THEODORA PRADO _ DIÁLOGOS DO VESTIR #27

THEODORA PRADO _ DIÁLOGOS DO VESTIR #27



Theodora Prado (28 anos) é velejadora e skipper profissional. Nascida no interior do Paraná, trocou o trabalho no mercado financeiro pelo oceano após descobrir no surfe e na vela uma forma de viver em contato com o vento, com as águas e a própria coragem. Em 2026, tornou-se a primeira mulher a completar a regata Cape2Rio em navegação solo, cruzando o Atlântico entre a Cidade do Cabo e o Rio de Janeiro.

Nos encontramos para velejar em seu barco, em Ubatuba (SP), onde conversamos sobre o mar, o vestir e os elementos que unem nosso fazer.

[F - A] THEODORA, COMO É A SUA RELAÇÃO COM O VESTIR?
THEODORA: O vestir, para mim, é muito uma forma que você tem de se expressar para o mundo e, ao mesmo tempo, encontrar o equilíbrio entre conforto e se sentir bem. Se vestir conforme a gente gosta e com tecidos de qualidade, eu acho que transformam a nossa autoestima, nos dá poder e comunica muito de quem a gente é.

[F - A] POR QUE VELEJAR? DE ONDE VEIO SEU DESEJO DE ESTAR NO MAR?
THEODORA: A vela é onde eu me encontrei com profundidade, é onde eu pude mergulhar em mim mesma e encontrar todos os meus sonhos e desejos. Eu pude me redescobrir, me conectar com a natureza de uma forma muito verdadeira. Eu amo estar aqui.

[F - A] VOCÊ SE TORNOU A PRIMEIRA MULHER A REALIZAR SOZINHA A CAPE TO RIO. VI VOCÊ FALANDO SOBRE O TAMANHO DESSA CONQUISTA EM UM ESPORTE DOMINADO POR HOMENS NORTE-AMERICANOS E EUROPEUS. PODERIA CONTAR UM POUCO DO QUE SIGNIFICA ESSA TRAVESSIA PARA VOCÊ?
THEODORA: Para mim, realizar a Cape to Rio, que é uma regata super tradicional e internacional, foi uma verdadeira honra. Essa regata é uma celebração do hemisfério sul entre Brasil e África, onde a gente acaba, mesmo sem querer, tendo uma imersão nas nossas origens. Completá-la para mim é especial porque eu quero que mais pessoas possam celebrá-la e realizá-la. Quero muito que outras pessoas sintam-se inspiradas, não só na vela, mas também para realizar os seus sonhos e fazer o que te faz feliz.

[F - A] O VENTO, A ÁGUA, O SOL E O TEMPO MOLDAM A EXPERIÊNCIA DE QUEM NAVEGA. COMO ESSES ELEMENTOS ATRAVESSAM SUA FORMA DE PERCEBER O MUNDO?
THEODORA: O mar me traz muito para o presente. E, numa época que a gente vê tantas questões com ansiedade ou mesmo depressão, acho que você viver no presente, por estado completo, é uma grande dádiva, um verdadeiro privilégio. Eu vivo agora. Para mim, não importa o que vai acontecer amanhã, porque o que importa é o vento que tenho hoje, a condição do mar hoje.

Viver no presente, sem dúvida, é a maior lição que o mar deixa. Mas o mar também lembra o quanto a gente é insignificante. Quando eu falo isso, não é de uma forma negativa, mas a verdade é que ele tira esse ego do ser humano que a gente acaba construindo ao longo da vida e entende que a gente não é nada, a gente é muito pequeno. A natureza é maior do que qualquer sociedade que a gente possa construir e desenvolver.

[F - A] VOCÊ PASSOU QUASE UM MÊS NO OCEANO COM O SEU VELEIRO. O MAR PODE SER UM LUGAR INTENSO E SILENCIOSO. O QUE VOCÊ APRENDEU SOBRE SI MESMA NESSE PERÍODO, VELEJANDO SÓ?
THEODORA: Depois de 28 dias sozinha no oceano, eu aprendi muito sobre mim. Aprendi muito sobre o barco, a gente criou uma conexão onde o barco era como uma extensão do meu corpo. E, sozinha, ali eu aprendi a ter uma autoconfiança que antes eu não tinha. Eu aprendi a gostar mais de mim, eu aprendi a ouvir os meus instintos de uma forma bastante selvagem. E eu sinto que, depois dessa navegação, eu tenho mais força para fazer qualquer outra coisa.

[F - A] O MAR TEM SIDO UM TEMA FORTE POR AQUI DESDE QUE LANÇAMOS A COLEÇÃO COM O AMYR KLINK, UMA GRANDE REFERÊNCIA QUANDO SE FALA EM NAVEGAR AQUI NO BRASIL. DENTRO DESSE UNIVERSO, OU FORA DELE, QUEM FORAM AS PESSOAS QUE TE INSPIRARAM A SEGUIR ESSE CAMINHO?
THEODORA: A minha maior referência na vela foi meu professor de vela, que se chama José Spinelli. Ele hoje tem 74 anos e, nesse momento, está chegando de uma travessia do Atlântico junto com alunos. Ele me inspirou porque acho que, para além de tudo, ele me fez sentir capaz. Ele acreditou em mim quando eu mesma não acreditava. E eu acho que, em tudo na vida, seja nos esportes, nos negócios ou em qualquer outro setor, a gente precisa se cercar de pessoas que acreditam na gente, pessoas que nos estimulam e não o contrário.

[F - A] POR FIM, QUE CONSELHO VOCÊ DARIA PARA UMA MENINA QUE ESTÁ COMEÇANDO A VELEJAR?
THEODORA: Eu acho que a dica que eu deixaria para uma mulher ou uma menina que está começando a velejar é que, primeiro, não tem idade. Eu conheço mulheres que começaram a velejar com 60 anos de idade e estão aí, até hoje, navegando com o seu próprio barco.

Eu comecei velha na vela, dentro dos parâmetros de vela, principalmente aqui no Brasil. E o que eu diria é para que elas não desistam, que continuem buscando e conquistem seu espaço. Apesar de ser um esporte ainda masculino no Brasil, eu percebo que o barco é bastante feminino também e ele precisa das nossas qualidades a bordo. A gente é capaz. Eu acho que, às vezes, a gente fica um pouco com receio por não ter força. No meu caso, eu não tenho muita força e muito tamanho.

Mas a gente tem que entender que os barcos e os equipamentos estão aí para serem utilizados e que, através desses equipamentos, a gente consegue reduzir essas dificuldades que a gente tem. E o recado que eu quero deixar é para que insistam, persistam e busquem seu lugar.

Registros: Bruno Leão
Theodora Prado veste: Camiseta Manga Longa Chegada Barco Amyr Klink, Regata Planta Amyr Klink, Shorts Linho Flavia Índigo, Pashmina Seda Índigo

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