhava bem, tinha uma estrutura profissional muito boa, mas eu não tinha brilho nos olhos. E eu precisei sair dessa configuração, conversar com a minha essência, tentar descobrir por que a Patrícia criança era mais feliz do que aquela Patrícia adulta. E aí eu vejo a Patrícia criança correndo no quintal da avó, onde tudo girava em torno da cozinha. Eu cresci numa casa que era pequena e que tudo o que importava para a minha avó estava dentro da cozinha.
Então ela tinha o fogão, a geladeira, a pia, mas ela tinha a televisão, ela tinha o calendário na parede, ela tinha o rádio, ela tinha a máquina de costura, a máquina de lavar roupa, a tábua de passar, a mesa onde a gente sentava para comer, tudo.
A gente não precisava sair da cozinha para nada e nem queria. E é uma cozinha que hoje, quando eu entro lá, eu olho e falo “nossa, é tão pequena, como que a gente cabia todo mundo aqui dentro e dançando?” Porque é uma família que cozinha e que dança.
Então esse lugar da cozinha sempre foi um lugar de amor e de boas memórias para mim, diferente de muitas outras mulheres negras, que tem a cozinha como um lugar de dor. Porque foi uma porta de entrada profissional, entre muitas aspas, para muitas mulheres negras na sociedade brasileira.
Só que hoje a gente está voltando e eu espero que a gente volte cada vez mais para a cozinha, para cozinhar para as nossas famílias, para a gente viver mais, para a gente adoecer menos. E eu acredito piamente que a comida é o nosso remédio mais importante, que voltar para a cozinha, voltar a cozinhar para a gente, é a chave da longevidade, da saúde, é a chave da prosperidade. Quem se alimenta bem, adoece menos, morre mais tarde, tem tempo de vida produtivo, coeficiente intelectual muito maior do que quem se alimenta mal.
[F - A] Você criou mulheres e agora está vendo uma delas se tornar mãe. O que você tem aprendido sobre continuidade e transformação como avó?
PATTY DURÃES: Bom, passar tudo isso para elas, essa importância do alimento sempre foi primordial para mim. Então a gente gosta de acordar mais cedo para tomar café da manhã, a gente gosta de conversar na hora das refeições, a gente gosta de cozinhar junto. As duas cozinham muito bem.
Desde pequenininha já fui ensinando a cortar um pãozinho, cortar uma fruta, a ter uma certa autonomia, que eu acho muito importante: crianças que têm autonomia na cozinha e estão com fome, vão lá, pegam alguma coisa, fazem um sanduíche… Aprenderam a cozinhar com 13, 14 anos, já faziam arroz, mexiam com faca, mexiam com fogo. Só o feijão que acaba ficando para muito depois, porque todo mundo tem um certo medo de panela de pressão e esse medo é certo, né?
Então, a gente conversa muito sobre alimentação, embora cada uma tenha suas preferências. Para a Ivy, a conversa é diferente, porque ela gosta de um outro tipo de alimento, com a Aniké foi outro, também com seus desafios. E hoje eu vejo que ela superou os desafios de quando era criança, adolescente. Ela se alimenta muito bem, é casada com um homem vegetariano. Então, isso também acaba ampliando o repertório dela, já que ele também tem um repertório bastante ampliado para o universo vegetal.
E o Jorge, que é o meu netinho, filho da Aniké, está passando nesse momento pela introdução alimentar. Eu fico muito emocionada de ver a forma carinhosa que eles estão fazendo essa introdução alimentar, permitindo brincar, coisa que quando eu fui mãe era impossível.
Então, essa função lúdica do alimento, de pegar na mão, de se lambuzar, de se sujar, que não é se sujar, na verdade. Eu aprendi que estava suja e que isso não era permitido, até porque a minha educação foi mais rígida. “Com comida não se brinca”, tinha esse mantra. “Fecha a boca, não põe a mão na comida, não derruba, fica quietinho, não suja a sua roupa…” E agora, essa educação mais construtivista, esses métodos mais atuais de fazer a introdução alimentar são lindos, porque não tem nenhum tempero, não tem sal, não tem açúcar, não tem gordura. É o sabor da fruta, é o sabor do alimento, seja ele como for.
Então, o ácido precisa ser entendido como ácido, a gordura como gordura, o cítrico como cítrico, o doce como doce. Eu fico bastante emocionada de ver que essa minha forma de existir no mundo, que é pensar alimento como protagonista da vida, está sendo perpetuada. Isso não vai se acabar comigo, isso segue com a Aniké, isso segue com a Yvy e isso vai seguir com o Jorge.
[F - A] No nosso trabalho, a alimentação aparece de muitas formas: nos resíduos, nas matérias-primas, na agricultura familiar pelos territórios… Como você enxerga essa conexão entre a comida, a cultura e outros fazeres? O que a alimentação pode nos ensinar sobre formas mais integrais de cuidar da terra e dos ciclos?
PATTY DURÃES:Eu acredito muito que a alimentação seja uma das expressões mais completas da cultura, porque ela nunca existiu sozinha. Um prato carrega o território onde aqueles alimentos foram produzidos, o clima daquele território, técnicas, memórias de família, memórias do DNA das sementes, as relações de trabalho na produção, a relação da espiritualidade e também esses resíduos, né? Aquilo que vai sobrando e que revela tanto do que está no centro da mesa das famílias.
Então, quando a gente observa a comida com mais atenção, ela desmonta essa ideia de separação, de que as coisas não estão conectadas. Não tem alimento sem terra, não tem cozinha sem agricultura, não existe cultura sem pessoas, sem comunidades.
O alimento ensina pra gente que tudo está em relação e que romper essas relações é também romper muitos ciclos de cuidado. Aí pensando nos povos tradicionais, nas comunidades indígenas, quilombolas e nas comunidades rurais, os modos de fazer tradicionais dessas pessoas mostram caminhos muito potentes dessa relação. Porque o alimento ali não é só um recurso, ele é parte de um sistema vivo onde plantar, colher, preparar, descartar, são etapas igualmente importantes e muito conectadas.
O que a gente chama de resíduo, já foi ali entendido como continuidade, vai virar adubo depois, ou vira outro preparo, vira alimento para outros ciclos, para alimentação de animais, por exemplo. Então, a comida nos ensina sobre esse tempo da natureza que não é o tempo da urgência produtiva. Ali, com esses povos, com essas manualidades, a gente entende e respeita mais a sazonalidade, o ritmo da terra, a gente valoriza a diversidade desses ingredientes e entende que tudo isso são formas de cuidado que nascem da escuta dessas relações.
Um dos grandes ensinamentos da alimentação é esse, cuidar da terra, que é inevitavelmente cuidar das relações e das interconexões. E cuidar pode ser um gesto cotidiano de reconexão, a gente pode cozinhar pra se reconectar. Seja com território, com o nosso país, com quem produz, com quem come ou com todos esses ciclos que sustentam a nossa vida.
[F - A] Você já disse em uma entrevista que a indústria também movimenta sua economia a partir da fome. O que o nosso sistema alimentar revela sobre as desigualdades no Brasil hoje?
PATTY DURÃES: Quando eu falo que a indústria também se movimenta a partir da fome é porque ela expõe uma contradição que é estrutural. A fome não é ausência de produção, quando a gente olha para o Brasil, ela é a ausência de acesso. A gente vive num dos maiores produtores de alimento do mundo, mas isso não se traduz em comida no prato de todo mundo.
Tem uma engrenagem que transforma o alimento em commodity, que prioriza exportação, que concentra terra na mão de uma mesma configuração de pessoas, e que também concentra renda. Isso mantém a fome como parte de um próprio funcionamento desse sistema, é a manutenção do status quo, que se alimenta da fome. E o nosso sistema alimentar revela essas desigualdades tão profundas. Quem planta, muitas vezes, é quem menos acessa a renda, quem menos tem infraestrutura.
Na agricultura familiar, que sustenta a diversidade alimentar do nosso país, essas pessoas ainda enfrentam barreiras históricas de apoio, de crédito, de distribuição e não são reconhecidas. Ao mesmo tempo, na cidade, a alimentação de qualidade vira privilégio. A gente olha para São Paulo, o alimento fresco, in natura, comida de verdade, ela custa caro. Já os ultra processados estão cada vez mais acessíveis e isso vai moldando os hábitos alimentares da população, impactando na saúde, principalmente das populações mais vulneráveis, que também acreditam que o consumo de ultra processados é ascensão social e financeira.
Então quando eu digo que essa indústria movimenta a sua própria economia a partir da fome, é porque tem lucro tanto na escassez, quanto na precarização da alimentação. Seja explorando essas cadeias produtivas, seja ofertando alimento de baixa qualidade nutricional, a gente não pode nem chamar de alimento, a gente tem que chamar de produto alimentício, né? Que é essa solução barata para a população, para pessoas que tiveram o seu direito de escolha alimentar limitado.
Mas esse próprio sistema também revela caminhos de transformação, a gente pode fortalecer circuitos mais curtos de produção de alimento, valorizar quem produz, garantir políticas públicas de acesso a esses alimentos limpos, a essa comida de verdade e reconhecer a alimentação como direito, e não somente como mercadoria.
No fundo, a gente tem que olhar para o sistema alimentar com mais atenção, olhar para esse projeto de país que a gente está construindo, reconhecer que ele é profundamente desigual, que essa desigualdade também é nossa responsabilidade. E que esse é um campo de disputa, que pode ser um campo de reconstrução da gente enquanto comunidade, enquanto país, e reconstrução de hábitos alimentares. Eu tenho isso como uma missão pedagógica.
[F - A] Tem algum sabor, algum alimento que te remete imediatamente à sua ancestralidade? O que te eles te lembram?
PATTY DURÃES: Eu tenho vários, porque comida para a minha avó era um assunto seríssimo. Ela acordava pensando no almoço e fazendo o almoço ela já estava reclamando o que ia fazer para a janta. Então assim, era uma relação de amor e ódio, né? Tenho que cozinhar, mas já vou ter que cozinhar de novo.
Então assim, a geladeira da casa da minha avó sempre teve uma marinex oval com tampa, bem anos 80, com um feijão muito cremoso, muito clarinho, muito alhudo. Ninguém da minha família, nem eu, a gente não consegue reproduzir o feijão da minha avó, tamanha a peculiaridade daquele feijão, não só em sabor, mas em cor, em textura.
A minha mãe gostava de fazer nhoque do zero e molho de tomate. A tia Nana, que era a minha madrinha, fazia um pudim de leite que ela não tinha receita, nem medida, ela fazia de olho e ficava sempre muito alto. E ela falava “hoje é com furinho ou sem furinho?” A gente falava “sem furinho!” e assim saía. “Com furinho!” e assim saía. A gente pedia “tia Nana, dá receita”, “ah não sei, fica do meu lado e vai olhando”.
A minha avó também, ela pedia desculpa quando ela só tinha carne de segunda. A melhor carne da vida. Então, se eu pudesse comer um prato hoje, para lembrar dessa casa e da minha avó, seria arroz, feijão, catalônia refogada, carne de panela e um ovinho frito. Era um ovinho frito, numa frigideira surrada. Melhor ovo da vida.
Registros: Camilla Loreta
Patty Durães veste:Blusa Modal Ampla Sofia Areia, Calça Modal Emma Areia, Blusa Seda Ana Impressão Botânica Cebola Roxa, Calça Seda Emma Impressão Botânica Cebola Roxa, Camisa Modal Aruna Lilás, Bermuda Modal Ampla Aruna Lilás, Colar Aranha, Anel Aranha e Rasteira Cetim Impressão Botânica Urucum
Aniké veste: Regata Modal Canaletas Íris Marrom, Calça Modal Canaletas Íris Marrom, Colar Milho Crioulo, Rasteira Cetim Impressão Botânica Araucária
Ivy veste: Camiseta Flavia Aranha + Greenpeace, Shorts Linho Flavia Off White, Scrunchie Seda Impressão Botânica Araucária e Rasteira Cetim Impressão Botânica Araucária
Patty Durães _ Diálogos do Vestir #30
Pesquisadora de culturas alimentares, Patty Durães (50 anos, São Paulo) dedica seu trabalho a investigar a presença das heranças afrodiáspóricas na culinária brasileira e os modos como memória, território e identidade atravessam aquilo que comemos. Ao longo dos últimos anos, desenvolveu projetos e pesquisas em instituições como o Masp, Itaú Cultural, Sesc, Senac e Sebrae. É autora do curso Muito Além da Boca e foi palestrante do TEDx São Paulo. Em 2024, foi professora convidada da Dillard University, em New Orleans, para falar sobre comida brasileira.
Mas essa pesquisa começou muito antes de ganhar nome. Patty reconhece que, olhando para a própria linha do tempo, sempre foi uma pesquisadora de culturas alimentares. Desde criança, foi movida pela curiosidade diante dos lugares em que a comida organiza a vida cotidiana. Cozinhas, feiras, mercados, quitandas, vendinhas… Espaços onde aprendeu a observar hábitos, relações e histórias.
Mãe de Aniké e Ivy, Patty tornou-se avó de Jorge recentemente. Nos encontramos com ela e sua família em uma feira de rua em São Paulo para uma conversa sobre sua relação com o vestir, com os sabores e heranças que atravessam seu maternar, a comida e os caminhos que se abrem entre as gerações.
[F - A] Patty, como é a sua relação com o vestir?
PATTY DURÃES: A roupa pra mim é muito importante. Não somente a roupa, porque eu acho que vestir é um conjunto. O cabelo me veste, a minha pele me veste, os acessórios me vestem, a roupa me veste, a minha atitude também me veste, as minhas crenças me vestem. Eu sou tudo isso e eu acho que quando eu me visto, seja para estar em casa ou para sair, eu tô me preenchendo, me acolhendo.
Não só me cobrindo, porque não necessariamente a roupa é pra cobrir, mas eu tô me complementando com tudo isso. Com o tecido, com a cor, com a mensagem que a roupa carrega também. A roupa é um instrumento de comunicação. Quando a gente não tá se sentindo tão bem, tão glamourosa, tão gloriosa, tão brilhante, a gente escolhe uma roupa que também dá uma apagadinha. E quando a gente tá com o plexo solar super forte e preenchido, a gente quer que a roupa também transmita essa força que a gente tá sentindo por dentro.
E eu tenho uma coisa com as meninas, que às vezes elas perguntavam assim: “ah, que roupa eu coloco pra ir numa feira, pra ir numa farmácia, pra ir na casa da avó?” E eu sempre falo “vai bonita, vai bonita”. “Ah, mas eu só tô indo ali…”, “Vai ali bonita”. O ali também merece que você mostre a sua beleza. Eu sou uma pessoa que vê beleza na vida, vê beleza nas coisas. Eu tô sempre tentando ter uma atitude muito positiva diante de tudo, até quando as situações não são as mais legais. E eu penso: eu vou bonita. Eu vou bonita até para lidar com isso.
Ou se eu não sei para onde eu tô indo, não sei o que eu vou encontrar, então eu vou bonita paro o novo. Eu vou bonita para o inesperado. E o ir bonita não necessariamente é uma roupa de grife, de marca, ou estar montada. Às vezes uma camiseta de algodão, um short de algodão, uma calça. Isso já se vê muito bonito, né? Então eu tô sempre atenta.
[F - A] O que a comida te ensinou sobre o Brasil que talvez outras áreas não ensinaram?
PATTY DURÃES: A comida me ensina muito. Ainda mais eu que tenho a minha lente voltada pra comida da casa das pessoas, isso me interessa muito. Às vezes as pessoas falam “mas o que você quer ver aqui na minha casa? Não tenho nada de bonito pra te mostrar…” E aí eu falo, “como não? Olha a forma como você apresentou as frutas em cima da sua mesa, olha como tá bonito. Sabia que isso é retratado em obras que valem milhões e que estão nos museus? Essa beleza, ela é real e tá dentro da sua casa”.
Então a comida vem me ensinando a ser uma pessoa melhor, a ser uma mãe melhor, a ser uma amiga melhor, a ser uma mulher melhor pra mim, a ser uma profissional melhor para o mercado, para a sociedade, para os territórios onde eu adentro.
A comida vem me falando de aproveitamento integral, de não desperdício. Vem me falando sobre os biomas brasileiros. Ela vem me ensinando a olhar pro Brasil, não só para esse Brasil político que a gente aprende na escola de divisão dos estados, mas hoje eu divido os estados por ingredientes.
Eu divido os bairros de São Paulo por comidas. Eu colocaria a feijoada no bexiga, eu colocaria uma comida caudalosa no Bom Retiro, eu colocaria um sanduíche na Avenida Paulista. Então a comida também está me ensinando a olhar para os lugares e a aprender mais sobre esses tantos brasis. A gente não tem só um Brasil. O Brasil do tacacá é um, o Brasil do baião de dois é outro, o Brasil do açaí, da graviola, o Brasil da cebola roxa, o Brasil do coentro… São diferentes brasis e tudo isso é a comida que me ensina.
[F - A] Ao longo da sua trajetória, como você acha que a alimentação atravessou seu maternar? O que você herdou da forma que foi criada e o que vem compartilhando com suas filhas?
PATTY DURÃES: Eu venho de uma família muito grande, uma família de muitas mulheres, bem matriarcal, mas também uma família de homens que cozinham. O meu padrinho era cozinheiro de navio, da marinha. O meu pai é hoje um homem de 76 anos que cozinha. Eu tenho um primo que faz comida nas nossas festas e a minha família faz festa porque alguém vai cozinhar, não ao contrário. Acontece de fazer comida porque tem um aniversário, um batizado, um casamento… Mas na minha família o que acontece é da gente se juntar porque alguém vai fazer um cozido, vai fazer um vinagrete de mexilhão, vai fazer um arroz, uma galinhada.
Então essa minha paixão por comida vem da minha família. Eu fiz uma transição de carreira. Eu era da aviação civil, minha formação é em relações internacionais, eu era uma profissional bem-sucedida, que ganhava bem, tinha uma estrutura profissional muito boa, mas eu não tinha brilho nos olhos. E eu precisei sair dessa configuração, conversar com a minha essência, tentar descobrir por que a Patrícia criança era mais feliz do que aquela Patrícia adulta. E aí eu vejo a Patrícia criança correndo no quintal da avó, onde tudo girava em torno da cozinha. Eu cresci numa casa que era pequena e que tudo o que importava para a minha avó estava dentro da cozinha.
Então ela tinha o fogão, a geladeira, a pia, mas ela tinha a televisão, ela tinha o calendário na parede, ela tinha o rádio, ela tinha a máquina de costura, a máquina de lavar roupa, a tábua de passar, a mesa onde a gente sentava para comer, tudo.
A gente não precisava sair da cozinha para nada e nem queria. E é uma cozinha que hoje, quando eu entro lá, eu olho e falo “nossa, é tão pequena, como que a gente cabia todo mundo aqui dentro e dançando?” Porque é uma família que cozinha e que dança.
Então esse lugar da cozinha sempre foi um lugar de amor e de boas memórias para mim, diferente de muitas outras mulheres negras, que tem a cozinha como um lugar de dor. Porque foi uma porta de entrada profissional, entre muitas aspas, para muitas mulheres negras na sociedade brasileira.
Só que hoje a gente está voltando e eu espero que a gente volte cada vez mais para a cozinha, para cozinhar para as nossas famílias, para a gente viver mais, para a gente adoecer menos. E eu acredito piamente que a comida é o nosso remédio mais importante, que voltar para a cozinha, voltar a cozinhar para a gente, é a chave da longevidade, da saúde, é a chave da prosperidade. Quem se alimenta bem, adoece menos, morre mais tarde, tem tempo de vida produtivo, coeficiente intelectual muito maior do que quem se alimenta mal.
[F - A] Você criou mulheres e agora está vendo uma delas se tornar mãe. O que você tem aprendido sobre continuidade e transformação como avó?
PATTY DURÃES: Bom, passar tudo isso para elas, essa importância do alimento sempre foi primordial para mim. Então a gente gosta de acordar mais cedo para tomar café da manhã, a gente gosta de conversar na hora das refeições, a gente gosta de cozinhar junto. As duas cozinham muito bem.
Desde pequenininha já fui ensinando a cortar um pãozinho, cortar uma fruta, a ter uma certa autonomia, que eu acho muito importante: crianças que têm autonomia na cozinha e estão com fome, vão lá, pegam alguma coisa, fazem um sanduíche… Aprenderam a cozinhar com 13, 14 anos, já faziam arroz, mexiam com faca, mexiam com fogo. Só o feijão que acaba ficando para muito depois, porque todo mundo tem um certo medo de panela de pressão e esse medo é certo, né?
Então, a gente conversa muito sobre alimentação, embora cada uma tenha suas preferências. Para a Ivy, a conversa é diferente, porque ela gosta de um outro tipo de alimento, com a Aniké foi outro, também com seus desafios. E hoje eu vejo que ela superou os desafios de quando era criança, adolescente. Ela se alimenta muito bem, é casada com um homem vegetariano. Então, isso também acaba ampliando o repertório dela, já que ele também tem um repertório bastante ampliado para o universo vegetal.
E o Jorge, que é o meu netinho, filho da Aniké, está passando nesse momento pela introdução alimentar. Eu fico muito emocionada de ver a forma carinhosa que eles estão fazendo essa introdução alimentar, permitindo brincar, coisa que quando eu fui mãe era impossível.
Então, essa função lúdica do alimento, de pegar na mão, de se lambuzar, de se sujar, que não é se sujar, na verdade. Eu aprendi que estava suja e que isso não era permitido, até porque a minha educação foi mais rígida. “Com comida não se brinca”, tinha esse mantra. “Fecha a boca, não põe a mão na comida, não derruba, fica quietinho, não suja a sua roupa…” E agora, essa educação mais construtivista, esses métodos mais atuais de fazer a introdução alimentar são lindos, porque não tem nenhum tempero, não tem sal, não tem açúcar, não tem gordura. É o sabor da fruta, é o sabor do alimento, seja ele como for.
Então, o ácido precisa ser entendido como ácido, a gordura como gordura, o cítrico como cítrico, o doce como doce. Eu fico bastante emocionada de ver que essa minha forma de existir no mundo, que é pensar alimento como protagonista da vida, está sendo perpetuada. Isso não vai se acabar comigo, isso segue com a Aniké, isso segue com a Yvy e isso vai seguir com o Jorge.
[F - A] No nosso trabalho, a alimentação aparece de muitas formas: nos resíduos, nas matérias-primas, na agricultura familiar pelos territórios… Como você enxerga essa conexão entre a comida, a cultura e outros fazeres? O que a alimentação pode nos ensinar sobre formas mais integrais de cuidar da terra e dos ciclos?
PATTY DURÃES:Eu acredito muito que a alimentação seja uma das expressões mais completas da cultura, porque ela nunca existiu sozinha. Um prato carrega o território onde aqueles alimentos foram produzidos, o clima daquele território, técnicas, memórias de família, memórias do DNA das sementes, as relações de trabalho na produção, a relação da espiritualidade e também esses resíduos, né? Aquilo que vai sobrando e que revela tanto do que está no centro da mesa das famílias.
Então, quando a gente observa a comida com mais atenção, ela desmonta essa ideia de separação, de que as coisas não estão conectadas. Não tem alimento sem terra, não tem cozinha sem agricultura, não existe cultura sem pessoas, sem comunidades.
O alimento ensina pra gente que tudo está em relação e que romper essas relações é também romper muitos ciclos de cuidado. Aí pensando nos povos tradicionais, nas comunidades indígenas, quilombolas e nas comunidades rurais, os modos de fazer tradicionais dessas pessoas mostram caminhos muito potentes dessa relação. Porque o alimento ali não é só um recurso, ele é parte de um sistema vivo onde plantar, colher, preparar, descartar, são etapas igualmente importantes e muito conectadas.
O que a gente chama de resíduo, já foi ali entendido como continuidade, vai virar adubo depois, ou vira outro preparo, vira alimento para outros ciclos, para alimentação de animais, por exemplo. Então, a comida nos ensina sobre esse tempo da natureza que não é o tempo da urgência produtiva. Ali, com esses povos, com essas manualidades, a gente entende e respeita mais a sazonalidade, o ritmo da terra, a gente valoriza a diversidade desses ingredientes e entende que tudo isso são formas de cuidado que nascem da escuta dessas relações.
Um dos grandes ensinamentos da alimentação é esse, cuidar da terra, que é inevitavelmente cuidar das relações e das interconexões. E cuidar pode ser um gesto cotidiano de reconexão, a gente pode cozinhar pra se reconectar. Seja com território, com o nosso país, com quem produz, com quem come ou com todos esses ciclos que sustentam a nossa vida.
[F - A] Você já disse em uma entrevista que a indústria também movimenta sua economia a partir da fome. O que o nosso sistema alimentar revela sobre as desigualdades no Brasil hoje?
PATTY DURÃES: Quando eu falo que a indústria também se movimenta a partir da fome é porque ela expõe uma contradição que é estrutural. A fome não é ausência de produção, quando a gente olha para o Brasil, ela é a ausência de acesso. A gente vive num dos maiores produtores de alimento do mundo, mas isso não se traduz em comida no prato de todo mundo.
Tem uma engrenagem que transforma o alimento em commodity, que prioriza exportação, que concentra terra na mão de uma mesma configuração de pessoas, e que também concentra renda. Isso mantém a fome como parte de um próprio funcionamento desse sistema, é a manutenção do status quo, que se alimenta da fome. E o nosso sistema alimentar revela essas desigualdades tão profundas. Quem planta, muitas vezes, é quem menos acessa a renda, quem menos tem infraestrutura.
Na agricultura familiar, que sustenta a diversidade alimentar do nosso país, essas pessoas ainda enfrentam barreiras históricas de apoio, de crédito, de distribuição e não são reconhecidas. Ao mesmo tempo, na cidade, a alimentação de qualidade vira privilégio. A gente olha para São Paulo, o alimento fresco, in natura, comida de verdade, ela custa caro. Já os ultra processados estão cada vez mais acessíveis e isso vai moldando os hábitos alimentares da população, impactando na saúde, principalmente das populações mais vulneráveis, que também acreditam que o consumo de ultra processados é ascensão social e financeira.
Então quando eu digo que essa indústria movimenta a sua própria economia a partir da fome, é porque tem lucro tanto na escassez, quanto na precarização da alimentação. Seja explorando essas cadeias produtivas, seja ofertando alimento de baixa qualidade nutricional, a gente não pode nem chamar de alimento, a gente tem que chamar de produto alimentício, né? Que é essa solução barata para a população, para pessoas que tiveram o seu direito de escolha alimentar limitado.
Mas esse próprio sistema também revela caminhos de transformação, a gente pode fortalecer circuitos mais curtos de produção de alimento, valorizar quem produz, garantir políticas públicas de acesso a esses alimentos limpos, a essa comida de verdade e reconhecer a alimentação como direito, e não somente como mercadoria.
No fundo, a gente tem que olhar para o sistema alimentar com mais atenção, olhar para esse projeto de país que a gente está construindo, reconhecer que ele é profundamente desigual, que essa desigualdade também é nossa responsabilidade. E que esse é um campo de disputa, que pode ser um campo de reconstrução da gente enquanto comunidade, enquanto país, e reconstrução de hábitos alimentares. Eu tenho isso como uma missão pedagógica.
[F - A] Tem algum sabor, algum alimento que te remete imediatamente à sua ancestralidade? O que te eles te lembram?
PATTY DURÃES: Eu tenho vários, porque comida para a minha avó era um assunto seríssimo. Ela acordava pensando no almoço e fazendo o almoço ela já estava reclamando o que ia fazer para a janta. Então assim, era uma relação de amor e ódio, né? Tenho que cozinhar, mas já vou ter que cozinhar de novo.
Então assim, a geladeira da casa da minha avó sempre teve uma marinex oval com tampa, bem anos 80, com um feijão muito cremoso, muito clarinho, muito alhudo. Ninguém da minha família, nem eu, a gente não consegue reproduzir o feijão da minha avó, tamanha a peculiaridade daquele feijão, não só em sabor, mas em cor, em textura.
A minha mãe gostava de fazer nhoque do zero e molho de tomate. A tia Nana, que era a minha madrinha, fazia um pudim de leite que ela não tinha receita, nem medida, ela fazia de olho e ficava sempre muito alto. E ela falava “hoje é com furinho ou sem furinho?” A gente falava “sem furinho!” e assim saía. “Com furinho!” e assim saía. A gente pedia “tia Nana, dá receita”, “ah não sei, fica do meu lado e vai olhando”.
A minha avó também, ela pedia desculpa quando ela só tinha carne de segunda. A melhor carne da vida. Então, se eu pudesse comer um prato hoje, para lembrar dessa casa e da minha avó, seria arroz, feijão, catalônia refogada, carne de panela e um ovinho frito. Era um ovinho frito, numa frigideira surrada. Melhor ovo da vida.
Registros: Camilla Loreta
Patty Durães veste:Blusa Modal Ampla Sofia Areia, Calça Modal Emma Areia, Blusa Seda Ana Impressão Botânica Cebola Roxa, Calça Seda Emma Impressão Botânica Cebola Roxa, Camisa Modal Aruna Lilás, Bermuda Modal Ampla Aruna Lilás, Colar Aranha, Anel Aranha e Rasteira Cetim Impressão Botânica Urucum
Aniké veste: Regata Modal Canaletas Íris Marrom, Calça Modal Canaletas Íris Marrom, Colar Milho Crioulo, Rasteira Cetim Impressão Botânica Araucária
Ivy veste: Camiseta Flavia Aranha + Greenpeace, Shorts Linho Flavia Off White, Scrunchie Seda Impressão Botânica Araucária e Rasteira Cetim Impressão Botânica Araucária